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'Elena Ferrante espanhola' que ganhou prêmio literário era trio de homens

Roteiristas de TV receberam o Prêmio Planeta, na Espanha, por seu trabalho sob o pseudônimo Carmen Mola

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Daniel Dombey
Madri | Financial Times

Surgiu a informação de que a versão espanhola de Elena Ferrante na verdade era um trio de homens de meia-idade.

Na noite de sexta-feira, o prêmio Planeta, de € 1 milhão –o troféu literário de valor mais alto no mundo– foi concedido a Carmen Mola, escritora que até agora vinha sendo apresentada como professora universitária espanhola que escrevia sob pseudônimo porque desejava se manter anônima.

Ainda que os livros de Mola sejam decididamente sangrentos, a escritora tinha seu trabalho divulgado como “a Elena Ferrante da Espanha” – uma referência à escritora italiana de trabalhos de alta qualidade literária, que vive reclusa e que também publica sob pseudônimo.

Mas, quando a categoria principal de premiação foi anunciada na cerimônia do Planeta, na presença do rei Felipe 6º em Barcelona, três pessoas subiram ao palco, nenhuma delas uma mulher.

Jorge Díaz, Agustín Martínez e Antonio Mercero não são acadêmicos, mas sim roteiristas de televisão na casa dos 40 e dos 50 anos de idade que trabalharam em séries espanholas como “Farmacia de Guardia”, “Hospital Central” e “Sin Tetas No Hay Paraíso”.

A história deles dificilmente poderia diferir mais da situação de predecessoras como Mary Ann Evans, a escritora inglesa do século 19 que publicava sob o nome George Eliot, para proteger sua privacidade e evitar ser estereotipada como escritora de histórias femininas leves.

“Carmen Mola não é, ao contrário das mentiras que temos contado, uma professora universitária”, disse Díaz ao receber o prêmio. “Somos três amigos que, quatro anos atrás, decidimos combinar nossos talentos para contar uma história”.

Martínez deu a entender em uma entrevista à agência de notícias espanhola Efe que os autores escolheram escrever sob um nome só porque “obras coletivas não são tão apreciadas na literatura quanto em outras artes, como a pintura ou a música”.

Três homens de terno recebem um troféu
Nomes por trás do pseudônimo Carmen Mola, os escritores Jorge Diaz, Antonio Mercero e Augustin Martinez recebem o Prêmio Planeta, a mais valiosa premiação literária da Espanha, em Barcelona - Josep LAGO/AFP

Em retrospecto, os organizadores do prêmio Planeta deram uma indicação de que mais de uma pessoa receberia o prêmio ao anunciar, na quinta-feira, que o valor da premiação principal subiria de € 600 mil para € 1 milhão de euros, com isso superando o valor do prêmio Nobel, de 10 milhões de coroas suecas, que à taxa de câmbio atual é cerca de € 100 euros mais baixo.

Carmen Mola é mais conhecida por uma trilogia de romances violentos protagonizados pela inspetora Elena Blanco, uma policial enérgica que gosta de karaokê, grappa e sexo casual. Os livros, publicados pela Penguim Random House, venderam mais de 200 mil cópias, foram traduzidos para 11 idiomas e estão sendo adaptados para a televisão pela Endemol Shine e ViacomCBS International Studios.

Mas o livro de Carmen Mola que conquistou o prêmio Planeta –derrotando outros 653 candidatos– é um romance histórico de suspense, “La Bestia”, e lida com a morte de crianças durante uma epidemia de cólera em Madri em 1834.

O prêmio também serve como forma de conquistar direitos de publicação de obras de ficção para a Editoral Planeta, a maior rival da Penguin Random House na Espanha. Ele é reservado para obras inéditas, e ceder os direitos de publicação à Editorial Planeta é uma condição da inscrição. As condições também definem que os autores devem incluir detalhes sobre sua identidade em um envelope selado que só será aberto caso vençam.

No caso da vitória da sexta-feira, como informaram os organizadores, havia um “pseudônimo por trás do pseudônimo”, porque “La Bestia” foi submetido sob o nome de Sergio López, que depois foi revelado como pseudônimo de Carmen Mola, mais tarde revelada como Díaz, Martínez e Mercero.

O livro será publicado pela Planeta sob o nome de Carmen Mola no mês que vem, embora Mola continue a constar da lista de autores da Penguin Random House.


Tradução de Paulo Migliacci

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