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Modesto Carone, tradutor que mudou o jeito como lemos Kafka, morre aos 82

Escritor e professor deixa um legado intelectual que rivaliza com sua obra ficcional

São Paulo

O escritor, tradutor e ensaísta Modesto Carone morreu nesta segunda-feira (16), em São Paulo, aos 82 anos, após uma parada cardiorrespiratória. Além da segunda mulher e dos filhos André Carone e Silvia Carone, ele deixa um legado intelectual que rivaliza com sua obra ficcional. 

O projeto ao qual Carone dedicou boa parte de sua vida, que lhe rendeu reconhecimento público e acadêmico, além de prêmios literários, foi a tradução das obras do tcheco Franz Kafka a partir do alemão —idioma de expressão do autor de “A Metamorfose” e “O Processo”.

Ironicamente, a empreitada pode obscurecer uma produção literária não menos importante e singular, embora relativamente pequena. Modesto Carone escreveu quatro livros de contos: “As Marcas do Real” (Paz e Terra, 1979), “Aos Pés de Matilda” (Summus, 1980), “Dias Melhores” (Brasiliense, 1984) e “Por Trás dos Vidros” (Companhia das Letras, 2007), sendo que este último é uma seleção de narrativas dos livros anteriores, acrescida de contos que o autor publicou esparsamente ao longo dos anos  (a maioria nas páginas de diferentes cadernos da Folha, jornal do qual foi colaborador regular por décadas). 

O escritor e tradutor Modesto Carone, em 2011
O escritor e tradutor Modesto Carone, em retrato de 2011 - Carla Romero/Valor

Esse conjunto de títulos seria suficiente, por si só, para colocar Carone entre os principais contistas brasileiros surgidos nos anos 1970, ao lado de Zulmira Ribeiro Tavares, Sérgio Sant’Anna e Ignácio de Loyola Brandão. Mais tardio entre eles, pois só começa a publicar ao final da década, Carone é talvez o mais cerebral. 

Com narrativas que abordam situações banais e descrevem detalhes insignificantes de personagens imersas num microcosmos de poucos gestos e obsessões ora maníacas, ora melancólicas, a escrita metódica de Carone preserva uma ideia de ordem, de racionalidade, que assinala –pelo contraste entre representação e expressão– o caráter desarrazoado ou absurdo daquilo que se esforça por controlar e tornar inteligível.

O resultado desse procedimento formal é algo que vai além da forma literária, uma espécie de inteligibilidade vazia na qual o sujeito da racionalidade se encontra apartado da razão por mecanismos sociais que o esmagam.

Sob o impacto de suas traduções de Kafka, que começaram a ser publicadas em meados dos anos 1980, críticos e leitores passaram então a ver ecos do universo kafkiano em suas narrativas, invertendo uma cronologia em que a obra ficcional de Carone as precedeu. Numa edição ampliada de sua “Histórica Concisa da Literatura Brasileira”, por exemplo, o crítico Alfredo Bosi dedica um comentário arguto aos “contos ao mesmo tempo cristalinos e perturbadores de Modesto Carone, que aprendeu junto à escrita de Kafka –de que é excelente tradutor–  o segredo de um realismo ardido e contido, capaz de enfrentar as pancadas do absurdo que cada um de nós sofre no mais banal dos cotidianos”.

Carone conta entretanto que, embora tenha lido “A Metamorfose” (em inglês) por volta dos 18 anos, só começou a traduzir Kafka em 1983, quando, por ocasião do centenário do escritor, selecionou e apresentou alguns de seus relatos curtos no suplemento Folhetim, da Folha

O escritor tcheco Franz Kafka
O escritor tcheco Franz Kafka - Reprodução

Foi a partir dessa experiência, e não antes, que surgiu o projeto de publicar a obra completa de Kafka. A iniciativa partiu de Luiz Schwarcz, que a essa altura trabalhava na editora Brasiliense, de Caio Graco. Schwarcz propôs uma antologia de textos traduzidas diretamente do alemão, na contramão da prática, comum à época, de vertê-lo a partir de outras línguas. 

Modesto Carone aceitou o desafio com a condição de que não se restringisse a uma coletânea, mas ao conjunto da produção kafkiana –e, em 1984, a Brasiliense lançava “Um Artista da Fome e A Construção”, antologia que incluía tanto o conjunto de quatro narrativas organizadas pelo próprio Kafka, em 1924, sob o título “Um Artista da Fome” quanto o texto que, fechando o volume da Brasiliense, Carone traduzira no mesmo ano para a revista “Novos Estudos Cebrap”.

A partir de 1997, as traduções lançadas pela Brasiliense e aquelas que Carone ainda viria a fazer passaram a ser publicadas pela Companhia das Letras, editora fundada por Luiz Schwarcz e Lilia Moritz Schwarcz em 1986, totalizando hoje nove volumes. Além dos diários, ficaram de fora textos anteriores ao conto “O Veredicto”, de 1912 –que Carone considera “pré-kafkianos, obras em que ele ainda era apenas um bom escritor”, o que inclui o romance inacabado “América” (cujo primeiro capítulo, “O Foguista”, foi publicado à parte e está traduzido por Carone). E ele não concluiu a tradução das cartas do escritor a sua noiva Felice Bauer, que segundo Carone, em entrevista de 2009 à Folha, podem ser lidas como um romance e deveriam concluir seu plano da tradução. 

É natural que um projeto de tal envergadura, que modificou de modo irreversível a recepção da obra de Kafka no Brasil, consagrando a prática não apenas de traduzi-lo do original, mas de respeitar suas nuances linguísticas e estilísticas, acabasse por contaminar a recepção crítica da literatura do próprio Modesto Carone. Todavia, o corpo a corpo com a escrita kafkiana, com o alemão calcificado e burocrático que o escritor utilizou para criar uma ficção que expressa a normalização do absurdo, é posterior à publicação dos contos de Carone. 

Fato é, no entanto, que sua familiaridade e sua empatia com a obra de Kafka vinham de longe, desde aquela primeira leitura de “A Metamorfose” que, segundo o próprio Carone, fizeram com que ele perdesse o sono –cena que, obviamente, remete aos “sonhos intranquilos” dos quais a personagem Gregor Samsa desperta “metamorfoseado num inseto monstruoso”.

Nesse intervalo de cerca de quase 30 anos, entre a primeira leitura e a primeira tradução de Kafka, Carone chegou a traduzir (a convite de Anatol Rosenfeld) “Kafka: Pró e Contra”, de Günther Anders, obra-chave na interpretação do escritor que seria lançada no Brasil em 1969, pela editora Perspectiva, e reeditada em 2007 pela extinta Coisac Naify.

E, nos textos de análise daqueles fragmentos que traduziu para o Folhetim, em 1983, muitas das descrições que Carone faz da prosa enigmática de Kafka cabem também em sua obra autoral. Quando ele define os “épicos em miniatura” do alienígena de Praga, o estilo “alusivo e alegórico, onde a linguagem cristalina do protocolo dá acesso às fantasmagorias de uma realidade mutilada em que o beco-sem-saída das visões parciais substituiu a noção de totalidade”, é como se estivéssemos lendo uma resenha dos contos de “Por Trás dos Vidros” –livro que inclui tanto narrativas de livros publicados antes do projeto tradutório de Kafka quanto textos dos anos anos 1980 a 2000, quando esse trabalho já estava em marcha.

O escritor e o tradutor Modesto Carone representaram, portanto, um amálgama único, que condicionou e influenciou reciprocamente sua ficção, suas traduções e até mesmo sua atuação como crítico literário e pesquisador acadêmico –que nunca ficou restrita a Kafka.

Nascido em Sorocaba, no interior de São Paulo, em 1937, Carone veio para a capital do estado para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP. Ali, formou com Raduan Nassar, José Carlos Abbate e Hamilton Trevisan um quarteto cuja amizade seria atravessada pela literatura. Numa edição dos “Cadernos de Literatura Brasileira” (Instituto Moreira Salles) dedicada Raduan Nassar, Carone escreveu depoimento no qual relembra, num registro que oscila entre o lírico e o gaiato, a “fuga” até Santos que os dois empreenderam junto com Hamilton Trevisan, com a determinação, definida entre rodadas de chope ao redor de uma mesa de bilhar, de embarcar clandestinamente no primeiro navio que aparecesse e só retornar “com a obra pronta”.

Obviamente, a expedição não teve maiores consequências naquele momento, mas a obstinação de encontrar um porto na literatura permaneceu. Formado em direito, Carone decidiu estudar letras anglo-germânicas e topou novamente com Kafka –dessa vez, graças ao método  do professor austríaco Horst Domdey, que ensinava estruturas linguísticas utilizando trechos do escritor tcheco. Em 1965, Carone foi para a Áustria lecionar português e cultura brasileira na Universidade de Viena, onde morou com sua primeira mulher, a psicanalista Marilene Carone.

Modesto Carone, na época do lançamento de seu livro "Resumo de Ana", em 1998
Modesto Carone, na época do lançamento de seu livro "Resumo de Ana", em 1998 - Gabriela Azevedo Marques/Folhapress

Anos mais tarde, ela daria início a um projeto de tradução tão ambicioso quanto o seu: verter do alemão a obra completa de Freud, trabalho interrompido pela morte precoce de Marilene, em 1987, vítima de um tumor cerebral aos 45 anos. De volta ao Brasil, em 1968, Carone se tornou livre-docente da USP em 1973.

Pouco depois, foi convidado por Antonio Candido (autor do clássico “Formação da Literatura Brasileira” e responsável pela sistematização universitária do ensino de literatura) a dar aulas de teoria literária no Instituto de Estudos da Linguagem, fundado na Unicamp em 1977.

Apesar do vínculo com Kafka, Carone acabou por abordar, em sua carreira acadêmica, outros autores da moderna tradição germânica, como o expressionista Georg Trakl –objeto do livro “Metáfora e Montagem (Perspectiva, 1974)– e Paul Celan, poeta romeno que, a exemplo de Kafka, escrevia em alemão  –e que ele aproximou a João Cabral de Melo Neto em “A Poética do Silêncio” (Perspectiva, 1978).

Essa época turbulenta, auge da repressão pelo regime militar instaurado em 1964, marca também sua aproximação com intelectuais da esquerda uspiana como Roberto Schwarz e Paulo Arantes, com os quais Modesto Carone costumava se reunir (já no período de redemocratização) na pizzaria Bonde Paulista, cujos rega-bofes filosóficos ficaram jocosamente conhecidos como “mozzarella marxista”.

Sua militância, porém, sempre foi discreta, como no episódio do manifesto, assinado por ele e por intelectuais e escritores de diversos países, que em 1998 pedia a anistia do filósofo italiano Antonio Negri, acusado de ser um dos líderes das Brigadas Vermelhas, grupo político que assumiu a responsabilidade pelo sequestro e assassinato do premiê Aldo Moro em 1978, entre outros atos terroristas. 

Nesse mesmo ano de 1998, Carone lança sua obra-prima: “Resumo de Ana” (Companhia das Letras). São dois relatos interligados, duas personagens comuns: mãe e filho típicos das classes subalternas brasileiras. Mas, na sua trágica insignificância, ambos percorrem em arcos de tempo sucessivos os anseios e as frustrações de emancipação social que reverberam os desastres históricos que vão da crise de 1929 até a inflação e o colapso do regime militar.

O narrador está próximo dos eventos por laços familiares, mas raramente aparece, ocultando-se de um modo que certamente deriva do ponto de vista parcial dos narradores de Kafka –porém a serviço de uma contenção emocional que enfatiza, por contraste, o caráter repetitivo dessas parábolas sobre os massacres cotidianos.

Última obra de ficção de Modesto Carone, “Resumo de Ana” é também o resumo de uma trajetória que, construída em estreito diálogo com Kafka, encontrou uma forma própria de renovar a representação da realidade pela literatura e inocular, com as armas da ficção, um núcleo de inteligibilidade naquilo que é inexplicável.

O velório de Carone está marcado para esta terça-feira (17), das 8h às 20h, no salão nobre na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), na Cidade Universitária, em São Paulo. O enterro será na quarta-feira (18), no Cemitério Horto Florestal, às 12h30. 

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