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Livros

Engana-se quem pensa que Lygia Fagundes Telles era dama domada

Ter contato com sua literatura é sentir a quentura do inferno, o terreno movediço, a ciranda de pedra

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Marcelino Freire

Escritor, é autor, entre outros livros, de "Nossos Ossos" (editora José Olympio)

"Nunca ria, Lygia, quando forem tirar de você uma fotografia." E Lygia abriu então um meio sorriso, creio. Sem entender o conselho da amiga Clarice Lispector. "Se a gente sair em fotografia sorrindo, esses machos não vão nos levar a sério". Os machos que, até então, dominavam a literatura brasileira.

"Você é muito bonita para ser escritora", chegou a dizer um deles para a autora de "Praia Viva". Por falar em praia, por falar em sol, Clarice, autora de "Água Viva", que vai ali, mergulhar fundo na alma das coisas. No mistério. No caso, "praia", de fato, é mais a cara de Lygia. Formigueiro de gente na areia, tumulto colorido. Os raios. Bate a luz, brilha e ofusca. Um verdadeiro "Verão no Aquário", outro livro de seu início de carreira.

A escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu aos 98 anos, em foto de 2013
A escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu aos 98 anos, em foto de 2013 - Fabio Braga/Folhapress

Vejamos. Recapitulo sua trajetória para escrever este texto. E o que vejo é o sorriso. Vou atrás de fotografias dela para uma homenagem no meu Instagram. Quase todas sorrindo. Ela me disse, um dia: "Eu mantenho o ar de mistério, nas fotos, com o meu cachecol vermelho. Se chegarem perto, com más intenções, enforco um". Cachecol era defesa. Não era uma característica de dama da literatura brasileira. Engana-se quem pensa que Lygia era uma dama domada. Boba. Sorriso inocente, indefeso.

Você, leitor,​ leitora, caia em um conto dela para sentir só a quentura do inferno. Sempre digo: terreno movediço. Comer pelas beiradas. Lygia nos atrai para a ciranda. Uma ciranda, mas de pedra. O coração, todo ele, ardente. O seminário, só de ratos. As nuvens, elas, em constante conspiração. Dama um diabo!

A tirar pelas péssimas companhias dessa menina: Clarice, Hilda. Foi amiga desde a primeira hora de Ruth Guimarães, autora do clássico "Água Funda" e parceira de Academia Paulista de Letras. Em uma gravação de programa de TV, em que estávamos eu e ela, me perguntaram da plateia: "Você entraria para a ABL?". Se existirem mais Lygias por lá, com certeza não faltarei ao estranho chá. Respondi. E Lygia riu, quase puxando o cachecol para o meu lado. A bem da verdade, eu não valho um atentado.

Lygia era ciente de seu lugar. Bem sabia de seu espaço. Muito além da imortalidade. Salve e salve! Uma outra vez, lá atrás, me mandou um microconto para antologia "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século" (2004). "Eu escrevo miúdo também, viu?". Curto, denso, exato. Eis a grande miúda narrativa de sua autoria: " –Fui me confessar ao mar./ –E o que ele disse?/ –Nada.".

Rio. Vou guardar de Lygia o sorriso. Era algo que desembocava fácil. No batom vermelho, nos olhos nada tontos. Potencialmente estonteantes. Gostava de contar piadas, causos. Adorava assombrações de cemitérios. Perguntei sobre a origem de uma história intitulada "Uma Branca Sombra Pálida", do livro "A Noite Escura e Mais Eu". Ela contou que viu uma mulher mexendo em um jarro de flores diante de um túmulo. E a mulher surrealmente fumava enquanto espetava as corolas lá para dentro. Cigarro é tão festivo. E ali, nas mãos da personagem, virou um impiedoso fogo-fátuo.

Também é inegável o seu talento para dar susto. Seu fôlego em suspense. São antológicas narrativas fantásticas. A exemplo da fila revolucionária de formiguinhas em uma pensão. Em plena época da ditadura. Qual origem daquela migração das formigas? Com certeza, vindas dos ossos entulhados de desaparecidos políticos. Cuidado! Nossa democracia desde sempre ameaçada, em putrefação.

Tantas tragédias vividas por Lygia. Guerreira até o último dia de vida. Sempre foi, para nós, uma garantia saber que ela estava ali, contemporânea e companheira de nosso tempo. Quando, em 2010, fizemos uma Balada Literária toda em homenagem a ela, Lygia veio ao encontro, participou de debates, abraçou a todos e todas mesmo com a saúde frágil. "Eu não estou extinta." Dizia e sorria. Tão profunda. Tão amada.

Escrevo fisgando essas pontes de esperança que o seu sorriso trazia. Em um momento, aliás, em que estou na cidade de Sertãozinho, no interior de São Paulo, descubro, pela rápida pesquisa, que Lygia viveu por aqui. Esteve nessas ruas em que, faz alguns dias, acompanho a saúde delicada de um dos meus sobrinhos.

Deparo-me com a notícia da morte de Lygia Fagundes Telles neste começo de tarde de domingo. Olho para a tela do computador, olho para o céu à janela. Há um quê hoje de Clarice Lispector no ar. Da força inquieta de Hilda Hilst. E de uma confiança, sei lá, em toda uma geração de mulheres que estão seguindo, com "poderamento" e determinação, a trilha aberta por esta grande mulher. Esta grande brasileira. O céu está em festa carnavalesca. Um baile verde. Rebelde em sua extrema força. E em sua eterna delicadeza.

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