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Zeca Camargo

Elza Soares teve vida surreal e da qual não pensou em desistir

Com uma carreira inigualável na MPB, a cantora pôde inspirar tantas pessoas e, até o fim, incomodou muita gente

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Zeca Camargo

"Zequinha, não queria que essa história entrasse no livro." Me acostumei com um telefonema de Elza Soares pelas manhãs enquanto fazia as entrevistas para sua biografia, "Elza", publicada pela editora Leya em 2018. Eles vinham com a precisão de um relógio sempre que, na noite anterior, ela tivesse me contado uma passagem da sua vida que ela não se sentia muito à vontade para compartilhar.

Na primeira vez, fiquei nervoso. Quando ela queria, Elza era brava. Num jantar de gala que ela tinha feito para mim um dia antes, ela me relatou como foi o período em que, logo após ter perdido seu filho com Garrincha, ela entrou pesado nas drogas. Meio sem achar as palavras corretas, convenci Elza de que o que poderia parecer negativo, no final seria mais uma razão para as pessoas a admirarem, uma vez que, a cada crise da sua vida, ela se superava e saía mais forte.

Ela ainda não tinha certeza de que queria a passagem no livro, o que arruinaria todo um capítulo, talvez dois. Eu disse então que escreveria, de um jeito que ela pudesse aprovar. Assim o fiz. Li para ela. Elza pediu para trocar duas ou três palavras. E o episódio entrou na biografia.

Na terceira ou quarta vez em que ela me ligou com o mesmo pedido, sempre sobre um aspecto diferente da sua vida, eu já estava tirando de letra. Mas, na última vez, no processo de um ano e meio da elaboração do livro, que ela me ligou para pedir isso eu fiquei desarmado.

Tínhamos, na noite anterior, falado sobre suas paixões mais recentes, inclusive os dois relacionamentos com parceiros que eram décadas, várias décadas, mais jovens do que ela. E num maravilhoso devaneio ela me contou como seu próprio corpo se transformou na presença de tanta juventude. Parecia o relato de uma adolescente apaixonada, descobrindo que sexo e amor poderiam ser a mesma coisa. Era um depoimento lindo.

Mas ali estava Elza me suplicando para que não colocasse aquilo no livro, que ela não queria parecer uma "garota boba apaixonada". Imagine um dos momentos mais emocionantes de todas as entrevistas desperdiçado. Disse que reescreveria, mas ela estava firme. Não queria aquilo no livro. Escrevi assim mesmo. Mandei para a editora e ela só leu quando "Elza" estava pronta. Puxou minha orelha, mas tenho certeza de que aprovou.

Como todas essas histórias "proibidas", cada passagem da vida de Elza tem um componente mágico e surreal. Eu brincava com ela que a dela era uma vida que não deveria ter existido. Tudo jogava contra. E ele nunca desistiu. Ainda bem. Porque foi assim que ela ao longe de uma carreira inigualável na MPB pôde inspirar tanta gente.

No final dos nossos encontros regulares, quando a gente fazia um balanço da sua vida, falando sobre a luta que é ser uma mulher negra no Brasil, ela contou sobre o comentário que fez nas redes sociais assim que soube do assassinato de Marielle Franco. Inevitavelmente, ela foi atacada com a fúria da ignorância das redes antissociais. Nem ligou. Parou para respirar, como se lembrasse alguns dos insultos que recebeu, olhou para mim e disse "que coisa, né, Zequinha?, 88 anos e ainda incomodando muita gente". Aí gargalhou.

Siga incomodando Elza, de onde você estiver. Faça esse favor por nós.

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