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Livros de Thalita Rebouças, Paula Pimenta e outros viram aposta do streaming

Crescimento de plataformas na pandemia e paralisação da Ancine impulsionam a adaptação de obras nacionais

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Capa do livro 'Fazendo Meu Filme'

Capa do livro 'Fani em Busca do Final Feliz', o quarto volume da série 'Fazendo Meu Filme', que está virando filme Diogo Droschi/Editora Gutenberg

Ribeirão Preto

Saltar das páginas para as telas está em alta. Dezenas de filmes e seriados baseados em livros brasileiros estão sendo produzidos no país, numa tendência que virou fonte de renda extra para os autores, que não só vendem seus direitos autorais para as produtoras, mas são convidados para participar da adaptação de suas histórias ou para escrever roteiros que, no caminho inverso, depois podem virar livros.

Com a paralisação da Agência Nacional do Cinema, boa parte dessa safra está sendo produzida para o streaming, com previsão de estreia para este e o próximo ano. É que, se o governo Bolsonaro não distribui aos produtores os recursos públicos para fazer girar a roda do cinema, multinacionais como a Netflix e Amazon assumem a tarefa.

Com 2 milhões de livros vendidos, Thalita Rebouças é um dos nomes de peso que agora se dividem entre o mercado editorial e o audiovisual. Além de vender o direito de adaptação de seus romances, como acaba de fazer com "Por Que Só as Princesas se Dão Bem?", que será produzido neste ano pela Elo Company com a Warner Brothers, ela agora escreve histórias inéditas para a Netflix e as transforma em livros.

Foi o caso de "Pai em Dobro", filme estrelado por Maisa Silva sobre uma adolescente em busca de seu pai, e de "Lulli", com Larissa Manoela, que vive uma estudante de medicina com o poder de ouvir os pensamentos de todos ao redor. O primeiro teve sua adaptação para as páginas lançada dois meses antes do longa-metragem, que estreou em janeiro passado, e o segundo, que chegou à Netflix neste fim do ano, está sendo negociado com editoras.

Paula Pimenta também ingressou no audiovisual. Após adaptar "Cinderela Pop" para os cinemas em 2019, ela vem trabalhando na adaptação de "Fazendo Meu Filme", sua série de maior sucesso, que vendeu 800 mil cópias. A estreia é prevista para este ano, seja nas telonas, seja nas telinhas.

Pimenta não pretende escrever histórias originais para as telas "por falta de tempo", mas passou a roteirizar suas adaptações, acompanhada de roteiristas com experiência, "para garantir que não estraguem os livros".

"Não tenho o menor interesse em assinar um contrato e assistir ao filme na estreia. Só aceito se me levarem junto, então coloquei no contrato que precisaria aprovar roteiro, elenco, trilha sonora, tudo."

São privilégios que só têm cacife para exigir autores com cifras superlativas, cuja bênção às adaptações é garantia de audiência. Eles não são, porém, os únicos que despertam interesse do mercado, já que as cifras consideradas altas por editoras são ínfimas em relação às do audiovisual.

É o que diz uma editora decana que trabalha para uma produtora como olheira, ou seja, à procura de romances com potencial para render filmes e seriados de sucesso.

Alguns elementos narrativos, ela diz, são imprescindíveis para que uma produtora aposte num livro. É o caso de uma ambientação "glocal", termo derivado das palavras inglesas "local" e "global", que caracteriza histórias que, embora se passem numa cidade brasileira, podem ser compreendidas e apreciadas pelo público estrangeiro, já que as plataformas exportam as produções nacionais mundo afora.

Outros elementos mudam com certa frequência, principalmente entre as diversas plataformas de streaming. É que o streaming é capaz de definir até que tipo de personagem leva o espectador a fechar o aplicativo e desistir de assistir a uma produção.

Exemplo disso são os personagens LGBTQIA+, que costumam ser benquistos pelas plataformas, mas apenas quando sua sexualidade ou identidade de gênero não são elementos centrais da história.

Como toda regra, há exceções. Uma delas é "Quinze Dias", de Vitor Martins. O livro, comprado pela Conspiração Filmes, que agora busca financiamento para adaptá-lo, acompanha a trajetória de um adolescente que se apaixona pelo vizinho.

Dramas familiares, ou seja, que possam interessar tanto o adolescente quanto o adulto e o idoso da mesma casa, são o que todo produtor diz à reportagem estar à procura. Na prática, porém, a maior parte dos livros que estão sendo adaptados são juvenis.

Para lançar ainda neste ano, a Netflix já filmou "De Volta aos 15", um seriado baseado no livro homônimo da blogueira Bruna Vieira, e o Disney+ produziu "Tudo Igual… SQN", adaptação do livro "Na Porta ao Lado", de Luiza Trigo.

O Amazon Prime Video, por sua vez, está filmando "Um Ano Inesquecível". Será uma série de quatro filmes, cada um dedicado a um conto de uma coletânea homônima escrita por Rebouças, Pimenta, Vieira e Babi Dewet. O primeiro é dirigido por Lázaro Ramos.

A HBO Max, por fim, comprou os direitos de adaptação de histórias de Carina Rissi, que tem como público principal mulheres adultas. O primeiro a ser adaptado, ainda sem previsão de estreia, será "Procura-se um Marido".

"Às vezes, não dá tempo de atender às demandas imediatas do streaming, porque até comprar um livro, fazê-lo virar um roteiro, filmá-lo, já é tarde demais. É por isso que, na nossa prateleira, tem
um pouco de tudo", diz Clarisse Goulart, da Conspiração.

A produtora comprou "Suíte Tóquio", sobre o rapto de uma criança por sua babá, "Cancún", sobre paternidade e religião, e "A Claridade lá Fora", que acompanha uma mulher que reaprende a viver diante de um relacionamento.

"Não existe um gênero que o mercado não aceita", acrescenta Gabriel Gurman, CEO da Galeria Distribuidora, de "Fazendo Meu Filme". "Existem gêneros de difícil produção. Exemplos disso são
os livros de fantasia ou ficção científica. O mercado não tem dinheiro para adaptá-los."

A Galeria ainda trabalha no lançamento de "Papai é Pop", do humorista Marcos Piangers, e vai filmar nos próximos meses "Pecadora" e "Além do Olhar", dois romances eróticos de Nana Pauvolih.

A safra dos eróticos ainda é contemplada por dois romances de Mila Wander, "O Safado do 105" e "O Canalha do 610", cujos direitos de adaptação estão reservados para uma produtora que ainda não os comprou de fato, mas já deu um adiantamento à autora e têm prioridade para comprá-los por um determinado período —que costuma variar entre um e dois anos, caso uma produtora concorrente demonstre interesse.

É uma prática comum no mercado, pela qual André Vianco também vendeu "Os Sete", um romance sobre sete vampiros portugueses libertados no litoral brasileiro após 500 anos de aprisionamento.

Entre os livros de não ficção, estão em alta as histórias de crimes reais, os "true crimes", que exploram as falhas da Justiça, da polícia e da mídia brasileira.

A Netflix está adaptando para seriado "Todo Dia a Mesma Noite", um livro-reportagem sobre o incêndio na boate Kiss, e a Globoplay prevê para outubro a estreia de "Rota 66", seriado baseado no livro-reportagem de Caco Barcellos sobre a violência policial em São Paulo.

Por fim, "Vozes do Joelma", sobre morticínio provocado pelo famoso incêndio dos anos 1970, também teve os direitos de adaptação reservados.

A busca por livros brasileiros, que os editores e produtores dizem nunca ter sido tão alta, está relacionada ao crescimento das plataformas de streaming, impulsionado pela pandemia de Covid-19.

É que, ao trabalhar com adaptações, os roteiristas conseguem suprir com mais agilidade a alta demanda de produção. Mesmo quando precisam expandir conflitos, criar personagens e até transformar em ação os pensamentos do protagonista, um elemento tão comum na prosa literária, trabalhar a partir de um esboço agiliza o processo.

Esta mesma onda tem levado ainda à contratação de escritores para serem roteiristas. Além da parceria de Rebouças com a Netflix, Raphael Montes, que faz sucesso com romances policiais, está escrevendo e produzindo novelas para a HBO Max e criando um seriado de comédia para o Disney+, nos passos de Carolina Munhóz e Raphael Draccon, que se mudaram para Los Angeles para se especializarem no audiovisual e, desde então, criaram "Cidade Invisível" e "O Escolhido".

A demanda é tão alta que o mercado ainda aposta em jovens com poucos anos de carreira. É o caso de Ray Tavares, autora de seriados ainda não anunciados, e de Juan Jullian, autor do romance gay "Querido Ex", que foi contratado pela Globo para escrever um seriado com Elísio Lopes Júnior, de "Medida Provisória", uma distopia sobre um Brasil que expulsa negros de suas terras.

Embora seja grande a variação do valor pago pelos direitos de adaptação de um livro, a depender de fatores como a possibilidade de a narrativa render apenas um filme ou uma série de várias temporadas, além do quanto a história já fez sucesso nas prateleiras, as cifras não raro chegam a R$ 100 mil.

Caso a produção vá para o cinema, o autor ainda pode lucrar uma porcentagem da bilheteria e da venda de DVDs. É um valor considerado alto, diz Jullian. "O livro abre portas, mas o audiovisual paga contas. Para a maioria dos autores brasileiros, é muito difícil viver só de livros. É com roteiros que consigo me sustentar e viver da escrita que tanto amo."

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