Na era do streaming, filmes e séries parecem mais descartáveis do que nunca

Tendência é que minisséries ganhem destaque, mas plataformas correm o risco de terem catálogo obsoleto

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Ilustração de latas com logos de séries recentes

Ilustração de Jairo Malta

São Paulo

A série “Maniac”, da Netflix, fez barulho e ganhou a discussão do dia nas redes sociais assim que chegou ao serviço em 2018 exibindo os rostos famosos dos atores Emma Stone e Johan Hill.

Faz pouco mais de dois anos da estreia desta que foi uma aposta importante no catálogo da plataforma —mas que dificilmente se verá hoje nas várias indicações que a Netflix dispara a seus assinantes.
O fenômeno de séries tomando conta do debate público e desaparecendo em instantes não é exclusivo dessa obra. Foi o caso, por exemplo, de “Emily em Paris”, que ganhou a atenção de espectadores logo que entrou no ar.

“O Gambito da Rainha” e “Bridgerton”, também produções recentes da plataforma, se tornaram as mais vistas da Netflix em menos de um mês, e indicam um consumo feroz de conteúdo pelos assinantes.
Com o público assistindo cada vez mais rápido às produções e com uma valorização crescente de novidades, estariam as plataformas de streaming se distanciando dos clássicos e as séries se tornando muito mais descartáveis?

Thiago de André, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, diz que não necessariamente um produto audiovisual é pensado para durar, mas que a tendência de um catálogo com mais obras e que mira uma produção vultosa cresceu ainda mais com a quarentena.

“A pandemia acelerou um movimento que já estava acontecendo que é, por um lado, uma multiplicidade de conteúdos mais individualizados e, em paralelo, um hábito das pessoas de uso de consumo de entretenimento que vai para além dos meios tradicionais, mas que se relaciona com as redes sociais.”

Isso porque, afirma o professor, o streaming concorre com mídias sociais como o Twitter e o Instagram pela atenção dos seus assinantes.

“O conteúdo nessas mídias tem características bem especiais. Sempre há informação nova. Ele, em geral, é muito recente e está relacionado a pessoas próximas ao usuário. Ou seja, ele tem grandes chances de ser algo interessante.”

É justamente essa velocidade de lançamentos que tem sido a aposta dos produtores de séries. Um levantamento da FX mostra que, em 2019, 532 séries foram ao ar nos Estados Unidos, um número 52% maior do que em 2013, ano de estreia de “House of Cards”.

Não que todos os lançamentos sejam séries facilmente esquecidas —entre os títulos de 2019, estão “Fleabag” e “Succession”, por exemplo, ambos sucesso de crítica.

Um segundo evento marca essa meta de produção que parece mais quantitativa do que qualitativa —a Netflix anunciou que terá uma estreia de filme por semana em 2021.

“Tenho dúvida em relação ao que é descartável, se é porque os filmes de fato não são memoráveis ou se porque o público está sendo tão atolado de títulos novos que não dá conta da atenção”, diz o professor.

Além dos lançamentos de obras nem tão memoráveis, ele lembra que segundas temporadas mais fracas de séries que haviam sido um sucesso de público também põem em xeque a possibilidade de um título se tornar um clássico instantâneo. É o caso, em sua avaliação, da última temporada de “Game of Thrones” e de “Narcos”.

Rodrigo Petronio, que ensina como escrever roteiros na Fundação Armando Álvares Penteado, diz que um formato que surge nesse cenário é o da minissérie com duração limitada. Ele lembra que não é fácil manter um público cativo por várias temporadas, como em “Grey’s Anatomy”.

“‘O Gambito da Rainha’, por exemplo, é uma série muito boa, tem uma boa construção, mas no fundo são fogos de artifício. Chama a atenção para um tema, uma questão, uma série que se relaciona com questões da sociedade, e então esses fogos de artifício evaporam”, afirma Petronio.

Ele diz, no entanto, que mesmo que essas séries sejam feitas para uma duração específica, nada impede que elas sejam vistas como grandes produções audiovisuais num futuro um pouco mais distante.

Petronio vê pontos positivos nesse movimento —segundo o especialista, ele gera uma
diversificação de histórias, personagens e formatos. Mas tentar manter essa velocidade de novidades também pode ser um tiro no próprio pé.

Na visão dele, as plataformas podem ter de investir em produções mais longevas para não ficar com um catálogo obsoleto no futuro próximo.

Liliah Angelini, especialista da consultoria WGSN Brasil, aponta que um caminho que as plataformas podem seguir é a de vídeos mais curtos, impulsionadas por fenômenos como o Tik Tok, que é tendência entre as gerações mais jovens, os futuros consumidores.

“Existe uma preocupação do consumidor a longo prazo, pensando que a gente tem uma oferta cada vez maior de produtos concorrendo entre si.” E esse novo consumidor jovem, que não demorará para conseguir pagar sua própria assinatura, não consome pouco. Ela diz que usuários do Tik Tok chegam a consumir mais de 1 bilhão de horas de vídeo.

Thiago de André, o professor da Universidade de São Paulo, também aponta uma demanda de conteúdos mais leves, como a própria “Emily em Paris”. Essa série, aliás, chegou a ser lembrada pela The New Yorker como exemplo de “TV ambiente”, a campeã de um novo fenômeno de programas que são tão ignoráveis quanto interessantes.

“As pessoas querem dar uma certa respirada”, diz André, sobre esse tipo de conteúdo. “Existem limites para quanto você consegue convencer um usuário a ficar na plataforma.”

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