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Cinema

'Nomadland' fez Chloé Zhao trocar mundo de Sundance pelo do Oscar

Longas anteriores da diretora chinesa, favorita nesta edição do prêmio, são mais radicais ao misturar ficção e realidade

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Haja o que houver neste Oscar, Chloé Zhao já é um caso —mulher, chinesa de nascimento e revelada pelo festival de Sundance, ela concorre ao Oscar com seu terceiro filme, foi indicada em quatro categorias e já chega levando debaixo do braço um Globo de Ouro de melhor direção, entre outros.

Certo, estamos em um ano de exceção. Entram os filmes que puderam entrar. Do jeito que deu para ser. Mas é este mesmo, até agora, o território de Zhao. Em sua estreia, “Songs My Brothers Taught to Me”, de 2015, ela foi à reserva indígena de Pine Ridge, na Dakota do Sul, para abordar uma humanidade ignorada pelo cinema, os nativos dos Estados Unidos.

família de origem indígena no campo
Cena de 'Songs My Brothers Taught Me', da diretora de origem chinesa Chloé Zhao - IMDb/Divulgação

As esperanças, frustrações, obstáculos desse povo, quem conhece? Para eles não existe “Indigenous Lives Matter”, muito menos MeToo. Cada passo parece anunciar um perigo diferente. Não os dos filmes de aventura, mas outros, quase sempre bem cotidianos, do álcool às brigas.

Tudo favorece essas dificuldades. Os nativos constituem uma espécie de “não problema social”. Encontrar esse povo arrancado de suas origens, cristianizado, habitando uma terra aparentemente imune a um arado não é um mérito menor, certamente.

E, graças a ele, podemos passar pelos inúmeros momentos em que a câmera parece estar enquadrando qualquer coisa. Faz parte do estilo documentário, tanto quanto os truncamentos da narrativa ou, no caso, a paisagem horizontal, a planície sem graça, o pôr do sol vibrante ou os conjuntos de pedras arenosas.

Por essas paisagens ou pelas habitações pobres seguimos, no caso, os passos de três irmãos: o mais velho está preso, o segundo só pensa em se mandar para a Califórnia e a irmã mais nova só não quer perder os irmãos e, quando possível, reencontrar alguma tradição antiga.

A divisão entre ficção e documentário se dissolve nos novos independentes, como assinalou o crítico de cinema americano Richard Brody. Em Chloé Zhao, sem dúvida. Isso se dá em “Songs” e volta a acontecer em “Domando o Destino”, seu segundo longa, de 2017. Continuamos em Pine Ridge, mas agora os personagens são caubóis de rodeio. No centro está Brady Blackburn, talentoso caubói que sofre um acidente mais que problemático.

homem e cavalo no campo
Cena de 'Domando o Destino', da diretora de origem chinesa Chloé Zhao - IMDb/Divulgação

O filme se abre com Brady às voltas com as feridas que traz na cabeça recém-operada. O intérprete é Brady Jandreau, e as feridas são as que o próprio Jeandreau sofreu num acidente idêntico ao de Blackburn. Para não ir longe, Blackburn é Jandreau, assim como seu pai e sua irmã. Uma penca de coadjuvantes também interpretam seus próprios papéis, caso de Lane Scott, famoso montador de touros e um quase irmão de Brady, agora preso a uma cadeira de rodas devido a um acidente.

O de Brady foi menos grave, mas o bastante para afetar sua capacidade de viver daquilo que sabe fazer, isto é, domar cavalos e montá-los. Na reserva, os dramas são vividos com frieza, sem autopiedade. Ou antes, faça-se justiça, são filmados com frieza. Zhao capta a dureza indizível dessa vida.

Em “Nomadland” o registro não se altera demais, porém são perceptíveis sintomas de uma inquietante ambiguidade em relação às normas da indústria cinematográfica.

O assunto proposto é análogo aos dos filmes anteriores: é dos trabalhadores errantes que fala Zhao. Por trabalhadores errantes entenda-se desempregados crônicos da sociedade contemporânea, que vivem de um bico aqui, um trabalho temporário ali. Precariamente, claro.

É dessa massa crescente de deserdados da economia neoliberal que faz parte a viúva Fern, vivida por Frances McDormand. Trabalha num fim de ano como empacotadora, depois pega a van com a qual se desloca —e onde mora— em busca de alguma colheita onde possa oferecer seus serviços etc.

O ponto interessante é que Fern reage como os índios de Pine Ridge. Para ela, a vida é isso mesmo. O ponto crítico é que a margem de improviso parece ter caído, abrindo espaço para a “atuação”. É claro que Frances McDormand atua bem, assim como seu coadjuvante no filme, David Strathairn. Fern o encontrará, por sinal, no melhor momento do filme, quando ela descobre um acampamento de outros errantes.

É quando as coisas parecem fluir mais naturalmente para o filme, fugindo à rotina roteirística para se aventurar numa digressão interessantíssima sobre pessoas que adotam o desemprego como modo de vida em que o documental se intromete. No caso, o conformismo com seu estado se reveste de longas barbas e de uma espécie de felicidade de sobreviventes de Woodstock, agora na terceira idade, se ajudam mutuamente e partilham seus bens.

A mise-en-scène parece se esforçar para se manter fiel aos primeiros filmes, mas fica claro que Zhao já tem um pé em outro mundo e, no geral, fica a impressão de um neorrealismo revisitado, à estadounidense.

Como tantos talentos promissores, ela trocou o mundo de Sundance pelo Oscar. Não é uma trajetória incomum, nem condenável. Seu próximo trabalho, já em fase de acabamento, será “Os Eternos”, e desde já anuncia-se que Chloé Zhao pode virar o universo Marvel pelo avesso. É de se esperar. Mas pode acontecer o inverso, não pode?

Songs My Brothers Taught Me

  • Onde No Mubi
  • Elenco John Reddy, Jashaun St. John, Irene Bedard
  • Produção Estados Unidos, 2015
  • Direção Chloé Zhao

Domando o Destino

  • Onde No Telecine
  • Elenco Brady Jandreau, Mooney, Tim Jandreau
  • Produção Estados Unidos, 2017
  • Direção Chloé Zhao

Nomadland

  • Quando Estreia na quinta-feira (29)
  • Elenco Frances McDormand, David Strathairn, Linda May
  • Produção Estados Unidos, 2020
  • Direção Chloé Zhao
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