Descrição de chapéu The New York Times

Rapper é alvo de ameaças depois de lançar músicas críticas ao governo polonês

Taco Hemingway é um dos maiores músicos do país, mas agora está no meio das guerras culturais

Alex Marshall
Londres | The New York Times

Taco Hemingway é um nome muito conhecido na Polônia. Um dos maiores rappers do país, ele tem canções que recebem milhões de visitas nos serviços de vídeo online e, antes que o coronavírus chegasse, lotava arenas onde fãs dançavam nas arquibancadas, enquanto shows de luz extravagantes acompanhavam suas coreografias no palco.

Mas no início de novembro, a expressão em seu rosto não era a de alguém que lança as bravatas típicas dos rappers. Sentado diante de um café popular em Londres, Hemingway, cujo nome real é Filip Szczesniak, parecia nervoso e evitava olhar nos olhos do interlocutor.

"Sempre fui uma pessoa muito ansiosa”, disse ele, se explicando. Szczesniak raramente posta mensagens nas redes sociais ou concede entrevistas, por medo de que cada palavra que diz venha a ser dissecada pela mídia ou os fãs poloneses. Esta é a primeira entrevista que ele concede a um jornal ou revista impressa desde 2015 e a primeira de sua vida em inglês. Szczesniak diz que só concordou em falar porque seus pais não o "perdoariam caso dissesse não” ao jornal americano The New York Times.

Havia outras razões para que a ansiedade de Szczesniak estivesse aflorando. No trimestre passado, ele lançou uma faixa, “Polskie Tango”, que muita gente entendeu como crítica direta ao governo direitista de seu país e à cultura do medo que este muitas vezes parece ter criado na Polônia, por causa de seus ataques aos direitos dos LGBTs e das mulheres.

“Nossas cores nacionais são como as do Papai Noel”, ele canta no refrão, falando da bandeira vermelha e branca de seu país, “o que faz sentido, porque deixei de acreditar na Polônia há muito tempo”.

Ele logo se viu sob ataque nas redes e se tornou alvo de jornalistas conservadores, conta Szczesniak. “Acabei envolvido em política”, ele acrescenta. “E isso não foi agradável.”

Esta entrevista provavelmente despertará controvérsia e o fará ser classificado como “inimigo e caluniador da Polônia”, ele acrescentou. Szczesniak não parecia estar ansioso para passar por isso. Também sabia o quanto a situação anda tensa na Polônia nos últimos dias. Um dia antes da entrevista, a decisão de um tribunal havia restringido severamente o direito de aborto no país, e as pessoas já estavam nas ruas protestando.

Ao ser questionado a respeito, Szczesniak se irritou visivelmente. “É terrível”, disse ele. “Mais um passo na direção errada para a Polônia.”

“Não acredito que mencionar as preocupações seja antipatriótico”, continuou. “É patriótico apontar todos os delitos do partido governante e esperar por um futuro melhor. Na verdade, o que não é patriótico é simplesmente aceitar tudo, levar uma surra calado.”

Szczesniak, que tem 30 anos, demorou muito tempo para se envolver com política. Ele começou no rap aos 17 anos, gravando algumas canções em inglês no porão da casa de sua mãe. Ninguém escutava as gravações, afirmou ele rindo. Pelos oito anos seguintes, ele fez rap em suas horas vagas, enquanto se formava em antropologia e arranjava emprego como redator.

Em 2015, ele começou a se tornar conhecido na Polônia, depois de lançar um disco em polonês chamado “Warsaw Triangle”, sobre três amantes que se perseguem sem felicidade alguma pelas ruas da capital polonesa. O álbum se tornou sucesso mesmo sem muita divulgação, e logo Szczesniak começou a lançar um novo disco a cada verão, saltando alegremente de estilo a estilo, do trap ao dance e sons oníricos como os de Drake.

Mas recentemente, disse Szczesniak, ele começou a se sentir aprisionado numa fórmula. “Os discos que eu gravava eram ou sobre festas ou sobre estar cansado de festa e sobre querer minha vida antiga de volta”, disse. “Por isso pensei que era hora de mudar de tema.”

Em janeiro, ele decidiu, pela primeira vez, “compor um disco sobre a Polônia”. A decisão foi tomada em parte por causa da piora na situação política e social da Polônia, ele afirmou. O país está há anos envolvido numa severa guerra cultural, com os progressistas de um lado e o partido governista, o Lei e Justiça, populista, e seus partidários conservadores do outro.

“Polskie Tango”, o primeiro single do novo disco de Szczesniak, tornou clara a direção em que a música dele seguiria. O impacto do disco veio, segundo o rapper, em parte por causa do momento escolhido para o lançamento –dois dias antes da eleição presidencial polonesa, em julho.

A canção na verdade não menciona de forma direta o Partido Lei e Justiça, mas o vídeo trazia uma referência clara. No final, apareciam oito estrelas, um meme de internet cuja intenção era representar a versão censurada de um palavrão, e as iniciais do partido governista.

“Eu quis extravasar, por um minuto”, disse Szczesniak. “E também queria que meus amigos pudessem extravasar.” A canção atraiu 5 milhões de visitas no YouTube em seu primeiro final de semana, “Foi um choque forte, porque era Taco”, disse Cyryl Rozwadowski, jornalista do site musical Poptown. “A música dele vinha se tornando mais e mais egocêntrica e era dirigida a meninas adolescentes.”

Os elogios iniciais logo foram seguidos por críticas nas redes sociais e na imprensa conservadora polonesa. “Taco, seu anormal!”, dizia a manchete de um artigo no site conservador de notícias Niezalezna, no qual o rapper era acusado de “zombar grotescamente dos símbolos nacionais”.

Szczesniak disse ter recebido ameaças pelas redes, por causa da faixa, e se viu envolvido em numerosas teorias da conspiração. Muita gente disse que a namorada do pai dele, jornalista e notória crítica do governo, estava envolvida na canção. “A reação foi forte demais —eu não tinha como a ignorar mesmo que tentasse”, disse Szczesniak.

“Polskie Tango” foi seguido por um disco duplo, a primeira metade, “Jarmark”, é política, enquanto a segunda metade, “Europa”, que chegou uma semana depois, tinha por objetivo ser totalmente dedicada à diversão. (Juntos, os discos formam o nome de um antigo mercado de Varsóvia.)

O cerne narrativo de “Jarmark” está em três canções chamadas “The Chain”, que descrevem a raiva sendo transmitida de pessoa a pessoa numa cidade da Polônia, de um jornaleiro a um estudante, para chegar a um imigrante motorista da Uber e a um empresário, num ciclo interminável.

Muitos fãs esperavam que o lado político do disco fosse um longo ataque ao governo da Polônia, disse Rozwadowski, e para eles o resultado foi decepcionante. Havia canções que criticavam o governo e a Igreja, mas o disco evitava tópicos como o uso de retórica homofóbica pelo governo polonês.

O disco está repleto de “pílulas amargas de engolir, tanto para quem pensa que tudo está bem na Polônia de hoje quanto para quem se inclina a culpar o governo por tudo que acontece de errado”, escreveu Jarek Szubrycht em uma resenha para o jornal Wyborcza, a principal publicação progressista polonesa.

Havia rumores, na indústria musical polonesa, de que Szczesniak teria atenuado o conteúdo do disco devido à reação negativa a “Polskie Tango”, segundo Rozwadowski. Do lado de dentro do café, depois que começou a chover, Szczesniak admitiu ter alterado dois versos para remover nomes de políticos, porque ele não queria que o álbum fosse descartado como um trabalho partidário ou solapar sua mensagem mais ampla sobre questões que afetam toda a sociedade polonesa.

Mesmo sofrendo com a ansiedade, Szczesniak foi direto ao falar de suas opiniões políticas, durante a entrevista. Mas ainda parecia em conflito entre expressar suas opiniões, correndo o risco de não ser compreendido ou evitar o risco e manter o silêncio.

Ele disse que era improvável que gravasse um novo disco político. Mas momentos mais tarde pareceu mudar de ideia. “Continuo muito exausto depois de ‘Polskie Tango’”, declarou. “Pode ser que eu esteja naquela fase de uma pessoa de ressaca que diz que nunca vai mais vai fazer alguma coisa. Pode ser que eu volte a isso.”

Três dias depois da entrevista, Szczesniak parecia mais perto de uma decisão sobre qual seria seu engajamento político dali em diante. Ele publicou uma mensagem no Instagram Stories, o que faz raramente, falando dos protestos em torno da nova lei de aborto polonesa, que haviam se tornado mais e mais tensos, com políticos do partido governista definindo as dezenas de milhares de manifestantes como criminosos.

“Tenho muito orgulho do que está acontecendo na Polônia”, escreveu Szczesniak. “Se mantenham alertas, gritem, marchem, cantem, protestem —lembrem o governo que estamos de olho neles”, ele acrescentou.

A mensagem foi assinada como Filip, e não como Taco Hemingway, e ele parecia ter decidido uma vez que valia a pena erguer a cabeça acima da trincheira, na guerra cultural —embora nesse caso a mensagem tenha desaparecido automaticamente depois de 24 horas.

Tradução de Paulo Migliacci

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