Descrição de chapéu Livros

Diários de Kafka, inéditos no Brasil, iluminam a sua mente brilhante e atormentada

Sonhos torturantes, crítica literária e esboços ficcionais coabitam os 12 cadernos do autor de 'A Metamorfose'

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Ilustração de Tom Gauld para a edição brasileira dos diários de Franz Kafka, publicada pela Todavia

Ilustração de Tom Gauld para a edição brasileira dos diários de Franz Kafka, publicada pela Todavia Divulgação

São Paulo

Poucas páginas depois de um dos mais ilustres começos da literatura universal —“alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”—, o protagonista de “O Processo” é convocado ao tribunal. Este, contudo, fica no subúrbio, numa rua que “tinha dos dois lados prédios quase uniformes, altos, cinzentos, de aluguel, 
habitados por gente pobre”.

Meses antes de começar a escrever o romance, Franz Kafka rompera seu noivado com Felice Bauer. Ao narrar a discussão amarga em seu diário, ele escreve, com entrada datada de 23 de julho de 1914, o seguinte —“O tribunal no hotel. A viagem de fiacre. O rosto de F[elice]. Ela leva as mãos aos cabelos, passa a mão no nariz, boceja. De súbito, cobra ânimo e começa a dizer coisas refletidas, de há muito guardadas, hostis”.

O pesquisador alemão Reiner Stach, autor de uma monumental biografia em três volumes do escritor tcheco, afirma em entrevista que “Kafka compreendeu imediatamente que a ideia de um tribunal que pode estar em qualquer local é uma 
imagem literariamente valiosa com um forte impacto, talvez até uma imagem que contenha todo um enredo”.

Igualmente rica é a mirada que os “Diários” fornecem da mente brilhante e atormentada de Kafka. Inédito no Brasil, o conteúdo dos 12 cadernos sem pauta, medindo 25 centímetros por 20 centímetros e cobrindo os anos de 1909 a 1923, acaba de sair pela editora Todavia.

Assumiu a empreitada de pesquisa e organização o tradutor Sergio Tellaroli, acostumado aos estilos mais diversos da língua alemã, tendo já vertido para o português autores como Robert Walser, Thomas Bernhardt e Elias Canetti.

Mesmo nascido em Praga, Kafka nunca escreveu em tcheco. O alemão se fazia hegemônico no universo cultural em que um escritor judeu como ele estava inserido, numa região —a Boêmia— fortemente influenciada pela vizinha Alemanha.

Tellaroli situa a edição brasileira como meio-termo entre a edição crítica alemã, na qual se baseou para as notas de contextualização, mas voltada a um público especializado, e um trabalho que “facilita a vida do leitor”, pondo os cadernos em ordem 
cronológica e corrigindo erros de ortografia do autor.

Kafka não escreveu os diários pensando em publicar esses textos. Neles, coabitam registros cotidianos do vaivém com Felice —eles reataram e terminaram uma segunda vez—, anotações de sonhos, crítica literária e esboços ficcionais. A novela “O Veredicto”, considerada a primeira obra-prima de Kafka, está inteiramente escrita ali.

Como bem descreve Stach, “os limites são fluidos”. “Depois de algumas frases, 
muitas vezes ainda não sabemos se este é o início de um texto literário ou a descrição de uma experiência real.”

Retrato do escritor tcheco Franz Kafka. Nascido em Praga, em 1883, é autor de clássicos como 'A Metamorfose', 'O Processo' e 'O Castelo'. Morreu em 1924, aos 40, de tuberculose
Retrato do escritor tcheco Franz Kafka. Nascido em Praga, em 1883, é autor de clássicos como 'A Metamorfose', 'O Processo' e 'O Castelo'. Morreu em 1924, aos 40, de tuberculose - Reprodução

Esta edição dos “Diários” também é despida das intervenções do amigo Max Brod. Kafka morreu em 1924, aos 40, depois de receber um diagnóstico de tuberculose. Nunca se casou. Impiedoso consigo mesmo até o fim, pediu a Brod que queimasse todos os seus manuscritos e que os textos e livros publicados em vida nunca mais fossem reeditados. A promessa, evidentemente, não foi cumprida.

Começou assim uma saga que até hoje rende debates de alta temperatura no meio literário sobre a estatura de Kafka com base no que ele publicou em vida e o papel de Brod ao editar postumamente dois dos três grandes romances do cânone kafkiano, “O Processo” e “O Castelo”“A Metamorfose” é o único deles que Kafka chegou a ver publicado.

Em sua edição de 1951 dos diários, Brod escreve que deixou de fora “todas as críticas íntimas” feitas por Kafka a pessoas individualmente.

“Hoje os diários são publicados na íntegra e não há comentários ofensivos. Também não há passagens sexuais explícitas. Ambos teriam sido muito atípicos para Kafka”, afirma Stach. “Portanto, não considero válido o raciocínio de Brod.”

Além disso, o amigo do autor é acusado de carregar nas tintas do judaísmo de Kafka, que criticava o próprio pai por não ter passado a tradição religiosa a ele.

“Se colocarmos na balança os pecados de edição que Brod cometeu e o que ele fez pelo Kafka, acho que o que ele fez pelo Kafka tem mais peso. E não digo que admiro o Brod, mas acho importante lembrar que foi ele quem publicou todas essas coisas”, diz Tellaroli.

Segundo o tradutor, “Kafka já é Kafka nos 40 textos iniciais”, o conjunto de trabalhos publicados pelo autor ainda em vida. “Quem acaba atribuindo mais importância ao Brod é a crítica literária, porque ela precisa dos romances.”

Tellaroli lembra Milan Kundera, para quem o romance ocupou o lugar da filosofia no século 20 como veículo das grandes ideias, e a resistência do mercado editorial em relação a gêneros de prosa mais curta, como novelas ou contos. “Na Alemanha, isso é pior ainda, tem que ser um romance que para em pé. Se tiver menos de 300 páginas, o leitor alemão fala ‘isso não é sério’.”

Um aspecto mais mundano dessa disputa alcançou os tribunais, como narra “O Último Processo de Kafka”, do jornalista Benjamin Balint, publicado no Brasil em abril pela Arquipélago. O livro acompanha a batalha travada pelo espólio do escritor entre os herdeiros de Brod, morto em 1968, e a Biblioteca Nacional de Israel, que terminou vencedora em 2016.

Deixando Brod de lado, é inegável que os diários dão pistas preciosas para compreender matérias-primas da ficção kafkiana, entre elas o desconforto com a família —em especial o pai—, a infelicidade no burocrático emprego no instituto de seguros contra acidentes de trabalho e a busca torturante pelo casamento, que, Kafka sabe, será um obstáculo para consumar o desejo de se tornar escritor.

Frequentemente insatisfeito com seu trabalho, o autor não ignorava o potencial de sua escrita. Em 3 de julho de 1913, anotou “quando digo alguma coisa, ela perde de imediato e em definitivo sua importância; quando a escrevo, ela também perde, mas por vezes adquire outra”.

Diários

  • Preço R$ 99,90 (576 págs.), R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Franz Kafka
  • Editora Todavia
  • Tradução Sergio Tellaroli
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.