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Cinema

'Espíritos Obscuros', de Guillermo del Toro, cria terror a partir de lenda

Com produção do mexicano e direção de Scott Cooper, filme não privilegia o desenvolvimento dos personagens

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Ieda Marcondes

Espíritos Obscuros

  • Quando Estreia nesta quinta (28)
  • Onde Nos cinemas
  • Elenco Keri Russell, Jesse Plemons, Jeremy T. Thomas
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Scott Cooper

Para o bem e para o mal, o terror americano sempre bebeu da cultura nativa. Do autor Stephen King até clássicos como "A Cidade do Horror" e "Poltergeist - O Fenômeno", o tropo narrativo do "cemitério indígena" é um velho conhecido dos fãs do gênero. Na mesma linha vingativa, mas um pouco menos explorado no cinema, o "wendigo" é uma criatura mitológica do folclore algonquiano, um espírito maligno parecido com um cervo. Segundo o povo anishinaabe, o termo significa "ganância" e pode ter sido inspirado pelo contato indígena com as nações europeias.

Logo no início de "Espíritos Obscuros", a narração nos diz que "a mãe Terra foi saqueada". Mais tarde, a professora Julia Meadows, interpretada por Keri Russell, conversa com a classe sobre a história de "Cachinhos Dourados e os Três Ursos" e apresenta a moral da fábula –não pegue algo que não é seu. Baseado em um conto de Nick Antosca, criador da série "Channel Zero" e um dos roteiristas do filme, a produção do mexicano Guillermo del Toro, vencedor do Oscar por "A Forma da Água", tem a direção sisuda de Scott Cooper.

Com cinco longa-metragens em sua filmografia, Cooper está acostumado a lidar com temas sombrios, seja a violência do drama "Aliança do Crime", o racismo no faroeste "Hostis" ou o vício em "Coração Louco", sua elogiada estreia. Em "Espíritos Obscuros", ele usa toda a sua experiência para criar uma atmosfera pesada em torno da premissa. Julia, que sofreu maus tratos na infância, acredita que um de seus alunos está com problemas em casa. Vivido por Jeremy T. Thomas, Lucas é um garoto de 12 anos com uma responsabilidade terrível nas costas.

Situados em uma cidade pequena do Oregon, estado no noroeste dos Estados Unidos, o pai e o irmão mais novo de Lucas estavam fabricando metanfetamina numa mina abandonada quando se depararam com um monstro na escuridão. Desde então, os dois passaram por uma transformação terrível e vivem trancafiados em casa para que não machuquem mais ninguém. Para os alimentar, Lucas coleta animais atropelados ou presos em armadilhas –e faz de tudo para sobreviver sozinho, sem qualquer outro parente por perto.

Segundo Julia, que sabe muito bem como identificar os sinais de negligência infantil, ajudar Lucas seria uma forma de fazer as pazes com o passado e mitigar o sentimento de culpa por ter abandonado o seu irmão –interpretado na versão adulta por um Jesse Plemons subutilizado– sozinho com o pai abusivo em sua cidade natal. Em "Espíritos Obscuros", é preciso coragem para desfazer os vínculos com aqueles que amamos. Quando se trata da própria sobrevivência, no entanto, é uma questão de necessidade.

É uma pena, porém, o diretor ter se preocupado mais com o pano de fundo –há insinuações de alcoolismo e menções breves à crise americana de opioides– do que com o desenvolvimento dos personagens. Desde o lançamento de "Hereditário" em 2018, as produções de terror vêm se esforçando muito para reproduzir o clima opressor de Ari Aster, mas sem oferecer muita substância. "Espíritos Obscuros" demora para engatar e, quando começa a ficar interessante, desacelera para mostrar um flashback desnecessário e uma obrigatória cena expositiva.

No papel de Warren Stokes, o xerife aposentado da cidade, o ator indígena americano Graham Greene explica a origem da lenda do "wendigo", mostra uma ilustração antiga e explica como o derrotar –e, com a sua função narrativa cumprida, logo desaparece do filme. É como se "Espíritos Obscuros" optasse por tratar de mazelas generalizadas em vez de abordar um ponto de vista verdadeiramente nativo. Tirando o design fantástico da criatura, o "wendigo" é mais um conceito apropriado pelo homem branco e tornado um pouquinho pior.
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