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'Amor de Mãe' volta ao ar puxando debate sobre presença da pandemia na TV

Novela decidiu absorver a Covid-19, enquanto produtores de séries ainda não sabem como lidar com a doença

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São Paulo

Ruas vazias, lojas fechadas, estações de higienização nas casas cenográficas e máscaras personalizadas, seguindo o estilo do personagem. É assim que a novela “Amor de Mãe” vai voltar com capítulos originais a partir do dia 15 de março, para sua segunda e derradeira fase, após um ano desde que saiu do ar.

Em março passado, quando o coronavírus ainda causava suas primeiras infecções no Brasil, a Globo decidiu paralisar as gravações da novela. O que, acreditava-se, deveria ser uma pausa rápida se alongou por meses e só agora o público vai descobrir se Lurdes, personagem de Regina Casé, vai encontrar o filho perdido.

A pandemia se apoderou da trama de forma contundente. O roteiro foi reescrito para incluir a Covid-19, a estética da novela foi repensada para abarcar a onipresença de máscaras e álcool em gel e um salto temporal de seis meses vai separar os capítulos que já foram ao ar dos novos, pondo os personagens direto no olho do furacão pandêmico.

A decisão de incluir a doença em “Amor de Mãe”, no entanto, pode gerar estranhamento em quem vê as novelas como escapismo. Por que o espectador, em seu momento de lazer, vai querer ser confrontado pela tragédia sanitária em sua novelinha das nove, depois de ser bombardeado por notícias da Covid-19?

Para Manuela Dias, autora do folhetim, tomar esse caminho foi inevitável. Durou muito pouco o tempo em que ela imaginou que os capítulos voltariam ao ar da maneira como foram concebidos, livres do vírus. Assim que percebeu que a pandemia se prolongaria, ela não teve outra opção, diz.

“Na hora que eu entendi que isso não ia acabar tão cedo, percebi que não tinha como seguir sem o coronavírus. A gente não podia nem ter figurante, não dá para fazer uma cidade cenográfica fantasma como se tudo estivesse normal. E a novela é um gênero muito realista, quase documental, como eu ia manter a Covid fora dela?”, questiona.

Mas Dias garante que “Amor de Mãe” continua a mesma, que não foi “sequestrada pela pandemia” e que segue afetuosa, com muitos abraços.

A televisão sempre teve mais facilidade para refletir o que está acontecendo do que o cinema. Por causa de suas tramas, em grande parte, serializadas e das exibições em paralelo às gravações, é mais fácil se adaptar ao que está em seu entorno. Por isso, muitos acreditam, “Amor de Mãe” não estará sozinha e devemos ver não só novelas, mas também séries abordando a pandemia.

Lá fora, esse vai ser o caso do revival de “Sex and the City”. A decisão gerou debates, com gente preocupada com a ameaça ao escapismo inerente à série original e até mesmo com os modelitos das protagonistas, glamorosos e, agora, talvez acompanhados por desinteressantes máscaras de proteção. A vida em Nova York mudou completamente por causa da doença, disse a atriz Sarah Jessica Parker à Vanity Fair sobre a decisão e sobre a cidade que é também personagem.

Dias está aliviada por não ter que se preocupar com a desglamorização dos seus personagens, mais gente como a gente, mas faz um parêntese: “Quando o espectador está emocionado, ele não se preocupa com o álcool em gel em cena, e se o fizer, é sinal de que fracassei como roteirista”.

É inevitável, no entanto, que a onipresença de máscaras e álcool e o distanciamento social gerem um impacto visual nas obras que absorverem a Covid-19. Além de constantes lembretes da tortuosa realidade fora das telas, eles forçam uma mudança estética.

Em “Amor de Mãe”, a figurinista Marie Salles conta que os personagens vão repetir muito as roupas, já que passam boa parte do tempo em casa, e as máscaras que usarão vão refletir seu estilo. Vitória, a elegante personagem de Taís Araujo, vai vestir modelos que combinam com os looks, enquanto Ryan prefere as que levam a palavra “fé”.

Já nas casas de cada um deles, estações de higienização foram montadas, pois mesmo ao chegar da rua cenográfica será preciso ter cuidados. Tudo faz sentido numa trama que reflete o Brasil, acredita Dias. E é justamente o grau de proximidade de cada roteiro com o mundo real que deveria definir se a doença deve ser uma preocupação.

A Covid-19 pouco importaria em séries como “Succession”, que, mesmo em sintonia com os tempos atuais de poder concentrado em conglomerados, não costuma flertar diretamente com acontecimentos verídicos. O mesmo deveria valer para “Sex and the City”, acreditam alguns fãs, já que a trama apresenta uma vida de conto de fadas cosmopolita sem muita intenção de abordar assuntos delicados.

Já em programas como os hospitalares “Grey’s Anatomy” ou “Sob Pressão”, a decisão de falar da pandemia foi natural. Bem como na sitcom “Superstore”, que retrata o dia a dia num supermercado, um dos poucos lugares que temos visitado. Quem surpreendeu foi “This Is Us”, que largou o dramalhão gratuito para destacar assuntos sérios, como a Covid e o Black Lives Matter.

Produtores ainda não chegaram a um consenso e, na Globo, não há notícias sobre como as próximas novelas vão encarar a questão. Pelo tímido número de obras televisivas gravadas e lançadas na pandemia, nota-se que roteiristas e produtores têm seguido caminhos bastante distintos.

É provável que as novelas, mais próximas da realidade do espectador, contraiam a doença, assim como outras tramas mundanas, como “Superstore” e “Segura a Onda”, que pretende falar sobre o assunto.

“Eu acho que tem espaço para tudo”, afirma Dias. “Mas acredito que a pandemia certamente vai aparecer em muitas coisas, principalmente como pano de fundo. Até porque a gente precisa disso, a contação de histórias existe para ajudar a gente a processar as coisas, não só para relaxar."

Amor de Mãe

  • Quando Retrospectiva de seg. a sáb., por volta das 21h30. Novos capítulos a partir de 15/3
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