Descrição de chapéu
Artes Cênicas

Ismael Ivo uniu suas raízes negras ao butô e ao teatro-dança ao criar

Vítima da Covid aos 66 anos, coreógrafo foi primeiro negro a dirigir uma companhia pública em São Paulo e na Alemanha

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

O bailarino e coreógrafo Ismael Ivo, durante coreografia em 'As Criadas', espetáculo dirigido por Yoshi Oida Lenise Pinheiro/Folhapress

Iara Biderman

A figura imponente, de terno, camiseta listrada e quepe da marinha entra na plateia do Theatro Municipal de São Paulo enquanto os bailarinos se preparam para o ensaio geral. É véspera da estreia de um espetáculo, o primeiro assinado por uma coreógrafa internacional desde que Ismael Ivo —dançarino e coreógrafo morto nesta quinta, aos 66 anos, vítima de Covid-19— assumiu a direção artística da companhia, em janeiro de 2017.

Foi uma entrada teatral e inesperada. Naquela semana, dez meses depois de se tornar diretor do Balé, Ivo fora internado por causa de uma crise renal. Ele ajeita o quepe e abre seu sorriso imenso. “Eu sou o capitão”, diz.

Quando foi convidado para o cargo por André Sturm, então secretário municipal da Cultura da gestão de João Doria, Ivo já era mais do que uma estrela da dança. Uma das figuras de destaque na cena de vanguarda dos anos 1970, quando São Paulo vivia uma explosão na dança contemporânea, foi descoberto pelo coreógrafo afro-americano Alvin Ailey, o grande nome da dança negra na época. Na companhia dirigida por Ailey, o paulistano nascido na zona leste iniciou sua carreira internacional.

Dos Estados Unidos, Ivo seguiu para a Europa, onde conheceu e trabalhou com Pina Bausch, William Forsythe, Jirí Kylián e outros da constelação dos coreógrafos de destaque no século 20. E foi muito além de uma carreira brilhante como intérprete. Atuou como diretor de dança da Bienal de Veneza e criou, em Viena, um dos mais importantes festivais de dança da Europa, o ImpulsTanz, depois de ter sido o primeiro diretor negro —e estrangeiro— a dirigir o Teatro Nacional de Weimar, na Alemanha.

Voltou ao Brasil, em 2017 para ser também o primeiro negro na direção do Balé do Theatro Municipal. Seus planos eram grandiosos. “Alguns artistas voltam ao Brasil na hora de se aposentar, mas eu estou em plena atividade. Achei ser um bom momento para ocupar uma posição de destaque na dança no meu país”, disse à este jornal na época.

Pretendia trazer estrelas internacionais para coreografar espetáculos da companhia. Uma das promessas, não realizada, era Marina Abramovic.

Também planejava levar ao palco do Municipal os debates contemporâneos, dos gerais, como a questão do corpo negro, aos locais, como o lugar do grafite. Naquele início de 2017, o então prefeito João Doria começava uma ação para apagar murais de grafiteiros nas ruas da cidade.

Nomeado pelo mesmo prefeito, Ivo estreou no Balé da Cidade com uma coreografia celebrando o grafite na figura do artista americano Jean-Michel Basquiat. O feito não abalou as boas relações do diretor com os gestores municipais. Além do talento artístico, Ivo sabia o que significava ser “o capitão”. “Ninguém é diretor impunemente”, disse a esta repórter.

Não mesmo. As mesmas habilidades políticas que permitiram a Ivo ser o primeiro diretor negro em companhias públicas em São Paulo e na Alemanha ou tratar de um tema que poderia desagradar a própria gestão que o havia nomeado foram motivos de estranhamento entre o diretor e parte da classe artística.

Expliquemos —o então secretário municipal da Cultura, André Sturm, havia entrado numa briga com um bom número de representantes da dança contemporânea, inflamada pelos cortes de verba à área determinados por ajustes orçamentários. Muitos bailarinos não engoliram a proximidade de Ivo com o secretário e o prefeito, como também, mais tarde, não perdoaram a filiação do diretor ao PSDB de Doria.

Mas o destaque de Ivo não está atrelado aos contatos ou estratégias políticas. Em sua formação, ele bebeu das melhores fontes, do brasileiro Klauss Vianna, pioneiro na criação de uma dança contemporânea nacional, ao americano William Forsythe, passando pela grande dama da dança-teatro, Pina Bausch, e ainda o mestre de butô Ushio Amagatsu.

Quando o dançarino de corpo poderoso e interpretação impressionante começou a coreografar, uniu suas raízes negras aos movimentos modernos, ao butô japonês e ao teatro-dança alemão. Não é pouco.

Além disso, foi durante sua gestão como diretor do Balé da Cidade que a companhia conseguiu realizar a mudança para a atual sede, na Praça das Artes, depois de quase 50 anos trabalhando em lugares provisórios.

Foi também quando Ivo chegou à companhia que os bailarinos conseguiram, finalmente, regularizar sua situação trabalhista, trocando contratos temporários de três meses por carteira assinada. A luta para contratar os artistas em regime CLT já tinha sido iniciada por diretores anteriores à gestão de Ivo, mas foi com ele que os bailarinos viram sua efetivação.

Em 2012, ainda na direção da Bienal de Veneza e um ano antes de criar o festival ImpulsTanz, em Viena, Ivo coordenou o projeto Biblioteca do Corpo, em parceria com o Sesc e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em que levava jovens bailarinos brasileiros para residências artísticas na Europa e criações de espetáculos, apresentados no Brasil e no exterior.

Já na atual pandemia, antes de se tornar mais uma vítima da Covid, Ivo amargou reveses. Em agosto do ano passado, informações sobre denúncias de assédio moral contra o diretor vazaram e foram publicadas pela revista Veja São Paulo. Em novembro daquele ano, foi demitido do cargo pela Odeon, organização social de cultura responsável pela gestão do Municipal até então, a pedido da Santa Marcelina Cultura, OS que sucedeu a Odeon na gestão do Municipal e afirmou não ter interesse em dar continuidade ao contrato de Ivo. A Odeon teve seu contrato de gestão do Theatro Municipal rompido no ano passado, após ter suas contas de 2018 reprovadas.

Ivo dizia querer fazer ainda muito mais pela dança brasileira e chegou a afirmar à colunista Mônica Bergamo, quando se filiou ao PSDB em 2019, que “não descartaria o Ministério da Cultura em 2022”.

Após a demissão do cargo de diretor do Balé da Cidade, Ivo foi contratado como diretor artístico da TV Cultura. As últimas imagens da estrela da dança estão gravadas na emissora —num terno impecável, Ivo declama uma mensagem de esperança na superação da atual crise sanitária e, abrindo o enorme sorriso, uma profissão de fé no poder da arte e da cultura.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.