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Chico Buarque com 'Anos de Chumbo' mostra vigor em sua estreia em contos

Coletânea apresenta visão dura do Brasil, em que até as boas lembranças são pervertidas por miséria e sordidez

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Alcir Pécora

Professor titular de teoria literária da Unicamp

Anos de Chumbo e Outros Contos

  • Preço R$ 59,90 (168 págs.); R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Chico Buarque
  • Editora Companhia das Letras

“Anos de Chumbo e Outros Contos” é a estreia vigorosa de Chico Buarque na narrativa curta. É um volume pequeno, com oito contos, todos ambientados no Rio de Janeiro, ou perto dele, sendo seis narrados em primeira pessoa e dois em terceira. Não é tecnicalidade vã. Espaço e ponto de vista são os nexos mais significativos dos contos.

Em “Meu Tio”, quem narra é uma garota prostituída pelos pais para um tio, provável miliciano enricado com construções ilegais. Mas disso só se sabe por uma narração tão limpa de juízo e opinião como mal seria verossímil até para contar um passeio casual de carro até a Barra da Tijuca, passando pela sorveteria e o motel. O contraste entre a enunciação neutra e a sordidez dos eventos acentua o efeito geral de alienação. A violência foi normalizada, a milícia é família.

capa de livro
Capa do livro 'Anos de Chumbo e Outros Contos', de Chico Buarque, publicado pela Companhia das Letras - Divulgação

A narração de “Os Primos de Campos” é entregue a outro garoto, cujas lembranças vivas da infância incluem as visitas dos primos que vinham passar férias no Rio —isto é, até a data fatídica em que o primo menor é assassinado numa chacina e o maior vem se refugiar na casa do menino.

Falso refúgio, contudo. O irmão do narrador passa a se drogar e depois se junta a uma gangue que ataca negros. A mãe, por sua vez, se torna amante de um delegado, que paulatinamente ocupa a casa. O horror apenas se tempera com a vaga lembrança do pai, jogador de futebol, talvez encerrando a carreira na Colômbia. O craque já não está aqui.

Em “Cida”, a narração é feita por um passante que observa uma mendiga grávida vivendo numa praça do Leblon. Reticente ou paranoica, desconfia dele, mas aos poucos se abre a ponto de pedir que cuide de sua futura filha, concebida do marido extraterrestre, disfarçado de peão de obra. Face à recusa, Cida desaparece, dando lugar, anos depois, à filha albina que ocupa o seu lugar na praça.

“Copacabana” é narrada por um homem maduro que se lembra de antigos sonhos com artistas internacionais que vinham ao Rio e se hospedavam nos hotéis da avenida Atlântica. Recorda passagens lampejantes de Neruda e de Ava Gardner e as conta à maneira vertiginosa de José Agrippino, embora sem a radicalidade de máquina enunciativa.

Nas suas memórias, a nostalgia é um pântano, pois sabe que falhara em preservar a mitologia dos bons tempos da sua face mais ordinária, consumada com a aparição de um general e seu ajudante com bigodinho de Walt Disney.

O ápice dessas narrativas contadas de pontos de vista suspeitos ou distorcidos é “O Sítio”. Uma atriz liberada propõe um pacto inesperado a um escritor para se isolarem num sítio e passarem ali o período da “peste”.

A certa altura do convívio, o escritor sente que está se apaixonando a ponto de ter ciúmes dos jovens galãs com que a atriz contracenara no passado, e até do caseiro do sítio. Presságios e urubus precipitam o sumiço da atriz e a fluência dos escritos. A chegada de novos inquilinos cumpre uma espécie de looping sombrio.

Em “Anos de Chumbo”, ambientada na época da ditadura militar, a narrativa mais uma vez é entregue a um menino. Vítima de poliomielite, sem sair de casa, encena batalhas imaginárias com seus soldadinhos de chumbo.

No meio delas, tem vaga notícia de outra guerra, desta vez travada pelo pai capitão e um major, seu superior, contra um “inimigo traiçoeiro”. Conversas atravessadas do major, que frequenta a cama de sua mãe, revelam que seu pai é um diligente torturador. No desfecho, entre as obscenidades dos porões da ditadura e do quarto dos pais, o garoto põe fogo às paredes que isolam as duas guerras.

Os dois contos em terceira pessoa têm narradores igualmente incientes e obcecados, conquanto ganhem alguma comicidade. “Para Clarice Lispector, Com Candura” acompanha a paixão de um jovem poeta pela autora, que está para lançar “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, de 1969, que trata de amantes que esperam o momento pleno de consumar o seu amor. No "mise-en-abîme" rebaixado do aprendiz, há uma espera que supera a morte de Clarice e o encontra, idoso, a criar “poemas em prosa” com o nome dela.

Deixo para o final o conto no qual os afetos polarizados do contemporâneo encontram a sua representação mais cômica e aflitiva, “O Passaporte”. No aeroporto, após ser vítima de um ataque ressentido, um “grande artista” calha de se vingar —e o faz de maneira cruel e atrapalhada, a ponto de se revelar sua estranha identidade com os adversários “canalhas”.

No conjunto, está clara a urdidura engenhosa e irônica a operar em dupla mão, de tal modo que o que se diz de um lado pode ser desdito de outro. Resulta daí uma visão dura do Brasil –bandidagem, assassinato, racismo, ostentação cafona, novorriquismo miliciano et cetera. Tudo está normalizado como lei do costume. Ruiu a pólis, e com ela se foi o alegado refúgio de cordialidade familiar ou pessoal. Neste Brasil, em que até as boas lembranças são pervertidas por miséria e sordidez, o lar já virou butim.

Em termos de matriz literária, diria que os recursos aplicados pelos contos estão à roda do realismo expressivo dos contistas brasileiros dos anos 1970 –o ambiente criminal, de Rubem Fonseca; o cafajestismo de Dalton Trevisan; o nonsense do fait-divers de Sergio Sant’Anna, se moderando contudo o experimentalismo deles. O que talvez haja de mais irredutível do próprio Chico é o enquadramento juvenil da desgraça corrente.

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