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Ringo não vai além de nível mínimo de primor musical em 'Zoom In'

Novo EP não é mais do que outro item de colecionador para quem compra qualquer coisa relacionada aos Beatles

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Zoom In

  • Autor Ringo Starr
  • Gravadora Universal Music

É um momento de alegria para a enorme comunidade beatlemaníaca pelo planeta. Ringo Starr lançou um disco. Um EP de cinco faixas. Se não é exatamente um lançamento com candidatos a novos clássicos do rock, traz o cantor e baterista com vontade de fazer coisas novas, o que não é pouca coisa nesse cenário pandêmico.

“Zoom In” não vai muito além de um mínimo nível de excelência musical que as qualidades de Ringo e seus inúmeros convidados nas gravações podem garantir. Falta uma faixa com cara de hit global.

Em duas dezenas de álbuns, a carreira solo de Ringo é a mais insípida entre as apresentadas pelos integrantes dos Beatles. George Harrison teve alguns momentos de genialidade. Poucos, na verdade. John Lennon manteve a contundência ao longo da década de 1970. Paul McCartney continuou um eterno hitmaker, às vezes pela excepcional qualidade das canções, às vezes simplesmente por ser o mais adorado do quarteto por várias gerações.

Ringo teve um grande hit, “Photograph”, que chegou ao topo das paradas americanas em 1973. E por pouco não alcançou a mesma repercussão com a faixa “Hey! Baby!”, um single extraído do álbum “Ringo’s Rotogravure”, de 1976, que tinha um vídeo divertido na fase pré-histórica dos clipes, antes da MTV.

As canções de “Zoom In” poderiam estar em qualquer álbum solo de Ringo. Trazem aquela mistura de rock e standards do pop que foi sua escolha quase permanente nos últimos 50 anos. Embora ele seja autor de apenas duas músicas, em parcerias, as outras que escolheu para o disco compõem um grupo harmonioso, principalmente nas letras.

Ringo é o oitentão riponga. Costuma posar para fotos fazendo o símbolo de paz e amor do movimento hippie. Isso se reflete nos versos do novo lançamento, falando de esperança num mundo melhor, mensagem mais do que pertinente diante da situação do planeta. Pena que muitas vezes a densidade poética não ultrapasse o nível daquelas frases motivacionais que as pessoas costumam postar nas redes sociais.

Ex-beatle Ringo Starr faz sinal de paz e amor com os dedos ao ter retrato tirado em West Hollywood, na Califórnia - Mario Anzuoni - 24-out-2019/Reuters

A canção mais forte do trabalho é “Here’s to the Nights”, que Ringo lançou com um videoclipe que parece um grande happy hour de astros do rock. Foi escrita pela Midas dos compositores pop, Diane Warren, autora de, literalmente, centenas de sucessos, para clientes tão diversos como Aerosmith, Backstreet Boys, Beyoncé, Julio Iglesias e Scorpions.

Por meio do aplicativo de reuniões Zoom, devidamente homenageado no título do EP, ele divide vocais e instrumentos com Paul McCartney, Joe Walsh, Dave Grohl, Lenny Kravitz, Corinne Bailey Rae, Sheryl Crow e mais um monte de amigos. O resultado é divertido, mas compreensivelmente apenas regular. Afinal, “We Are the World” não era uma grande canção, certo?

O melhor momento de Ringo como cantor no EP está em “Zoom In Zoom Out”, escrita por Jeff Zobar e Robert Joe Turley 3º. É a faixa descaradamente rock and roll entre as cinco, com cara de hit radiofônico se as emissoras de rádio ainda tivessem força para catapultar um sucesso. E traz na gravação Robby Krieger, guitarrista do Doors.

“Teach Me to Tango”, apesar de ter esse título citando o dramático gênero musical argentino, é uma salada de ritmos composta por Ringo, Sam Hollander e Grant Michaels. Órgão e batucadas se misturam sem deixar claro para onde a canção deseja ir. Mas é a melhor letra, com um genuíno espírito hippie de cair na estrada.

“Not Enough Love in the World” foi composta por Joseph Williams e Steve Lukather, este ex-guitarrista do Toto e presença constante na All-Starr Band que Ringo reúne para turnês pelo mundo há décadas. Trata-se de um pop redondinho, mas que nunca decola. Consegue ser a faixa dispensável em um EP que não traz nada de memorável.

“Waiting for the Tide to Turn”, escrita por Ringo e Bruce Sugar, é a mais estranha do pacote. Existe uma influência de reggae aqui e ali. Um dos versos deixa isso explícito: “Vamos tocar um pouco de reggae/ e este será um dia melhor”. Não deu muito certo, mas demonstra uma afetividade de Ringo em relação ao gênero jamaicano. Vale lembrar que seu filho, Zak Starkey, ex-baterista de Oasis e The Who, hoje é dono de uma gravadora que lança artistas de reggae.

Ringo já disse que produziu o EP quando ficou chateado por não conseguir fazer a turnê do álbum “What’s My Name”, que lançou no final de 2019, por causa da pandemia de Covid-19. Para não cair em depressão, chamou os amigos para gravar, tomando todas as precauções sanitárias.

Talvez o efeito terapêutico para ele seja maior do que a empolgação que deve despertar nos fãs. Claro que, como sempre, esses vão enlouquecer com o lançamento. Mas “Zoom In” não é mais que outro item de colecionador para quem compra qualquer coisa relacionada ao quarteto de Liverpool.

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