Centro Hélio Oiticica reabre ao público e à rua no Rio após episódio de censura

Espaço, que quase perdeu nome do artista, apresenta labirinto de lona inédito e itens que investigam seu processo criativo

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Leonardo Lichote
Rio de Janeiro

Quando criança, Hélio Oiticica memorizou o "Guia Rex", que trazia os mapas das ruas do Rio de Janeiro e os trajetos de ônibus da cidade. "Ele era o Google Maps da casa, orientando qualquer um que quisesse saber como fazer para chegar a determinado lugar", brinca César Oiticica Filho, sobrinho do artista e gestor de seu legado.

Já estava presente ali na infância, ele conclui, uma manifestação do "delírio ambulatório", conceito criado por Oiticica para definir sua maneira de vivenciar a cidade e que acabou levando para sua produção artística, em obras por dentro das quais o visitante caminha.

A vocação para o delírio ambulatório do menino Oiticica ecoa no penetrável "PN10", que a partir desta sexta-feira ocupa 142 metros quadrados da rua ao lado do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no centro do Rio de Janeiro.

Com seus corredores labirínticos numa estrutura de lonas cor de laranja que incorpora plantas e música, a instalação inédita é parte do "Programa Hélio Oiticica", que marca a reabertura do espaço cultural, fechado desde o início da pandemia.

Além do "PN10", idealizado por Oiticica em 1971 para o Central Park, em Nova York, e montado pela primeira vez agora, o "Programa Hélio Oiticica" inclui desenhos, croquis, vídeos, textos e maquetes do artista, que investigam seu processo criativo.

Uma das maquetes é a do gigantesco "Cães de Caça", de 1960, uma série de penetráveis conectados que, em escala real, ocuparia cerca de 900 metros quadrados. Estão lá também obras como o "Parangolé Tenda", de 1964, a "Cama Bólide", de 1968, e o penetrável "PN 27 Nas Quebradas", de 1971 —as duas primeiras inspiradas em soluções de moradores de rua e, a última, na arquitetura dos barracos da periferia de São Paulo, reafirmando a natureza de "delírio ambulatório" de seu trabalho.

A obra "Cosmococa 2 Onobject", de 1973, aparece montada pela primeira vez em sua edição doméstica, com móveis cobertos com lençóis, como os autores Oiticica e Neville D’Almeida fizeram algumas vezes apenas para amigos.

Ao som de uma colagem de músicas de Yoko Ono, são projetadas imagens de capas de livros da artista japonesa, do filósofo alemão Martin Heidegger e do assassino americano Charles Manson.

"Nossa ideia com a 'Cosmococa' era usar os símbolos que estavam sendo reprimidos na América", lembra D'Almeida. "Todo mundo detestava Yoko Ono, tida como a louca que conseguiu desmanchar os Beatles. E os livros de Heidegger e Mason faziam parte da mínima biblioteca do Hélio em Nova York. Só trabalhávamos com o que tínhamos à nossa volta."

"Escolhemos o nome ‘Programa’, em vez de ‘exposição’ ou ‘mostra’, porque reflete melhor a forma como Hélio pensava", afirma Oiticica Filho, curador do projeto. "É um conceito de Hélio que abriga as ideias de 'work in progress', produção coletiva, transversalidade e transdisciplinaridade, antes mesmo de esses nomes existirem. Vamos propor o diálogo da obra de Hélio com outros artistas plásticos e mesmo outras formas de arte", acrescenta.

Já na inauguração, nesta sexta, uma performance de dança da bailarina Marina Salomon, com direção de Regina Miranda, e uma apresentação musical, do instrumentista, cantor e compositor Chico Brown, interagem com o "PN10". A partir do ano que vem, o centro cultural abrigará também cursos e debates.

O curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff saúda a reabertura do centro cultural e a interação com outras linguagens artísticas. "Isso pode definir a personalidade do espaço, é um farol. Porque, a meu ver, a grande vocação do lugar seria, por um lado, se firmar como esse centro de encontro de diferentes formas de arte e, por outro, como um destino para se pensar o neoconcretismo, o movimento de arte brasileiro mais importante do século 20. Seria fundamental que artistas como Lygia Clark, Lygia Pape, Franz Weissmann e Amílcar de Castro estivessem representados ali."

Herkenhoff pondera, porém, que para isso seria necessário "generosidade e consciência social" por parte dos herdeiros. "O imposto de transmissão de herança no Brasil é irrisório, então eles têm que pensar com espírito público e devolver à cidade um pouco do muito que ela deu a esses artistas."

O "Programa Hélio Oiticica", previsto para se estender por três anos, indica uma retomada do artista, depois de um período atribulado. No ano passado, devido à pandemia, o Masp adiou de março para outubro a abertura da exposição "Hélio Oiticica: A Dança na Minha Experiência" —em junho, ela ganhou uma versão online.

Quando enfim ela chegou ao público de forma presencial, por causa das medidas sanitárias, os parangolés não puderam ser manipulados ou vestidos, como previsto originalmente pelo museu —e pelo próprio Oiticica em sua concepção.

O próprio Centro Hélio Oiticica esteve em risco nesse período. No ano passado, na gestão de Marcelo Crivella, uma exposição que trazia uma imagem da Virgem Maria com um pênis foi cancelada por determinação da Secretaria Municipal de Cultura. A família de Oiticica entendeu a atitude como censura e chegou a pedir que o espaço não tivesse mais o nome do artista. Com a saída de Crivella e a chegada de Eduardo Paes à prefeitura, o diálogo foi reestabelecido e a crise contornada.

"Não podíamos abrir mão de um de nossos maiores ícones artísticos", diz Marcus Faustini, atual secretário municipal de Cultura. "O que aconteceu foi uma vergonha. Hélio Oiticica tem a ver com o Rio, com o samba, com a rua, com uma obra que vai além da contemplação. É fundamental para o Rio neste momento", avalia Faustini, que anuncia planos de um festival cultural que se espalhará pelo centro da cidade em junho do ano que vem, com a participação do Centro Hélio Oiticica.

Herkenhoff se afina à ideia. "É maravilhoso que o centro do Rio possa se transformar num território expandido do Centro Hélio Oiticica."

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