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Cinema

Filmes sobre Suzane von Richthofen, ambos ruins, quase se anulam

'A Menina que Matou os Pais' e 'O Menino que Matou Meus Pais' propõem perspectivas diferentes, mas não se iluminam

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Filipe Furtado

A Menina que Matou os Pais

  • Quando Estreia nesta sexta (24)
  • Onde Amazon Prime Video
  • Elenco Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Allan Souza Lima
  • Direção Mauricio Eça

O Menino que Matou Meus Pais

  • Quando Estreia nesta sexta (24)
  • Onde Amazon Prime Video
  • Elenco Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Allan Souza Lima
  • Direção Mauricio Eça

“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” se pautam como exercícios de subjetividade. O mote é o assassinato do casal Manfred e Marísia von Richthofen, mas o foco do filme não é dramatizar o crime em si, mas os depoimentos de Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos, que foram condenados.

É criada uma situação de "ele disse, ela disse" e, se o ponto de partida do começo da relação e o crime ao final são os mesmos, o que interessa aos realizadores é justamente como o casal acuado diante da Justiça oferece visões radicalmente diferentes do seu relacionamento.

Se os dois longas concluem inevitavelmente com o crime violento, seu desenvolvimento se dá muito mais na descrição de dois romances destrutivos marcados pela manipulação. Logo, “A Menina que Matou os Pais” é um filme sobre como Suzane, vivida por Carla Diaz, aos poucos envolve Daniel, interpretado por Leonardo Bittencourt, numa narrativa de monstruosidade dos pais, que faça com que ele resolva “salvá-la”.

Já “O Menino que Matou Meus Pais” se concentra em mostrar Daniel como um alpinista social que seduz Suzane e que, diante das dificuldades criadas pelos pais dela, resolve eliminá-los. A ambição e jeito malicioso do rapaz são colados em primeiro plano com múltiplas sequências de chantagem emocional.

“A Menina” se constrói, portanto, como uma trama de aparências, um grande jogo de cena erguido sobre a falsidade, com a história de um bom rapaz levado ao crime. Já “O Menino” é um filme vulgar e cafajeste sobre um sedutor mau caráter. Um conto de degradação moral de uma jovem de boa família.

Ocasionalmente, o diretor Mauricio Eça sugere um prazer narrativo com os momentos em que situações se repetem entre os filmes com poucas diferenças, mas assombradas por seus contextos diferentes. Estes são momentos mais fortes do que quando os longas partem para contrastes narrativos mais diretos nas duas versões, como quando um deles deseja a queda do avião dos pais de Suzane.

Um dos maiores fracassos do projeto é o fato de uma versão ser tão divorciada da outra. Os filmes são codependentes, mas não se iluminam. Não existe uma dialética entre as versões. O longa entrega ao espectador a possibilidade de buscar uma verdade, mas oferece pouco em termos dramáticos.

São somente nas sequências do julgamento que os filmes rompem com as duas subjetividades. As cenas em que ambos depõem se destacam por serem pouco convincentes. Nem o papel de bom moço dele, nem o de jovem manipulada dela soam críveis. É quando os realizadores buscam reforçar um ponto de vista mais forte sobre o crime.

O problema maior reside aí. São duas dramatizações nas quais os realizadores não acreditam. O recurso de mostrar múltiplas versões contraditórias é recorrente na ficção, mas mesmo se a conclusão final for de que todos mentem, como em “Rashomon”, o clássico de Akira Kurosawa, é essencial que o dono do relato tenha credibilidade —e nenhum dos filmes sugere isso.

Os longas de Eça caminham na direção de se anularem. Os depoimentos são frágeis demais nos retratos unilaterais que propõem. Da mesma maneira, o diretor pouco ajuda Diaz e Bittencourt, que interpretam figuras rasas, entre o inocente e o demônio.

“A Menina”, em particular, é muito fraco como relato, com a encenação de Eça tendo dificuldades para apresentar a ideia de Daniel se perdendo nas ficções de Suzane sobre sua família.

O diretor anteriormente realizou o longa “Apneia”, no qual se dedicava a descrever a juventude desregrada paulistana. Seu interesse pelo tema ajuda a animar “O Menino”. A sedução nele ao menos sugere um engajamento maior por parte do filme e as sequências finais têm um desespero mais genuíno. Mesmo assim, segue claudicante.

Reforça menos as subjetividades de cada um do que a falência da ficção que o próprio projeto propõe.

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