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Baudelaire chega aos 200 anos na hora em que flanar pode levar à morte por Covid

Pandemia e controle do tempo pela tecnologia mudam de vez o hábito de vagar pelas ruas, consagrado pelo poeta francês

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'Broadway Boogie Woogie', tela de Piet Mondrian

'Broadway Boogie Woogie', tela de Piet Mondrian Reprodução

São Paulo

"Paris é outra (a forma das cidades muda/ Mais rápido, bem mais, que um coração mortal." Mas será mesmo que os versos de Charles Baudelaire ainda estão certos? Muda mais rápido nosso coração ou o nosso entorno?

Nos 200 anos do poeta francês, que se completam nesta sexta, sua mais difundida criação talvez esteja prestes a se modificar para sempre.

Não se trata de uma nova descoberta relativa ao monumental "As Flores do Mal" —de cuja mais recente tradução, por Júlio Castañon Guimarães, para a Companhia das Letras, veio a tradução dos versos acima, retirados de "O Cisne".

O que as circunstâncias vêm alterando é o hábito de flanar. Resistirá ao confinamento o vagar sem destino pelas ruas? E ao controle do tempo imposto pelos aplicativos?

Retrato do poeta francês Charles Baudelaire (1871-1867), autor de "As Flores do Mal"; é um homem com fronte ampla boca fina e olhar sério, que usa uma camisa branca e uma veste cinza, com uma gravata de laço
Retrato do poeta francês Charles Baudelaire (1871-1867), autor de "As Flores do Mal" - Divulgação

Quem foi Baudelaire

Nascido em 9 de abril de 1821, há 200 anos, Charles Baudelaire rompeu com o romantismo vigente ao lançar ‘As Flores do Mal’, em 1857. O livro foi logo censurado e só voltou a sair em 1861, sem 6 de seus poemas, vistos como imorais —mas com outros 35 novos. Paris, com os tipos e os vícios da rua, adentrava a literatura, e a poesia nunca mais foi a mesma. Baudelaire, que foi também crítico, viveu uma vida boêmia e morreu aos 46 anos, vítima da sífilis


É certo que a "flânerie" já era reconhecida pela literatura desde antes —Balzac, duas décadas mais velho que Baudelaire, a chamou de "gastronomia do olho". Mas é a partir da modernidade baudelairiana que o costume se cristaliza como um topos da criação artística.

A Paris que Baudelaire identifica como outra é a do Segundo Império, remodelada pelas obras do barão de Haussmann, prefeito do departamento do Sena entre 1853 e 1870, e que o poeta viu nascer. Então se rasgou entre seu velho casario medieval a trama de bulevares que se tornou o símbolo da cidade moderna.

Ela já se modificou e, no pós-pandemia, deve mudar novamente, inclusive para que as pessoas ganhem mais espaço para caminhar. Como se exportaram os traçados haussmanianos para Buenos Aires ou para o Rio de Janeiro, no fim do século 19 e começo do 20, a caminhada sem propósito também se exportou.

Esse se deixar levar pela e na observação da cidade é costume que conforma boa parte da escrita de Baudelaire e cujo valor ele ressalta em outro de seus textos mais célebres, "O Pintor da Vida Moderna".

O ensaio de 1859 parte de Constantin Guys, pintor que de outro modo talvez fosse pouco lembrado pela história, para fazer o elogio da busca pelo novo como valor essencial da modernidade. O novo, Guys ia buscar nas ruas, retornando, embebido do que vira, ao ateliê.

O artista, escreve Baudelaire, pode ser comparado "a um espelho tão imenso quanto essa multidão, a um
caleidoscópio dotado de consciência"; ele o define como "um eu insaciável pelo não eu".

No coração mortal de escritores, colher nas ruas o "não eu" é ainda um método. Ou era. Pois como perambular perdido na multidão na era da Covid-19?

Em junho de 2020, o poeta Tarso de Melo escreveu em um postagem que só sabia "pensar andando". "Bater perna, perambular, dar um rolê —eureca! O pensamento vem —peripatético— das pernas. O poema vem —errante, 'flâneur'— das pernas".

Mas, dizia ainda, "veio a quarentena e é preciso seguir", desautomatizar de outras maneiras.

Preso em seu apartamento em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Tarso diz que é difícil tentar imaginar o que vai acontecer com a cidade quando ela puder ser retomada.

Pensando como advogado que é, especializado em relações de trabalho, arrisca dizer que o tempo irá modificar o espaço. Ou melhor, o controle do tempo por aplicativos. Nesse quadro, diz, "chega a ser absurdo falar em flâneur".

“A rua era o lugar da aleatoriedade”, mas esse inesperado foi sendo associado à perda de tempo. Quanto mais tecnologia há na cidade, mais controle do ritmo, ele ressalta.

Andar seria, assim, “um ato politicamente libertário”. Mas flanar é proibido. Julgamos quem sai à toa. Desde antes do vírus, o que as pessoas querem é “ter tudo sob controle”, medindo os horários com “esses aparelhinhos, isso que a gente hoje chama de casa”.

A frase é uma inversão do que diz o principal leitor de Charles Baudelaire, o pensador alemão Walter Benjamin, cujos escritos sobre o poeta francês se tornaram incontornáveis e contribuíram para os estudos do poeta francês e sua associação com o livre perambular. Benjamin diz que a rua é a casa do flâneur.

Mas há outras formas de levar a casa para a rua que impedem o descompromisso.

“Mesmo quando a mulher acessa o espaço público, esse movimento muitas vezes se resume a uma espécie de expansão da função do espaço privado”, escreve Camila Assad, que diz que a mulher sai à rua para a "manutenção do lar".

A citação vem de “Desterro”, terceiro livro de Assad. Poeta e tradutora, ela lê, na obra, a experiência da mulher na cidade, transferindo para a literatura as pesquisas dos tempos de estudante de arquitetura em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, onde nasceu.

Radicada na capital paulista, ela diz que percebeu “logo após os primeiros 40 dias” da pandemia quanto sua criação estava atrelada à vivência urbana. Mas conta que esta já não era sem conflitos.

Além de a mulher sair levando consigo os afazeres domésticos —o avesso da falta de propósito—, ela está na rua sob o signo da ameaça.

Livros como “Feminist City”, da geógrafa canadense Leslie Kern, ou “Flâneuse”, da escritora americana Lauren Elkin, ambos ainda sem tradução no Brasil, abordam o assunto.

A mãe dessa corrente, com que Assad dialoga, é a ensaísta americana Rebecca Solnit, que dedicou ao assunto um capítulo de seu “Wanderlust” —publicado em português apenas com seu subtítulo, “Uma História do Caminhar”.

Em “Desterro”, Assad revisitou ainda suas leituras de Baudelaire e Benjamin. E diz que, ao escrever, pensava muito no comentário do alemão sobre o ritmo do flâneur ser como “deambular com uma tartaruga”. “Para mim, as mulheres caminhariam com coelhos.”

“As Flores do Mal” levou para a poesia tipos que não cabiam nela. Os femininos, porém, sublinha Camila Assad, “são as prostitutas, a viúva, a velha, a lésbica e a passante, a mulher enquanto musa”. A mulher era “objeto de análise e observação, assim como ele fazia com a própria cidade, mais próxima da descrição da metrópole do que um ser atuante".

É de outras formas que o deslocamento se tematiza na obra da poeta Marília Garcia. Aparece, por exemplo em "Um Teste de Resistores", livro de 2014 que nasce do seu embate com São Paulo, para onde se mudara, vinda do seu Rio natal.

Ela diz ter “escrito pouquíssimo na pandemia”. Um dos poucos textos foi iniciado ainda em 2019 e surgiu da observação das árvores de sua rua.

Ao tentar adaptar o escrito para ler “num Zoom”, constatou que sua espacialidade não cabia no momento. “Era um texto do século passado! Hoje os espaços são outros.”

Há outras maneiras, porém, de entender o vagar na literatura, o que pode ser uma saída metafórica para a “flânerie”.

“Os deslocamentos no que escrevo”, diz Garcia, “podem estar muito relacionados com os da palavra no discurso”. O percurso da escrita também pode levar o autor sem que ele saiba onde vai dar.

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