Descrição de chapéu

Olhar agudo e mão leve de arrudA tecem poemas com música e significado

Poeta assume a fragmentação de nossos tempos e fala de nossos desastres num mundo sem eixo

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Amador Ribeiro Neto

Mestre pela USP e doutor pela PUC-SP, é professor titular aposentado do curso de letras da Universidade Federal da Paraíba.

Fragmentos de uma Canção Impossível

  • Preço R$ 40 (96 págs.)
  • Autor arrudA
  • Editora Patuá

Gregório de Matos, celebrando a unidade, apregoa num soneto —“o todo sem a parte não é todo/ a parte sem o todo não é parte”. Século 16, o mundo busca a unidade em Deus, ou em alguma coisa. Mas quer ser uno.

O poeta arrudA, em lançamento recente, assume a fragmentação de nossos tempos e a canta “à parte/ toda essa apatia/ à parte/ em toda parte essa tal/ de tecnologia/ à parte/ esse desgaste natural/ de ambas as partes/ nem sempre tão igual/ à parte/ um e outro desastre”.

E segue falando de nossos desastres ecológicos, econômicos e pessoais num mundo sem eixo, sem norte, à parte, mas em toda parte, fragmentado.

O poeta e músico ArrudA
O poeta e músico arrudA - Luís Dávila/Divulgação

"Fragmentos de uma Canção Impossível" é uma obra pensada desde sua estrutura interna até o projeto gráfico. Constituída por 50 poemas, em sete partes, cada uma delas com sete poemas, e um de abertura.

Na literatura, como nas artes, o número sete, cabalístico, sempre é impregnado de significações, bem como o um. A ideia de infinito e de unidade, respectivamente, permearão os poemas e o projeto gráfico. Ambas em conflito. Fragmentárias.

Os poemas se inter-relacionam num movimento elíptico interno em que cada qual possui um centro móvel que se comunica com os centros dos demais. À distância, as elipses iconizam vários planetas em movimento dentro de uma órbita.

Desta feita, a leitura dos poemas se torna intercambiável e os temas interpenetráveis. Como se depreende do fragmento citado, a musicalidade não é mero recurso metafórico do título —ela habita o corpo do poema como uma camada de significação e beleza.

Capa, projeto gráfico, ilustrações internas assinadas por Gabriel Marcondes Egestos são um todo único que ora se fragmenta para abrir cada parte do livro, ora se une para compor a capa. O prefácio analítico e esclarecedor é assinado por Lucia Rosa, criadora e coordenadora do Coletivo Dulcineia Catadora, em que o poeta publicou 23 poemas de arrudA.

Os 50 poemas não têm títulos. São numerados de um a sete dentro de cada parte. Mas podem ser lidos independentemente. “Nunca/ estivemos/ tão/ próximos/ dos nossos/ ossos/ nunca/ chegamos/ tão perto/ dos nossos/ desertos/ nunca/ fomos/ tão íntimos/ dos nossos/ instintos/ quando/ te olho/ aqui de dentro/ nunca/ fomos// tão infinitos.”

Quase sempre são uma longa estrofe seguida por uma pausa e uma segunda estrofe composta por um único verso que ocorre depois de leve suspensão rítmica.

Linguagem sintética, versos curtos, lirismo com rigor, rica apropriação de imagens do cotidiano, espontaneidade colhida com precisão e simplicidade. Tudo revelado como novidade do primeiro contato.

Assim é o olhar agudo e a mão leve, certeira de arrudA ao recolher planetas, estrelas, hibiscos, luas, sóis, girassóis, rios, calêndulas, ruínas, satélites, crustáceos, pássaros, planetas, terremotos, tecnologias, ossos. Assim é a semântica do poeta –elementos da natureza, da cultura e do tempo. Fragmentados e inter-relacionados numa teia que ele tece com suave música e significados.

Seus versos podem ser lidos até o final da linha ou segundo o enjambement, que é o recurso literário em que um verso continua no seguinte pelo ritmo, sintaxe e sentido. Como arrudA despreza a pontuação, o uso do enjambement é um convite ao leitor para que a danças das elipses das sete partes do livro reverberem múltiplas significações. E que a poesia se espalhe numa galáxia de novas sensações e novos sentidos.

Num mundo fragmentado tudo se reorganiza plasticamente para o leitor no momento da leitura da poesia. Torna-se uno.

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