Feira SP-Foto perde galerias de peso em edição virtual, mas reúne mais casas

Evento caçula da SP-Arte que também migrou para o digital amplia lista de participantes com coletivos e espaços iniciantes

São Paulo

Três meses depois de a SP-Arte migrar para o digital, agora é a vez da SP-Foto, sua irmã caçula especializada em fotografia, estrear uma edição online. O evento começa nesta segunda (23) e dura uma semana.

Participam dele mais de 50 galerias, cerca de 20 a mais do que na última edição, realizada no shopping JK Iguatemi, na região oeste da cidade.

A lista de exibidores de agora é um pouco diferente daquela do ano passado, porém. Ficaram de fora algumas das casas contemporâneas mais fortes de São Paulo, como Fortes, D'Aloia & Gabriel, Mendes Wood DM e Vermelho. E entraram uma série de coletivos, a maioria ligados a pautas em voga hoje.

É o caso do americano MFON, o Women Photographers of the African Diaspora, e do brasileiro 0101, dedicados à produção de artistas negros. Ou do Documenta Pantanal, que apresenta na feira cliques da região feitos antes das queimadas dos últimos meses. Enquanto imagens individuais dos fotógrafos João Farkas, Luciano Candisani e Araquém Alcântara ficam em torno dos R$ 20 mil cada uma, uma caixa com seis fotos sai por R$ 4.000, conta Mônica Guimarães, uma das coordenadoras do coletivo.

Já o grosso da feira é formado por três perfis de galerias. Aquelas de mercado secundário, que lidam com trabalhos vindos de coleções anteriores e, por isso, preços mais elevados; as especializadas em fotografia, que podem ou não trabalhar com o mercado secundário; e as mais jovens, que trabalham com artistas em início e meio de carreira e preços que variam dos R$ 5.000 aos R$ 50 mil.

Os dois primeiros perfis parecem apostar alto em imagens do Foto Cine Clube Bandeirante, fundado na passagem para os anos 1940 por um grupo de amadores em São Paulo.

Considerada o marco inicial da fotografia experimental no país, a produção ganha em março do ano que vem uma exposição no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York —o que significa que agora pode ser um bom momento para comprar, antes que colecionadores internacionais também estejam de olho nela, diz a marchand Isabel Amado, da galeria de mesmo nome.

Amado se junta à galeria Luciana Brito para exibir trabalhos radicais de alguns dos expoentes mais conhecidos do grupo, como Gaspar Gasparian, Geraldo de Barros e Thomaz Farkas.

Imagens produzidas no contexto do clube também aparecem no estande da Utópica. Ali, porém, há não só obras de autores célebres, como German Lorca, como uma seleção de nomes menos conhecidos, como Alice Kanji, Dulce Carneiro e Annemarie Heinrich, algumas das poucas mulheres da associação.

À frente da Utópica, Pablo di Giulio afirma que enquanto os trabalhos delas têm valores mais baixos, uma obra de um fotógrafos mais conhecido do clube custa entre R$ 30 mil e R$ 80 mil. Os preços altos são altos porque são de edições vintage, isto é, ampliações feitas pelos próprios fotógrafos na época do clique, décadas atrás, justifica o galerista.

Tanto a Utópica quanto as parceiras Luciana Brito e Isabel Amado também apelam para projetos virtuais arrojados para turbinar as vendas. Enquanto a primeira reproduz comentários e outros sons sobre as 20 imagens que apresenta, a segunda criou um segundo "viewing room", separado do evento, e promove conversas com colecionadores também de forma independente à programação da SP-Foto.

O terceiro grupo, de galerias iniciantes, corresponde a quase um terço desta edição. Ele também parece ser o mais bem-sucedido na transição para o online, tendo reportado recordes de venda na pandemia. Profissionais do mercado afirmam que isso pode ser explicado por essas galerias praticarem preços mais acessíveis, que funcionam melhor no ambiente virtual, e por atraírem clientes mais jovens e, portanto, acostumados a esse universo.

Fernanda Resstom, que fundou a galeria Central há quatro anos, argumenta que, no caso das feiras virtuais, ainda há uma outra vantagem para espaços como o dela. Nas feiras presenciais, ela diz, as galerias são agrupadas por tipo —as de mercado secundário estão em um local, contemporâneas em outro. No online, porém, não há esse filtro, e os colecionadores acabam ficando mais abertos para conhecer novas propostas.

Resstom afirma que teve uma performance de vendas muito melhor na SP-Arte virtual do que nas edições presenciais do evento. Enquanto em anos anteriores ela chegou a vender menos de dez obras, na última feira ela vendeu quase todos os mais de 20 trabalhos que exibiu.

Agora, na SP-Foto, ela pretende repetir o feito com um projeto que tem como espinha dorsal um conjunto de obras de Gretta Sarfaty —a artista está em cartaz em "Farsa", no Sesc Pompeia. E com preços um pouco maiores daqueles praticados na galeria, que começam abaixo dos R$ 1.000. Na feira, a seleção vai de cerca de R$ 5.000 até mais de R$ 200 mil.

SP-Foto Viewing Room

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