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'The Crown' finalmente faz de Elizabeth 2ª a vilã de sua própria história

Quarta temporada da série da Netflix chega mais agitada, mas tem exageros dispensáveis

Nova temporada de 'The Crown'

  • Quando a partir de domingo (15)
  • Onde Netflix

“O que eu estou fazendo aqui?”, pergunta a primeira-ministra Margaret Thatcher a seu marido Dennis. A convite da família real britânica, o casal está passando um fim de semana no castelo de Balmoral, na Escócia, e sendo submetido a provações humilhantes, como uma caçada sob chuva fina, ridículos jogos de salão e até um pito por sentar “na poltrona da rainha Vitória”. Como anfitriões, os Windsor deixam muito a desejar.

“Estou lutando para encontrar qualidades redentoras nessa gente”, prossegue a Dama de Ferro. “Eles não são sofisticados, nem cultos, nem elegantes, nem nada perto de um ideal. Eles são... Chatos, esnobes e mal-educados”, completa Dennis.

Bem-vindos à quarta temporada de “The Crown”, em que Elizabeth 2ª, papel de Olivia Colman, praticamente se torna a vilã de sua própria história. Presa a formalidades e incapaz de manifestar afeto pelos filhos nem quando está a sós com algum deles, a monarca não entende mais o que seus súditos —e mesmo seus parentes mais próximos— esperam dela.

O período coberto por esta nova fase vai de 1977 a 1990, uma era de enormes transformações políticas e sociais, e é marcado pela entrada em cena de duas outras grandes figuras femininas. A primeira é a senhora Thatcher, eleita em 1979 ao posto máximo do governo do Reino Unido. Orgulhosa de sua origem humilde e de sua rígida ética de trabalho, a primeira mulher a se tornar primeira-ministra britânica não tem muita paciência para os salamaleques que a convivência com os “royals” impõe a ela.

Disposta a consertar a economia do país nem que isso custe, num primeiro momento, mais desemprego e inflação, ela também é pintada como uma megera sem charme nem humor, o que não corresponde à realidade. Com a voz exageradamente rouca e um eterno ar de reprovação, a atriz Gillian Anderson –a agente Scully da série “Arquivo X”– transforma o personagem numa caricatura, pronta para participar de um esquete do humorístico “Saturday Night Live”.

A outra mulher-chave dessa temporada é, evidentemente, Diana. A novata Emma Corrin captura com precisão os ombros encolhidos, o olhar tímido e a cabeça eternamente inclinada que a princesa de Gales exibia em seus primeiros anos sob o escrutínio público.

Mas o roteiro soa falso quando, já noiva do príncipe Charles, a jovem lady Spencer vai morar no Palácio de Buckingham. É improvável que ela, nascida e criada numa família rica e aristocrática, se deslumbrasse feito uma caipira diante da vastidão faustosa de seu novo endereço.

“The Crown” nunca se vendeu como um documentário fidedigno, mesmo bebendo da ampla bibliografia sobre a monarquia britânica e de relatos impiedosos de testemunhas oculares, que volta e meia pipocam na imprensa.

Como em qualquer obra dramática, situações são criadas, suprimidas ou condensadas, e diálogos que aconteceram entre quatro paredes precisam ser inventados. O que importa é ser fiel à essência dos protagonistas.

Mas uma sequência, em especial, peca pela falta de sutileza. Incentivada por Charles, Diana aceita almoçar com ninguém menos do que Camilla Parker-Bowles, que manteve um caso com o príncipe mesmo depois que ele se casou. O restaurante escolhido, que realmente existiu na Londres dos anos 1980, se chama Ménage à Trois —mas será que elas foram lá mesmo? Quando chega a conta e Diana propõe que cada uma pague sua própria despesa, Camilla dispara “eu adoro dividir”.

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A ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher - Getty Images/BBC News Brasil

Tais exageros seriam dispensáveis, já que esta é mesmo a temporada mais agitada de “The Crown”. A década coberta foi mirabolante para os Windsor, que passaram por dois casamentos reais, um atentado a bomba e até uma invasão dos aposentos da rainha por um reles plebeu, que burlou o então pífio esquema de segurança. Felizmente, o sujeito só queria conversar, e Elizabeth 2ª manteve o sangue frio graças a sua treinadíssima fleuma.

Além disso, os eventos narrados ainda estão frescos na memória de muita gente. E é fascinante ver o que teriam sido os bastidores de tantos fatos históricos, mesmo com uma certa dose de ficção por cima.

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