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Cinema

'A Casa Sombria' fica de pé pela memorável atuação de Rebecca Hall

David Bruckner dirige seu melhor trabalho com terror que aborda o niilismo do luto, mas que se perde no didatismo

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Ieda Marcondes

A Casa Sombria

  • Quando Estreia nesta quinta (23)
  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Rebecca Hall, Sarah Goldberg, Stacy Martin
  • Direção David Bruckner

O luto é um tema recorrente no gênero do terror —ainda mais nos últimos anos, com o sucesso de obras como “O Babadook”, de 2014, e “Hereditário”, de 2018. No subgênero do terror psicológico, não é raro encontrar protagonistas melancólicos que precisam lidar com algum tipo de manifestação da própria dor.

No sentido mais amplo da palavra, um “monstro” é uma criatura, sobrenatural ou não, que perturba a nossa concepção de realidade da mesma forma que a morte inesperada de um ente querido. Para o derrotar, é preciso aceitar a sua existência.

Interpretada por Rebecca Hall, Beth já lutava contra os próprios pensamentos sombrios antes de o marido cometer suicídio de maneira inexplicável, no filme "A Casa Sombria". Era Owen —Evan Jonigkeit—, afinal, quem costumava afastar os demônios da sua depressão. Morando sozinha numa casa isolada que ele mesmo construiu, ela passa as noites afogando as mágoas num copo de conhaque e tentando compreender o que o levou ao desespero. Assim, desvendar o motivo por trás do ato se torna uma forma de ocupar o vazio que ele deixou.

Entre pesadelos perturbadores, Beth começa a sentir uma presença na casa. Acordada por um rádio que liga sozinho no meio da madrugada, ela também vê vultos pelos cantos e escuta vozes. Como sempre acorda em locais inusitados, seus amigos chegam a desconfiar de sonambulismo ou paralisia do sono.

Para entender o que está acontecendo, ela decide investigar os pertences do marido. No celular do morto, Beth encontra uma foto de uma mulher idêntica a ela, a primeira pista de um segredo estarrecedor.

Dirigido por David Bruckner —que também tratou do luto em “O Ritual”, de 2017—, “A Casa Sombria” se mantém em pé graças à performance memorável de Rebecca Hall, marcante em “Christine - Uma História Verdadeira” e que estreia na direção ainda neste ano, com “Identidade”.

Apesar de viver uma personagem antipática, profundamente cética e mordaz, Hall transmite toda uma gama de nuances que a torna mais autêntica e interessante. Quando o filme acaba, queremos passar mais tempo com ela, a conhecer ainda melhor.

Bruckner não é um novato no terror. Antes de “O Ritual”, participou da coletânea “V/H/S”, de 2012, e fez “Southbound”, em 2015. Ele sabe como desenvolver um susto —sobretudo, um susto relacionado a algo ou alguém que já estava no enquadramento e só é percebido após algum tipo de movimento, desfazendo a ilusão de que não havia nada de ameaçador dentro do plano. Ainda que “A Casa Sombria” seja o seu melhor trabalho até agora, o terceiro ato é muito enrolado e apressado para provocar o impacto desejado.

Há boas sequências em que o sonho e a realidade se misturam numa transição ininterrupta. Uma cena em que Beth começa a cochilar no colo da melhor amiga Claire —Sarah Goldberg, da série “Barry”— é especialmente perversa com a personagem principal.

É quando o filme se preocupa mais em explicar do que mostrar que “A Casa Sombria” perde parte de sua força. Com roteiro assinado por Ben Collins e Luke Piotrowski —junto com Bruckner, o trio será responsável pela refilmagem de “Hellraiser”—, o terror tem um final que beira o didático.

Se a entidade malévola de “O Babadook” representa a depressão pós-parto da protagonista, em “A Casa Sombria”, o monstro de Beth é o seu niilismo, a crença de que, após a morte, não há luz no final do túnel e de que a existência não importa —uma agonia avassaladora que preenche o vácuo da ausência com algo ainda pior. A diferença entre os dois filmes é que a alegoria é mais sofisticada e bem explorada no longa-metragem de Jennifer Kent do que no lançamento de Bruckner.

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