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Cinema

Oscar 2021 premiou o documentário mais gracioso, e não o melhor

'Professor Polvo' confirmou o favoritismo na categoria, que tinha títulos mais fortes como 'Collective' e 'Time'

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"Essa é uma pequena história pessoal que aconteceu em uma floresta marinha num canto da África", disse a codiretora Pippa Ehrlich, de "Professor Polvo", no discurso de agradecimento na cerimônia do Oscar. "Mas, em um nível mais universal, espero que tenha proporcionado uma amostra de uma forma diferente de relacionamento entre os seres humanos e a natureza", acrescentou.

O longa-metragem lançado pela Netflix em setembro de 2020 levou dez anos para ser concluído, mas começou como um projeto pessoal do sul-africano Craig Foster.

Após uma crise depressiva, ele parou de trabalhar e passou a mergulhar todos os dias, sem roupa especial nem tanque de oxigênio, numa praia onde sua família passava os verões em sua infância, na tentativa de reacender sua ligação com a natureza.

No caminho, encontra um polvo. E fica obcecado com a capacidade do molusco de se disfarçar envolto em uma camada de conchas, ou se enrolar em folhas de algas marinhas para evitar ser encontrado por um tubarão listrado, ao mesmo tempo em que desenvolve técnicas de caça para capturar caranguejos, peixes e até uma lagosta.

O filme tem cenas incríveis embaixo d'água, mas a narrativa é entrecortada por uma longa e em alguns momentos dispensável entrevista com o cineasta e mergulhador, em que ele narra o que acontece com o polvo e no relacionamento entre os dois, e como isso reflete em sua vida.

Ele diz que o envolvimento com o polvo ensinou a ele sobre a fragilidade da vida e a nossa conexão com a natureza, e até fez com que se transformasse num pai melhor.

É um bom filme para ver com crianças, mas não tem a força de outros concorrentes da categoria, especialmente o romeno "Collective", que expõe o núcleo podre que pode haver numa democracia.

O diretor romeno Alexander Nanau parte de um episódio trágico, um incêndio numa casa noturna de seu país em 2015, em que morreram 64 pessoas. A partir daí, os jornalistas Catalin Tolontan, Razvan Lutak e Mirela Neag, especializados em esportes da Gazeta Sporturilor, publicam reportagens sobre um esquema de corrupção envolvendo o governo e a indústria farmacêutica.

Pelo uso de desinfetantes diluídos usados nos hospitais, vítimas do incêndio, que nem tinham sido tão afetados, morrem por infecções.

O escândalo provoca a renúncia do ministro da Saúde e, muito provavelmente, a morte do dono do laboratório dos desinfetantes, num misterioso acidente de carro.

A trama é mostrada sem firulas nem truques de edição ou de roteiro, é o dia a dia sem glamour de repórteres investigativos. Da abertura ao final devastador, "Collective" se desenrola como um thriller do qual é impossível desviar os olhos. Uma bela mistura de "Spotlight", vencedor do Oscar de melhor filme de 2016, com "Sob o Domínio do Mal", que rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante para Meryl Streep em 2005. Só que real.

"Time" segue a história de uma mulher que tenta livrar o seu marido da cadeia, onde cumpre sentença de 60 anos por um roubo a banco de que ela é cúmplice.

O filme de uma hora e 21 minutos abre com imagens caseiras, corriqueiras, da vida que Robert Richardson deixou de desfrutar nos quase 20 anos que se passaram desde que foi para a prisão, no estado americano de Louisiana.

Sua mulher, Sibil, conhecida como Fox Rich, e os seis filhos do casal o esperam na cidade de Nova Orleans, do outro lado das grades.

Mulher negra com vestes branca segura celular e levanta seu outro braço em tom de comemoração
Cena de 'Time', documentário de Garrett Bradley - Amazon Prime/Divulgação

A diretora Garrett Bradley, negra, assim como os personagens, faz um documento íntimo e extraordinário, condensa quase duas décadas numa montagem de poucos momentos e põe o espectador na torcida pela família.

O filme não tenta ocultar a culpa de Robert e Fox. Eles nunca negam a participação, não se passam por inocentes, não pretendem engambelar nem o público nem o sistema judiciário americano. Mas contestam a pena, a falta que faz um pai na criação de seis filhos e um marido.

Todo em branco e preto, "Time" alterna entre o retrato muito ordinário da vida de uma família quase comum, com seus meninos bebês se tornando homens feitos e a comovente realidade de um grupo de pessoas que venera um retrato do pai em tamanho natural na parede de casa. E como o tempo é relativo em cada situação.

Robert não conheceu seus dois filhos mais novos —quando foi preso, sua mulher estava grávida de três meses de gêmeos, que ela batiza de Freedom (liberdade) e Justus (mistura dos sons de "justice", justiça, e "just us", só nós).

Fox Rich, a matriarca, é uma estrela, no filme e na vida, e sua determinação sem limites e seu amor incondicional por Robert são a âncora de "Time".

Libertar seu marido é a luta de sua vida, e o documentário vai além de simplesmente retratar isso. Conta uma história humana, urgente e comovente, como poucos outros longas conseguem.

Professor Polvo

  • Quando Disponível
  • Onde Netflix
  • Produção África do Sul; 2020
  • Direção Pippa Ehrlich e James Reed

Time

  • Quando Disponível
  • Onde Amazon
  • Produção EUA; 2020
  • Direção Garrett Bradley
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