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Renato Terra

'Amazing Grace: Aretha Franklin' capta clima dos anos 1970 que não volta

Direção tem o mérito de não interromper fruição das imagens, mostrando cada música do início ao fim

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Renato Terra

Roteirista do Conversa com Bial e diretor dos documentários 'Narciso em Férias', 'Eu Sou Carlos Imperial' e 'Uma Noite em 67'. Trabalhou na revista piauí até 2016 e foi o ghost-writer do “Diário da Dilma”

Aretha Franklin: Amazing Grace

  • Onde Disponível no Telecine Play; aluguel no Vivo Play, Google Play, NET Now e iTunes
  • Elenco Aretha Franklin, James Cleveland, Alexander Hamilton
  • Produção Estados Unidos, 2018
  • Direção Alan Elliott

O ano é 1972. A inigualável voz da jovem Aretha Franklin preenche uma igreja batista e dialoga com o coral gospel. Aretha está de branco. Quando não canta, seu semblante é humilde, sereno e atento. Sua voz a transforma numa força da natureza.

O carismático reverendo James Cleveland apresenta Aretha, discursa, toca piano e canta com ela. Cleveland flutua. Ele tem o domínio da cerimônia. Na plateia, os cabelos, as roupas, gestos contribuem pra capturar o espírito de uma época.

Esta atmosfera captada pelo filme “Aretha Franklin: Amazing Grace” jamais se repetirá. Uma atmosfera que é artística, religiosa e política.

Mulher negra usa roupa verde e canta com microfone
Cena do documentário 'Aretha Franklin – Amazing Grace', documentário de Sydney Pollack e Alan Elliott - IMDb/Divulgação

O diretor Alan Elliott tem o mérito de não interromper a fruição dessas imagens com depoimentos, arquivos, gráficos, explicações. É embarcar naquela textura de película característica dos anos 1970 e ouvir cada música do começo ao fim. É reparar nas expressões emocionadas, nos gestuais, nos bancos da igreja, nos coletes prateados dos 30 membros do Southern California Community Choir. É deixar os símbolos culturais e políticos brotarem. É desfrutar.

Aretha canta de olhos fechados, concentrada, respeitosa. Não está num palco. Entre uma música e outra, quem fala é o reverendo Cleveland, com uma voz que abraça. Aretha pede água vez ou outra, nada mais. Mesmo para os céticos, a beleza da mensagem religiosa se impõe.

“Aretha Franklin: Amazing Grace” também é um filme sobre a passagem do tempo. A juventude de Aretha no púlpito é o registro de uma potência em seu auge. Os sonhos daquela geração e as dores coletivas também estão ali.

O segundo dia de gravações traz mais elementos. No fundo da plateia, coadjuvantes, Mick Jagger e Charlie Watts assistem quietos. O pai de Aretha, o reverendo C. L. Franklin é convidado a se sentar na primeira fila e, mais tarde, faz um emocionante discurso. O reverendo James Cleveland também homenageia e convida para perto a cantora que influenciou Aretha, Clara Ward.

Toda informação necessária é passada nos três minutos iniciais. Uma câmera aérea passeia pela cidade de Los Angeles e um texto aparece no centro da tela. “Em 1971, Aretha Franklin já tinha gravado mais de 20 álbuns, vencido cinco prêmios Grammy e lançado 11 sucessos consecutivos de R&B e pop." Pela tela, pipocam os títulos dos sucessos –"Respect", "Baby I Love You", "Day Dreaming", "I Say a Little Prayer", "(You Make Me Feel) A Natural Woman" e outros.

Em seguida, o registro é feito com imagens de carros, ruas e calçadas. O texto também fecha o foco. “Em 1972, ela decidiu fazer algo diferente. Ela foi a Los Angeles gravar um álbum com as músicas que cantava na juventude.”

A câmera acompanha uma jovem frequentadora que entra na igreja New Temple Baptist Mission. Lá dentro, um músico afina seu baixo. “A senhorita Franklin levou a banda, o baterista Bernard Purdie, o guitarrista Cornell Dupree, o baixista Chuck Rainey e os produtores Jerry Wexler e Arif Mardin.” O Southern California Community Choir começa a se reunir. A plateia começa a chegar.

A apresentação de Aretha foi gravada em dois dias e resultou no disco “Amazing Grace”, que se tornou o álbum gospel mais vendido de todos os tempos. Os letreiros também contam, de forma superficial, que o filme foi gravado em 1972 e só foi lançado em 2018 por “problemas técnicos”.

A história é a seguinte –Sydney Pollack havia ganhado um Oscar com “A Noite dos Desesperados” e foi convidado para dirigir o documentário. Mas se esqueceu das claquetes.

Além de trazer informações sobre cada cena gravada, a claquete tem a função de sincronizar o áudio e o vídeo. No cinema, o som e a imagem são gravados de forma separada. Quando alguém bate a claquete, ela emite um som ao mesmo tempo em que se registra a imagem da claquete fechada. E isso permite a sincronização na montagem.

Sem a claquete, dezenas de horas de imagens e sons ficaram desconectados. “Os câmeras ficavam desligando e ligando suas filmadoras. Ligando e desligando. Então havia 15 ou 20 pontos iniciais num determinado momento do material bruto”, explicou Alan Elliot, o diretor que finalizou o filme, ao jornal The Guardian.

Elliot tinha sete anos na época em que Pollack filmou Aretha. Seu envolvimento com o filme começou nos anos 1990, quando Elliot comentou com o produtor musical Jerry Wexler que seu disco preferido era “Amazing Grace” e ficou surpreso com a resposta –havia imagens daquela apresentação.

Elliot e Wexler procuraram Pollack, mas a conversa não avançou. Dez anos depois, em 2007, quando Pollack perdia a batalha para um câncer, o filme foi entregue para Elliot. A equipe técnica levou três meses para sincronizar as 14 horas de filmagem.

Chafurdar na burocracia para liberar um documentário pode ser um processo tortuoso. Elliot só encontrou um contrato assinado por Aretha cinco anos depois, em 2013. Mesmo assim, a cantora impôs uma série de condições que impediram o lançamento do filme. Sabrina Owens, sobrinha de Aretha, disse ao Guardian que não entendia os motivos. “Ela nunca falou sobre o filme”, lamentou Owens.

Depois da morte de Aretha, Owens autorizou o filme. “Todo mundo na família tinha o mesmo sentimento. Não há nada ofensivo ali. Se ela se opusesse, nos avisaria. Isso não aconteceu”, explicou ao Guardian.

Burocracia, direitos de imagem, problemas com herdeiros são frequentes nos documentários. Muitos filmes foram perdidos ou remontados, muitas cenas foram cortadas. Dessa vez, deu tudo certo. E essa estrada longa e esburacada talvez tenha feito com que Alan Elliot respeitasse o tesouro que tinha em mãos e montasse um filme que potencializasse seus arquivos.

A canção “Amazing Grace” acumulou significados ao longo dos anos. Cada vez que ela é cantada, essas camadas históricas, políticas, raciais reaparecem. O filme, habilmente, soma novos significados à interpretação de Aretha no New Temple Baptist Mission Church em Los Angeles.


Faixas extras

Aretha Franklin revisita a igreja de sua infância em Detroit e fala de seu pai (CBS)

Aretha canta 'Rock of Ages' na Nova Igreja Batista de Bethel, em Detroit (Time)

Barack Obama canta 'Amazing Grace' (C-Span)

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