Livros românticos que são sucesso de vendas chegam às plataformas de streaming

Ainda que empresas disputem direitos de adaptar propriedades intelectuais, poucos dos títulos chegaram às telas

Alexis Soloski
The New York Times

Chris Van Dusen não se descreve como um leitor ávido de romances de amor. “Eu tentei algumas vezes”, ele afirmou em uma entrevista recente, “mas não posso dizer que minha estante esteja lotada de romances de amor”.

No entanto, como criador de “Bridgerton”, nova série da Netflix que se passa na Inglaterra da época da regência [começo do século 19] e gira em torno de um aristocrata fazendo a corte a uma jovem, com produção executiva de Shonda Rhimes, ele passa a ser membro de um clube curiosamente exclusivo: o de profissionais que levam à televisão livros românticos de grande sucesso de vendas.

No mundo literário, os livros românticos, e os da subcategoria conhecida como “rasga-corpete”, são um grande negócio. Títulos românticos vendem dezenas de milhões de cópias ao ano, e cerca de 10 mil lançamentos acontecem a cada ano nessa categoria. “Nosso setor mantém a indústria editorial em funcionamento”, disse LaQuette, presidente eleita da Romance Writers of America, uma associação de escritores desse gênero de histórias nos Estados Unidos.

Mas ainda que as redes e serviços de streaming de televisão disputem ferozmente os direitos de adaptar propriedades intelectuais com bases numerosas de fãs, poucos livros românticos de grande sucesso chegaram às telas. Com suas histórias intrincadas e personagens fascinantes, eles pareceriam oferecer muito do que a televisão quer. Mas os produtores de séries sempre se fizeram de difíceis.

“Entre os leitores de histórias românticas, houve sempre um certo espanto”, disse Eric Murphy Selinger, diretor executivo do Journal of Popular Romance Studies, uma publicação acadêmica especializada, e professor de inglês na Universidade DePaul. “Por que mais uma série de super-heróis? Por que ainda outra história repaginada, quando existem todos esses livros tão interessantes?”

Quando livros românticos são adaptados, as produções resultantes tipicamente terminam em canais menos prestigiosos, como o Hallmark, ou são realizadas como trabalhos de baixo orçamento para a TV paga ou aberta. A elevação das histórias românticas a plataformas como a Netflix, que parece ter interesse crescente por esse tipo de histórias (“Sweet Magnolias” e “Virgin River”), e o serviço de streaming Starz, que exibe “Outlander”, uma história épica de viagem no tempo e no espaço baseada em uma série de livros de Diana Gabaldon, é uma raridade.

O que faz de um trabalho de prosa um livro romântico? A Romance Writers of America define dois elementos como em geral necessários: “Uma história de amor em posição central na trama, e um final emocionalmente satisfatório e otimista”.

Alguns estudiosos da literatura romântica a datam de certos trabalhos gregos do século 2, e outros definem “Pamela”, de Samuel Richardson, como o primeiro romance a merecer o rótulo em 1740. (O livro também é muitas vezes descrito como o primeiro romance publicado em inglês.) “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, que saiu em 1813, também é apontado como precursor.

Os que preferem uma definição mais estreita começam por “The Sheik”, de E.M. Hull, em 1919; “The Black Moth”, de Georgette Heyer, de 1921; ou com os primeiros romances dirigidos ao mercado de massa, publicados pela editora Mills & Boon, que se dedicaria aos livros românticos a partir da década de 1930.

Outras formas de ficção de gênero, como os livros de detetive ou as óperas espaciais, conquistaram respeito literário, mas a reputação dos livros românticos e de seus autores jamais prosperou. Os livros dessa categoria raramente são resenhados em veículos de comunicação importantes; seus autores não são tema de perfis jornalísticos.

Por que um gênero conhecido pelos finais felizes e pelo número desproporcional de orgasmos simultâneos é tão denegrido? Selinger enumera os estereótipos que apequenam os romances de amor da seguinte forma: “São chochos. São sentimentais. São triviais. Lidam com emoções e não ideias. Não se sustentam, se lidos com atenção. E não representam um desafio para o leitor”.

Isso não é inteiramente improcedente, especialmente se aplicado a livros de editoras como a Harlequin.

Mas muitos livros de suspense e de magia e fantasia tampouco oferecem um grande desafio aos leitores.

O verdadeiro problema, muitos estudiosos que defendem a literatura romântica apontam, é que o gênero continua a ser lido e escrito principalmente por mulheres.

“Outras coisas que as pessoas que se identificam como mulheres apreciam também são tratadas como não exatamente intelectuais, como menos capazes de resistir a escrutínio do que as obras dirigidas aos homens”, disse Jayashree Kamble, professora de inglês no LaGuardia Community College. LaQuette endossa essa avaliação.

“Os livros ensinam as mulheres a exigir tratamento igual, a exigir orgasmos”, ela disse. “Criam a expectativa de que os homens tenham emoções e as demonstrem, e tenham compaixão pelas pessoas que os cercam. Em uma sociedade patriarcal, essas coisas não são necessariamente celebradas”.

Mas as feministas fizeram algumas das críticas mais duras à literatura romântica, argumentando que ela apresenta os homens como agressivos e as mulheres como submissas, que valoriza o casamento como realização culminante, que celebra casais heterossexuais, brancos e desprovidos de deficiências físicas; as críticas afirmam que essa descrição abarca tanto as histórias como as pessoas que as escrevem.

Acusações de racismo na seleção dos recebedores de prêmios anuais e de tratamento negativo de escritores não brancos abalaram a Romance Writers of America em 2020, resultando em uma mudança de liderança.

Quer gostemos delas, quer não, as histórias românticas vendem. Mas não são compradas pelo cinema e televisão.

Canonizadas como clássicos, as histórias de Austen e das irmãs Brontë têm prestígio cultural e um valor literário incontestável, que falta aos romances baratos. Ninguém usou uma foto do modelo Fabio para ilustrar a capa de uma edição de “Persuasão”.

Deixando de lado Austen e assemelhados, as adaptações de prestígio para histórias românticas recentes são escassas, com a série “True Blood”, baseada nas histórias românticas sobre vampiros de Charlaine Harris, para a HBO, constituindo provavelmente a mais notável exceção. Mas histórias de amor tórridas são frequentes em séries cujos títulos originais ocupam outras prateleiras – pense em “Normal People”, “Younger”, “Poldark” ou, de um modo mais sombrio, “You”. (A linha que separa adaptações de ficção histórica, como “Poldark” e “The Spanish Princess”, e a literatura romântica é infinitesimalmente fina.) Programas de TV como “The Bachelor” e “The Bachelorette” transpõe para os reality shows as convenções dos livros românticos.

É justo afirmar que muitas vezes existem dificuldades – financeiras e narrativas – para adaptar literatura romântica. O que faz sentido. O que seria de uma história de amor sem obstáculos? Muitos romances de amor, como as séries “Outlander” e “Bridgerton”, são trabalhos de época, que implicam em custos mais altos de produção e requerem orçamentos maiores.

“É uma tarefa intimidadora”, disse Karen Bailey, vice-presidente sênior do serviço de streaming Starz. “Não há maneira de fazer a baixo custo uma boa série de época”.

E o foco de um romance nas vidas emocionais dos personagens nem sempre se traduz com facilidade para as telas.

“Sempre digo aos nossos diretores e roteiristas que não há como filmar um pensamento”, disse Matthew Roberts, que comandou a série “Outlander”. Ele descobriu que sequências com narrativas em off deixavam os atores fazendo nada na tela. Monólogos interiores têm de se tornar diálogos exteriores.
“Esse é sempre o nosso maior desafio”, ele disse.

Outro desafio para as adaptações de livros românticos? O sexo. Nem todos os romances incluem cenas explícitas, mas muitos o fazem, e elas são parte dos atrativos do gênero. As redes de TV aberta e as redes básicas de TV a cabo têm limites para o que podem exibir. Em outras plataformas, garantir que o desfrute dos espectadores e o conforto dos atores sejam considerados exige cuidado e negociação.

“Fazemos cenas de batalha todos os anos”, disse Roberts. “Gastamos muito menos tempo com elas do que com garantir que as cenas íntimas, as cenas de sexo, saiam direito”.

“Bridgerton”, que estreou no dia do Natal, mostra muito sexo. (A montagem exibida no episódio seis levaria Jane Austen a se benzer com seu crucifixo de topázio.) Mas porque é uma série de prestígio e não uma produção erótica para exibição na madrugada, as cenas íntimas precisam servir a um propósito maior.

“Não teríamos uma cena de sexo desnecessária para a história, ou que não influencie a trajetória dos personagens ou expanda aquilo que está acontecendo internamente a cada um deles”, disse Van Dusen.
E esse é mais um desafio. Romances têm finais felizes. A descrição mesma da Romance Writers of America os define assim. E um final feliz pode dificultar a extensão de uma série por diversas temporadas.

É por isso que Roberts gosta de classificar “Outlander” como história de amor, mas não como história romântica.“Histórias românticas terminam, e histórias de amor continuam”, ele disse.

“Bridgerton” pode continuar. A família Bridgerton inclui oito irmãos, e Quinn escreveu uma história sobre o noivado de cada um deles. A Netflix tende a manter o sigilo sobre seu número de espectadores, e seus executivos não comentam sobre o sucesso das demais adaptações de livros românticos pela empresa.

Mas se “Bridgerton” obtiver sucesso claro, isso pode convidar os produtores a encarar as histórias românticas com mais seriedade.

O Starz já começou a fazê-lo. “Sabemos que essa audiência existe, está sedenta e quer mais”, disse Bailey.

E quando as demais redes estiverem prontas, terão centenas de milhares de histórias – algumas pudicas, algumas ousadas, algumas com piratas, algumas com lobisomens – entre as quais escolher.

“Espero muito que ‘Bridgerton’ abra o caminho para novas adaptações”, disse Quinn. “Porque temos material muito bom para servir como fonte”.

Tradução de Paulo Migliacci

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