Ex-casal cria museu que reúne memórias de amores desfeitos

Acervo de mais de 2.200 objetos na Croácia cresceu com doações anônimas

Carlos Adriano

RESUMO Museu em Zagreb (Croácia) reúne mais de 2.200 objetos oriundos de separações amorosas. Criado por um ex-casal que procurava um lugar seguro para armazenar desencadeadores de memórias afetivas, o acervo cresceu com doações anônimas e reflete as diferentes percepções individuais de amor e perda. 

 

Mesmo que seja aterrador, levar um fora em uma relação amorosa pode ser uma experiência gloriosa. Ainda mais se o evento for sublimado, galvanizado e institucionalizado em um museu de arte —como é o caso do Museum of Broken Relationships (museu dos relacionamentos partidos), em Zagreb, na Croácia.

O espaço teve origem a partir de uma instalação de arte conceitual exibida na capital croata em 2006. "Ela foi inspirada pelo final do nosso próprio relacionamento", contam à Folha, por email, os croatas Olinka Vistica e Drazen Grubisic, autores da obra original, criadores e curadores do museu.

​Vistica é produtora de arte, com mestrado em línguas e literaturas inglesa e francesa pela Universidade de Zagreb. Grubisic é artista visual e mestre em pintura pela Academia de Belas Artes da cidade. Ambos nasceram em 1969 e o seu envolvimento amoroso durou quatro anos.

"Buscando formas de superar a dor ligada ao fim e de manter vivos os bons tempos, pensamos em arquivar aqueles objetos que eram muito dolorosos para mantermos conosco, junto de outros vindos de amigos que também sofreram separações", explica o ex-casal, hoje parceiros em projetos culturais.

Na instalação de 2006, foram expostos em um contêiner de navio objetos ligados a relações amorosas anônimas, com suas histórias e memórias. Vistica e Grubisic chamaram a instalação de "Museu dos Relacionamentos Partidos", sem imaginar que aquilo viria a se tornar um museu.

Em 2010, a dupla decidiu abrir um espaço permanente para exibir o material. O projeto ganhou o Prêmio Kenneth Hudson do Fórum Europeu de Museus como "projeto museológico mais ousado e inovador na Europa".

Situado no palácio barroco Kulmer, em uma esquina da histórica Cidade Alta de Zagreb, o museu é alcançado por um trajeto de subidas e descidas que emula os altos e baixos das relações amorosas. Moradores de São Paulo se lembrarão da metáfora geográfica: "o casamento é como a avenida Paulista, começa no Paraíso e acaba na Consolação".

Um café próximo ostenta na porta: "Aqui você tem cerveja mais gelada que o coração do seu ex".

ACERVO

O museu abriga uma coleção crescente: histórias e objetos que testemunham o naufrágio de relações afetivas são coletados constantemente por meio de uma chamada aberta para doações. O acervo é todo catalogado com título, indicações da cidade e da duração do relacionamento. Cada peça contém um texto anônimo em primeira pessoa, que contextualiza o item sem identificar os personagens.

Os objetos da coleção funcionam como fragmentos de um discurso amoroso escrito por Roland Barthes se nele baixasse o duchampiano espírito de Rrose Sélavy. As peças legadas pelos ex-amantes traduzem diversas cargas emocionais: de violentas a delicadas, como um machado cravado numa porta ou um buquê de papel; imprevistas ou banais, como livros de Proust que o casal costumava ler na praia ou a rolha da champanhe do primeiro jantar.

Segundo os curadores, o museu tem o propósito de "armazenar os desencadeadores dolorosos de nossas memórias, em um lugar seguro para o patrimônio tangível e intangível de relacionamentos passados". Essa lhes pareceu uma solução mais agradável e poética, "em comparação com a entrega de explosões de vandalismo emocional que destroem partes inestimáveis de nossa história íntima: este museu é uma chance para todos fazerem algo sobre isso —ser criativo para se recuperar dessa dor".

Atualmente, a coleção compreende mais de 2.200 itens, dos quais 94 estão exibidos em Zagreb. Uma seleção um pouco maior ilustra o livro "Modern Love in 203 Everyday Objects" (amor moderno em 203 objetos cotidianos), que a dupla lançou em 2017.

No museu, pode-se ver uma garrafa de água benta na forma da Virgem Maria. Foi o presente de despedida deixado por um amante em Amsterdã, em 1988, depois de dois meses —a mulher já tinha encontrado várias dessas garrafas na mala dele.

Em outra história, um anão de jardim foi atropelado pelo carro de um dos cônjuges, selando o fim do amor de 20 anos em Liubliana, na Eslovênia.

Um colar teria sido o presente de uma lésbica recém-assumida para sua primeira namorada, mas, dois dias depois de comprá-lo, soube que a outra decidira terminar o caso, que durou de janeiro a março de 2010 em Londres.

O livro "Tarântula", de Bob Dylan, remete à relação de dois anos entre uma inglesa e seu namorado americano que mudou de sexo. É exibido um roteador que rastreou o curto circuito de um namoro que durou entre maio e dezembro de 2008 em San Francisco: "Tentamos. Não compatíveis."

No acervo em exposição, há até mesmo uma peça brasileira: "Um Buquê de Casamento Feito de Papel", registro do relacionamento entre uma escritora e seu editor favorito, com quem se casou. A história durou de 24 de maio de 2006 a 23 de maio de 2011, até ela descobrir que o parceiro mandava relatórios sobre a relação para seus amigos.

"Toda pessoa percebe amor e perda de maneira diferente. É precisamente o caráter universal das experiências que o museu ilumina, garantindo a diversidade de doadores e visitantes: é um museu onde todos podem encontrar algo que ressoe em sua própria vida e é por isso que todos são tão propensos a contribuir com nossa coleção", escrevem os curadores croatas.

MEMENTO MORI

Em tempos de memes virais, cada objeto exposto configura-se como um "memento mori" de tempo e de amor, um tesouro ou fetiche a ser acalentado ou recalcado na memória, repositório de desilusões simbólicas. Ativado por uma história, o espectador reinveste seu sentimento empático em função de identificação solidária ou de uma lembrança revivida.

"O museu oferece uma chance para se livrar do fardo emocional, e o contexto universal de experiências semelhantes ajuda a convalescença e o bem-estar, o que parece ter um efeito catártico: funciona para doadores e visitantes", apostam os curadores. "As exposições nunca deixam de provocar uma resposta que, muitas vezes, depende de como o espectador reflete sua experiência pessoal nas histórias expostas. Eles podem sair sentindo-se mais agradecidos pelo amor que têm ou tiveram, ou perceber que há mais para ser ou ter", acredita a dupla croata.

O museu não cai na autoajuda fácil do consolo ao colapso passional, pois quem doa seu objeto de dor integra-se a uma rede criativa, torna-se parte de uma coleção engenhosa sob o código do anonimato, história universal da infâmia às avessas. Como se identifica, é "um museu sobre você, sobre nós, sobre as formas de amar e perder".

Cada um dos curadores-criadores confessou já ter passado por "muitos relacionamentos partidos". Mas apenas uma separação serviu de inspiração para começarem o projeto (embora seja enganoso presumir que seus amores anteriores não inspiraram o museu de algum modo).

O museu preencheria uma carência da sociedade contemporânea? Vistica e Grubisic respondem: "A julgar pela resposta do público, diríamos que sim. Mas não é o desejo de satisfazer qualquer necessidade que motiva nosso trabalho. Se houver um desejo, seria que o visitante encontre conforto ao saber que todos passamos pela mesma montanha-russa de emoções quando se trata de amor. Os visitantes não precisam de conhecimento ou interpretação prévia para entender o conceito".

E arriscam definir: "O museu é um convite para uma viagem empática às profundezas do coração humano. É um testemunho da nossa última necessidade de amor e conexão, apesar das dificuldades que a acompanham. É um desejo de atar por maneiras significativas através de divisões crescentes de classe, comunidade e cultura que parecem definir nosso mundo. E saber tudo o que pode acontecer em um museu certamente nos recompensa com o sentimento de realização."

O dispositivo da exposição parece ter um diferencial para curar a dor de amor —ao menos quando comparado, por exemplo, com as canções; Marcel Broodthaers e Lupicínio Rodrigues que o digam. O inferno pode mesmo ser os outros, sentem os condenados à Sibéria das artérias. Até porque, como creem os párias de corações partidos, a (suposta) superioridade de quem ama demais consiste em ser irremediável e irrevogavelmente incompreendido.

Se, como ensinou o pintor Paul Klee, o gênio é uma falha do sistema, o amor é uma gralha do sistema de relações humanas. O museu dos relacionamentos partidos recolhe, em redoma de ternura e ironia, os cacos de sentimentos convertidos em narrativas arquetípicas da pós-modernidade. E atualiza a tese de Benjamin —a história de um amor partido e perdido só é contada do ponto de vista (e de dor) dos vencidos. Nessa história ninguém sai ganhando, nem são e salvo.


Carlos Adriano, 51, cineasta, é doutor em cinema pela USP com pós-doutorado em artes, comunicação e semiótica pela PUC-SP.

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