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João Pereira Coutinho

Se houvesse teste de pureza ética, quais livros seriam permitidos?

A biografia de Philip Roth é um monumento autônomo, sem conexão com a conduta de seu autor, acusado de crimes sexuais

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João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

O mundo da edição tremeu: Blake Bailey, o designado biógrafo de Philip Roth, foi acusado de crimes sexuais.

O próprio nega as denúncias: são “categoricamente falsas e difamatórias”. Mas o estrago está feito. A editora cancelou o envio e a promoção da obra. E a Companhia das Letras suspendeu, por enquanto, a edição brasileira.

O escritor Blake Bailey, biógrafo de Philip Roth - New York Times


Há duas formas de olhar para o caso —a judicial e a literária.

A primeira resume-se ao óbvio: se existem denúncias de “aliciamento, estupro, manipulação e agressão sexual”, elas devem ser investigadas. Caso exista matéria criminal, o escritor deve ser julgado. Se for considerado culpado, deve cumprir pena pelos seus crimes. Ponto final.

O problema é que essa sucessão de etapas, típicas de um estado de direito, também têm sido “canceladas” pelo espírito do tempo. A acusação já é uma condenação. A presunção de inocência, como figura jurídica e civilizacional, foi jogada pela janela.

Há quem considere isso um progresso. Cuidado, gente: ninguém está a salvo de uma acusação na arena pública pelo simples motivo de que nenhuma vida examinada é um exemplo de santidade.

E não há nada mais patético do que assistir aos justiceiros populares de hoje pedindo clemência, ou “presunção de inocência”, amanhã.

Mas a questão artística é mais profunda —e mais complexa. Imaginemos que Blake Bailey, de fato, cometeu esses repulsivos crimes.

Imaginemos que foi julgado, condenado e preso. Será que os seus livros deveriam sofrer o mesmo destino uma espécie de “damnatio memoriae”, apagamento da memória, ao velho gosto romano, aplicada aos tempos modernos?

Depende. Para quem não é capaz de fazer uma distinção básica entre o homem e a obra, é evidente que os livros devem ser lançados à fogueira. Mas essa atitude arrasta um problema: que livros, então, seriam permitidos?

Não vou cansar o leitor com a lista de autores que, na vida privada, eram poços fundos de vícios e maldades. Mas, aqui entre nós, olho para a estante que tenho à minha frente e poucos se salvariam do ostracismo contemporâneo.

Não vou dizer nomes, para não amedrontar os editores mais temerosos. Mas há de tudo: misóginos, pedófilos, racistas, antissemitas, fanáticos religiosos, stalinistas, fascistas, nazistas, até assassinos (estou olhando para você, William S. Burroughs!).

Excluir das livrarias ou bibliotecas todos os autores que não passam no teste da pureza ética seria o mesmo que fechar livrarias e bibliotecas.

É uma regra que poderia fazer escola: o que nos deve interessar em qualquer escritor não é aquilo que ele era, mas o que ele gostaria de ter sido. E, às vezes, a arte serviu para corrigir, ou sublimar, essa triste realidade.

Aliás, o que é válido para o biógrafo de Philip Roth, é válido para o próprio Roth.

Nos últimos tempos, são incontáveis os artigos que, a respeito da biografia, perguntam seriamente se a misoginia do escritor pode ser perdoada.

Não apenas a misoginia na “vida real”; a misoginia nos seus livros, onde as mulheres são quase sempre apresentadas sob uma perspectiva fálica e descartável (embora os homens sejam igualmente tratados a pontapé como os seres priápicos e patéticos que, muitas vezes, são).

A minha resposta é simples: não há nada para perdoar.

Primeiro, porque a distinção entre autor e narrador faz parte do bê-a-bá da crítica séria (por incrível que pareça, não são a mesma coisa). Mas porque qualquer tema, por mais delicado ou revoltante que seja, pode conhecer tratamento literário ou artístico superior, como é o caso dos romances de Philip Roth.

Será que devemos censurar “Lolita” porque Humbert Humbert era pedófilo?

Será que devemos cancelar Salman Rushdie por seus textos alegadamente islamobóficos?

Será que devemos rasgar “Lavoura Arcaica” porque o incesto não é de bom tom?

A nova biografia de Philip Roth é um monumento literário autônomo, que vale por si mesmo, independentemente da conduta do seu autor (ou da vida privada do próprio Roth).

Sorte a minha que encomendei o livro antes dos portões fecharem!

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