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Cinema Ásia

'A Felicidade das Pequenas Coisas' seduz com paisagens do Butão

Trama passada no país que cunhou índice de alegria nos moldes do PIB não é das mais originais, mas inspira

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Zeca Camargo

A Felicidade das Pequenas Coisas

  • Quando Estreia nesta quinta (27)
  • Classificação 10 anos
  • Produção Butão, 2019
  • Direção Pawo Choyning Dorji

Não é todo dia que a gente é chamado para comentar um filme butanês. Uma página da Wikipédia dedicada à produção de cinema do país mais feliz do mundo —mais sobre isso daqui a pouco— lista menos de 40 títulos. É o que Bollywood chamaria de "um fim de semana".

A oportunidade de reencontrar uma das culturas mais peculiares, que conheci de perto em 2006, me pareceu irresistível. Por isso, foi com um enorme prazer que aceitei passar quase duas horas na companhia de um professor relutante. E um iaque.

pôster de filme
Pôster do filme do Butão 'A Felicidade das Pequenas Coisas' (2019), dirigido por Pawo Choyning Dorji - Divulgação

Espécie de boi, mas bem mais peludo e encorpado, ele faz parte da paisagem montanhosa do Butão. Tão forte é sua presença por lá que é possível até enxergar pequenos rebanhos quando o avião do visitante está prestes a fazer uma das aterrissagens mais apavorantes do passaporte de um turista.

Ao desembarcar em Paro, não muito distante da capital, Timphu, o viajante tem sua primeira surpresa –um visto que pode sair entre US$ 200 e US$ 250, por dia! Outras curiosidades do Butão —sua capital fica a 3.000 metros de altura; roupas tradicionais são usadas no dia a dia; ele é uma monarquia constitucional; no prato servem carne de iaque. Ah! E a tal "Felicidade Interna Bruta".

Alternativa ao universal Produto Interno Bruto, o PIB, o conceito foi criado para defender os interesses espirituais e sociais dos butaneses, talvez até de maneira mais forte que os materiais. E o rei atual, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, se orgulha de levar adiante a missão inaugurada por seu pai.

Essa expressão, no inglês "Gross National Happiness", aparece logo em uma das primeiras cenas de "A Felicidade das Pequenas Coisas", nosso filme butanês. Estampada nas costas da camiseta que o personagem principal, Ugyen Dorji, interpretado pelo carismático Sherab Dorji, usa constantemente.

Ele é aquele professor relutante, infeliz com sua ocupação. Sua meta é pegar seu hobby, tocar violão nos bares da noite de Timphu, e se lançar como cantor na Austrália. E, ao reclamar para um superior sobre sua insatisfação, Ugyen é "premiado" com alguns meses na escola mais remota do país, em Lunana.

Seu visto para a Austrália, uma dificuldade burocrática, está para sair, o que só o desanima ainda mais a cruzar o país, primeiro de van, depois a pé, num trekking nada camarada de oito dias, montanha acima.

No momento em que Ugyen começa sua viagem, você já sabe o que vai acontecer. Condenado a viver o oposto dos seus sonhos, não é difícil prever que o jovem professor vai ter um revelação atrás da outra sobre o que realmente faz uma pessoa feliz.

Titubeando entre lugares-comuns como a jovem pastora que encanta com suas músicas, a aluna mais esperta da classe e a beleza e a simplicidade da vida a 3.400 metros de altura, o diretor Pawo Choyning Dorji até que consegue contar uma história que, se não é das mais originais, é no mínimo sedutora.

E o maior encantamento dela, quem diria, vem justamente de um iaque, que Ugyen ganha da jovem pastora —por quem ele inevitavelmente se apaixona— e que deve ser criado dentro da sala de aula, protegido do frio lá fora.

A imagem de um bovino enorme dividindo o espaço com aqueles pequenos alunos é de uma poesia quase buñuelesca. Tão inspirada que nos faz acreditar de fato que aquele animal é o ponto de mudança para o professor.

O bicho está no título original do filme, "Lunana, um Iaque na Sala de Aula". Não deixa de ser uma ironia que, rebatizado aqui no Brasil com o nome fofo de "A Felicidade das Pequenas Coisas", a produção tenha justamente nesse gigantesco animal a chave para a tão sonhada felicidade.

Ao concluir a saga do seu professor, com pitadas de filmes do gênero que vão de "Ao Mestre com Carinho" a "Sociedade dos Poetas Mortos", só que com música, o diretor resiste ao clichê mais imediato da transformação.

Sem dar muito spoiler, digamos que o sonho de Ugyen é elegantemente desconstruído. E a cena final, quando nosso herói inesperadamente interrompe uma música no meio, é tudo menos óbvia.

Se você aceitar ser levado por essa viagem inspiradora, digamos, será capaz de encontrar algumas recompensas ao longo dela. Se não para sua vida, ao menos para os seus olhos, com as paisagens estupendas do Butão. O que, no mínimo, já vai fazer crescer sua "Felicidade Interna Bruta".

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