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Olga Tokarczuk defende o valor das mudanças no ousado 'Correntes'

Nobel de Literatura examina fundamentos filosóficos por meio de historietas que formam um grande mosaico

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Fabiane Secches

Psicanalista, crítica literária e pesquisadora de literatura na USP

CORRENTES

  • Preço R$ 74,90 (400 págs.); R$ 54,90 (ebook)
  • Autor Olga Tokarczuk
  • Editora Todavia
  • Tradução Olga Baginska-Shinzato

A escritora Virginia Woolf afirmou que o romance é a mais elástica de todas as formas literárias. Se estivermos de acordo, podemos classificar “Correntes”, de Olga Tokarczuk, como um romance, sem estranhamento. Mas digamos que a escritora polonesa, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2018, tenha testado aqui a tal elasticidade do gênero de uma forma bastante particular.

Fragmentado, entrecortado por mapas, equações matemáticas, laudos de exames de sangue, idiomas diferentes e muitas descrições poéticas, a obra parece também um livro ensaístico permeado de narrativas curtas, algumas mais e outras menos estruturadas.

Diferentemente do romance “Sobre os Ossos dos Mortos, com uma estrutura um pouco mais convencional —ainda que a mistura de gêneros também esteja lá—, “Correntes” é um experimento romanesco ainda mais ousado.

Publicado na Polônia em 2007 e vencedor do Booker Prize Internacional, o livro é narrado em primeira pessoa por uma mulher que também é escritora e, assim como Tokarczuk, estudou psicologia na Universidade de Varsóvia. Mas a sua posição não é estável.

Em alguns momentos, ela se transforma numa narradora em terceira pessoa, quase onisciente, e passa a recontar historietas que vão formando um grande mosaico por meio do qual examina determinados temas filosóficos fundamentais.

Entre eles, o que parece se destacar é o tema da viagem, de maneira ampla. Para a narradora, “apesar de todos os perigos envolvidos, uma coisa em movimento sempre será melhor do que uma coisa em repouso; que a mudança sempre será mais nobre do que a estabilidade; que o imóvel precisa se decompor, degenerar e virar pó. E aquilo que se movimenta pode durar por toda a eternidade”. É essa a tese que ela vai defender ao longo de quase 400 páginas.

Num texto emblemático chamado “O Narrador”, de 1936, o filósofo Walter Benjamin distingue duas formas diferentes de sabedoria: a do camponês sedentário, que conhece a fundo a história do lugar em que vive, e a do marinheiro viajante, que conhece um pouco da história de todos os lugares pelos quais passa.

A narradora de “Correntes”, inquieta como é, poderia ser uma parente contemporânea desse segundo tipo. “Minha energia vem do movimento —do chacoalhar dos ônibus, do barulho dos aviões, do balançar das balsas e dos trens”, diz ela.

Outro tema que a fascina é o corpo humano e a sua anatomia, incluindo o que chamam de anomalias, como a bela ilustração de Talita Hoffmann para a capa brasileira pode indicar.

“Nunca fui uma grande fã de museus de arte e, se dependesse de mim, eu os substituiria com prazer pelos gabinetes de curiosidades onde se coleciona e expõe objetos raros, únicos, bizarros e disformes. Aquilo que existe na sombra da consciência e que, quando você espia, foge do seu campo de visão.”

E assim vamos acompanhando as suas divagações e observações peculiares, bem como o seu processo de narração e de escrita, a partir de uma lógica incomum, que em certa medida antecede a ótima voz da narradora de “Sobre os Ossos dos Mortos” — aqui no Brasil os livros foram publicados na ordem invertida, ambos com tradução de Olga Baginska-Shinzato.

Mas também existem diferenças importantes, o que demonstra a versatilidade de Tokarczuk, que, entre outros títulos, escreveu um lindo livro infantil, “A Alma Perdida”. Neste, ao contrário, defende a importância da lentidão e mesmo de uma certa imobilidade. Um contraponto filosófico rico e interessante feito por uma autora definitivamente original.

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