Descrição de chapéu Oscar

Jornalista inglês rebate críticas ao Oscar e diz que votação é democrática

Academia tem mais de 7.000 eleitores, contra menos de cem do Globo de Ouro

Chris Pickard

RESUMO Autor sustenta que a Academia é uma das organizações de cinema mais internacionais do mundo, afirma que a escolha dos vencedores do Oscar é democrática e mostra que medidas vêm sendo adotadas para aumentar a diversidade entre os votantes. Conseguir maior participação dos membros ainda é um problema.

 
colagem de oscar
Colagem sobre Oscar - Zé Vicente

Quando o assunto é Oscar, a imagem que surge na cabeça das pessoas é a de pequenos grupos de patriotas norte-americanos —provavelmente todos homens e brancos— entrincheirados num bunker da Academia, em Los Angeles, para decidir os vencedores das estatuetas. A verdade, porém, como em tantos casos, é muito diferente.

Por mais falível que seja o processo pelo qual a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas chega à decisão quanto aos vencedores, ele é, ainda assim, bastante democrático.

Refletindo o interesse mundial na premiação —cuja cerimônia, em sua 90ª edição, será transmitida neste domingo (4) em 225 países—, um recorde de 92 nações apresentaram candidatos a melhor filme em língua estrangeira, incluindo estreantes como Haiti, Honduras, Laos, Moçambique, Senegal e Síria.

Comecei deliberadamente pelo melhor filme estrangeiro porque, como um inglês que estudou a Academia e com ela trabalhou por décadas —o que faz de mim uma espécie de geek do Oscar—, estou bem consciente da incompreensão que a cerca. O retrato que a mídia internacional faz da premiação poderia ser classificado, na maior parte dos casos, como fake news.

A Academia é, na realidade, uma das organizações de cinema mais internacionais do mundo. A maioria de seus membros julga filmes e candidatos genuinamente por mérito —e mérito apenas—, sem considerar fatores como nacionalidade.

São diversos os atores e as atrizes premiados ou indicados para Oscars por trabalhos em língua estrangeira. Como esquecer a indicação de Fernanda Montenegro em 1999, mesmo ano em que Roberto Benigni levou a estatueta de melhor ator por "A Vida É Bela", um filme italiano? Dois anos depois, "O Tigre e o Dragão", de Ang Lee, receberia dez indicações, levando quatro Oscars —até hoje um recorde para produções faladas em língua estrangeira, posição que o filme divide com "Fanny e Alexander" (1982), de Ingmar Bergman.

Talvez ainda mais notável seja o fato de, em 2012, os membros da Academia terem feito dez indicações a um filme mudo, em preto e branco e francês: "O Artista" levou cinco Oscars, incluindo melhor filme, melhor diretor e melhor ator.

Não foi novidade. A Academia concedeu o primeiro troféu para um filme falado em outra língua que não o inglês em 1947: "Vítimas da Tormenta", de Vittorio De Sica.

Outros sete filmes estrangeiros receberam prêmios especiais em anos seguintes, até que uma categoria específica fosse criada, em 1956. O Brasil entrou para a festa em 1960 e submeteu, até hoje, 47 filmes, dos quais quatro entraram na lista de indicados. O mais recente deles foi "Central do Brasil" (1998), de Walter Salles.

DIVERSIDADE

Se você estudar a lista de indicados deste ano, verá que está repleta de talentos de todo o mundo, independentemente da cor de seu passaporte. Muitos dos candidatos nas principais categorias nasceram fora dos Estados Unidos, com destaque para o mexicano Guillermo del Toro, grande favorito ao prêmio de melhor diretor por "A Forma da Água". Não haverá muro ou maré que o impeça de participar da cerimônia.

colagem de oscar
Colagem sobre Oscar - Zé Vicente

Infelizmente, esse não foi o caso para o sírio Khaled Khateeb, diretor de fotografia do curta-metragem "White Helmets" (capacetes brancos), indicado em 2017, que teve sua entrada nos EUA vetada pelas autoridades de imigração. Naquele mesmo ano, o iraniano Asghar Farhadi não estava na cerimônia para receber seu segundo Oscar de melhor filme estrangeiro, por "O Apartamento" —o diretor optou por permanecer em seu país como forma de protesto contra a política americana.

Neste ano, foi a vez de Kareem Abeed —produtor de "Últimos Homens em Aleppo", primeiro longa documental realizado por uma equipe de produção e direção síria a ser indicado ao Oscar— enfrentar problemas para entrar nos EUA. Inicialmente impedido de visitar o país em razão das restrições impostas pelo presidente Donald Trump, ele acabou tendo seu visto concedido e espera-se que participe do evento.

A presença de estrangeiros é especialmente curiosa na categoria de melhor ator principal desta edição do Oscar, com três ingleses entre os indicados: o favorito Gary Oldman ("O Destino de uma Nação"), Daniel Day-Lewis ("Trama Fantasma") e Daniel Kaluuya ("Corra!"). Além deles, há Timothée Chalamet, que, embora norte-americano, foi indicado por "Me Chame pelo Seu Nome", uma coprodução com a Itália falada em inglês, italiano e francês.

Isso deixa apenas Denzel Washington ("Roman J. Israel, Esq.") como representante dos EUA na disputa —o que não seria de esperar na América de Trump.

Mas os críticos parecem dispostos a desconsiderar a diversidade internacional dos indicados e premiados recentes a fim de questionar a diversidade da própria Academia. Os ataques envolvem, sobretudo, mulheres e negros: estariam sendo devidamente representados e recompensados na premiação?

O foco fica quase sempre nas categorias em que os indicados são todos homens e brancos, mesmo que a maioria dos talentos "ignorados" provavelmente quisesse uma indicação ao Oscar por mérito genuíno, e não por representar minorias na lista de candidatos.

O problema —se existir— deriva da composição do quadro de membros: uma lista com mais de 8.000 nomes, sobre a qual a organização guarda sigilo. O único fato conhecido é que em 21 de dezembro de 2017 havia 7.258 votantes, que selecionariam o melhor filme entre 341 longas-metragens elegíveis.

(Existem cerca de 800 membros eméritos que perderam direito de voto por não terem trabalhado no ramo ou recebido uma indicação nos últimos dez anos.)

Recentemente, foram adotadas iniciativas para tornar mais plural a composição da Academia. Os convites a novos membros têm priorizado mulheres e profissionais de origens raciais diversas, e a organização assumiu o compromisso de dobrar a presença feminina e de minorias em seus quadros até 2020.

Em parte devido a críticas nas mídias sociais, a questão da diversidade se tornou assunto de debates intensos em 2015, quando a hashtag #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) ganhou destaque em todo o mundo. O protesto continuou em 2016 —com a variante #OscarsStillSoWhite (Oscar ainda muito branco)— diante da ausência de candidatos negros aos prêmios nas principais categorias, embora tenha sido reportado que, dentre os admitidos à Academia naquele ano, 46% fossem mulheres e 41% pessoas não brancas.

PREMIAÇÃO

Um dos aspectos negativos da ampliação do número de membros é que já faz bastante tempo que se tornou impossível que todos participem da cerimônia. Para comportar associados, indicados, parentes, apresentadores, executivos de estúdios, jornalistas etc., seria necessário realizar o Oscar no Hollywood Bowl, com seus 17.500 lugares.

Mas o evento deste domingo ocorrerá, pela 17ª vez consecutiva, no Dolby Theater, com seus 3.300 lugares —o que não deixa de refletir os avanços de popularidade de uma premiação cuja primeira cerimônia, realizada em maio de 1929 no hotel Hollywood Roosevelt, teve 270 participantes e ingressos vendidos a US$ 5.

Os membros da Academia estão divididos em 17 grupos técnicos e artísticos, que vão desde atores e diretores até maquiadores e engenheiros de som. São os integrantes de cada ramo que decidem os indicados para a respectiva categoria de premiação. Ou seja, as indicações são feitas por seus pares. Os atores, por exemplo, selecionam, anualmente, suas cinco atuações preferidas em cada categoria —principal e coadjuvante, feminino e masculino—, e daí sairão as listas dos indicados.

colagem com oscar
Capa da 'Ilustríssima' - Zé Vicente

O caso dos filmes estrangeiros é ligeiramente diferente. Depois de episódios como o de 2007, em que obras celebradas mundialmente como "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu, e "Luz Silenciosa", de Carlos Reygadas, não ficaram entre os cinco finalistas, as regras para nomeação nessa categoria mudaram.

Os membros escolhem seis favoritos entre os filmes em língua estrangeira submetidos por todo o mundo. A essa lista se somam três sugestões adicionais, feitas por um comitê executivo da categoria, presidido pelo produtor Mark Johnson (vencedor de um Oscar por "Rain Man"). Esses nove filmes compõem a shortlist da categoria e são vistos por um grupo seleto de membros, em sessões realizadas em Los Angeles, Nova York, Londres e São Francisco. Por voto secreto, eles decidem os cinco finalistas.

Dos 92 países que submeteram filmes neste ano, conseguiram indicação Chile, Hungria, Líbano, Rússia e Suécia. Ficaram de fora da final os representantes da África do Sul, da Alemanha, de Israel e do Senegal.

Com a conclusão do processo de indicação, abre-se a votação para todas as categorias. Fica, então, a cargo dos 7.258 membros votantes —independentemente de seu ramo de atuação— selecionar para quem vão as estatuetas.

Tenha em mente este número: 7.258 eleitores. O Globo de Ouro —que também premia a excelência cinematográfica e costuma ser bem menos criticado do que o Oscar— é decidido pelos míseros 93 membros da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, muitos dos quais nem cobrem o setor de entretenimento em período integral e provavelmente nunca trabalharam na frente ou atrás das câmeras. Isso deveria pôr em perspectiva a diversidade da Academia.

VOTAÇÃO

Um aspecto que me parece mais relevante nos processos de votação da Academia é o seguinte: mesmo que todos os 7.258 potenciais eleitores fossem representativos de todos os gêneros, etnias e origens, a quantos dos mais de 300 filmes anualmente indicados eles terão assistido antes de votar?

O cronograma da Academia costuma conceder cerca de um mês para que os membros assistam aos filmes indicados para todas as categorias (cerca de 40 em cada edição). Neste ano, por exemplo, as indicações foram anunciadas em 23 de janeiro e a votação final ocorreu de 20 a 27 de fevereiro —somente cinco dias antes da cerimônia de premiação, diga-se de passagem.

A fase de indicações, na qual são candidatos centenas de filmes lançados em cada ano, começou em 5 de janeiro e durou uma semana.

Outra questão fundamental é esta: quantas obras foram vistas na forma pretendida pelo realizador, na telona, e não em televisão, computador, tablet ou celular?

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Colagem sobre Oscar - Zé Vicente

Um dos privilégios de ser membro votante é receber cópia de todos os filmes submetidos —até pouco tempo atrás, em fitas de vídeo, que foram substituídas por DVDs e, agora, por links de streaming.

Por isso, a pirataria sempre foi uma preocupação da Academia, que adverte seus membros da pena de exclusão caso colaborem para a divulgação ilegal das obras a que tenham acesso. Há muito foram criados códigos de identificação nas cópias enviadas aos votantes. Em pelo menos um caso conhecido, isso serviu para expulsar um membro.

Até onde se sabe, apenas duas pessoas foram excluídas da Academia desde sua fundação, em 1927. Uma delas, muito recentemente e com bastante publicidade: o produtor Harvey Weinstein.

O caso anterior é de 2004, quando o ator Carmine Caridi, 84, mais conhecido por seus papéis em "O Poderoso Chefão 2" e "O Poderoso Chefão 3", foi expulso por ter fornecido filmes para um notório pirateador, que passou a vender cópias com o código identificador do ator. Parece justo considerar Caridi um azarado, já que ele certamente não foi o único integrante da Academia a repassar arquivos a terceiros.

Hoje, o streaming tornou mais fácil e seguro enviar as obras para os membros da Academia, onde quer que vivam, mas a organização ainda precisa encontrar formas de encorajar os votantes a assistir aos filmes, especialmente na etapa inicial, de indicações.

Para complicar, as regras de marketing relativas ao Oscar são bastante restritas e proíbem, por exemplo, mailing ou contato direto com os eleitores. E, como diz o velho provérbio, "você pode levar um cavalo até a água, mas não pode obrigá-lo a beber". Entregar o filme a uma pessoa não significa que ela vá assisti-lo —ou assisti-lo na íntegra, como ilustra uma história associada a "Trainspotting", de Danny Boyle.

Foco de grande sucesso comercial e de crítica, a obra recebeu apenas uma indicação no Oscar de 1997 (roteiro adaptado), para surpresa da indústria. Reza a lenda que os membros da Academia que tentaram ver o filme não conseguiam entender o forte sotaque escocês dos personagens, e uma cena escatológica explícita logo no início teria feito com que muitos interrompessem a sessão por ali.

PRODÍGIO

Essa máquina complexa pode ter atrapalhado o caminho de muitos bons candidatos, mas houve quem aprendesse a manejar suas engrenagens. As últimas décadas viram surgir um mestre das campanhas para conquistar indicações e Oscars: Harvey Weinstein, hoje persona non grata na Academia. É como se uma escola tivesse expulsado seu aluno mais brilhante.

O histórico do produtor desgraçado impressiona, independentemente da opinião que você tenha sobre ele. Sob sua liderança, Miramax e The Weinstein Company produziram e distribuíram obras que, segundo consta, obtiveram 341 indicações ao Oscar (incluindo quatro para "Cidade de Deus") e conquistaram 81 desses prêmios, entre os quais três para melhor filme em idioma estrangeiro.

Foi a equipe de marketing de Weinstein a primeira a compreender o momento certo para o lançamento de filmes menores nos EUA e o uso correto dos talentos (grandes nomes de cada produção) para apoiar e divulgar a obra, mantendo os espectadores (e os eleitores da Academia) interessados por meio de entrevistas a jornais, revistas, TVs, rádios e, especialmente, programas noturnos de entrevistas da televisão norte-americana.

O produtor tampouco demorou para perceber quão internacionais eram os quadros da Academia e levou sua mensagem a eleitores radicados no Reino Unido, na França e em qualquer outro país cujo número de membros pudesse fazer diferença na hora da indicação.

Londres (e outras cidades do Reino Unido), dada sua força em talentos de direção e atuação —e cada vez mais nas áreas técnicas e artesanais da cinematografia—, abrigam o maior número de eleitores do Oscar fora de Los Angeles e Nova York. É por essa razão que a Inglaterra costuma receber sessões especiais; também por isso, muitos artistas cruzam o Atlântico para falar com a mídia britânica.

Certa vez, estimei que era possível garantir a indicação de um filme divulgando-o apenas entre os eleitores britânicos da Academia. Como a lista de membros é secreta, contudo, um mapeamento preciso é quase impossível de ser feito.

TELEVISÃO

Nesse esforço de internacionalização, a Academia ainda deve maior atenção aos telespectadores de fora dos EUA. De 1959 a 1998, os Oscars eram entregues na noite de uma segunda-feira, em parte porque, nesse dia, os teatros da Broadway não funcionavam. Assim, os atores que trabalhavam em Nova York poderiam voar até Los Angeles sem perder apresentações de suas peças.

Em 1999, a cobertura televisiva do Oscar tinha atingido tamanha importância que a cerimônia foi transferida para domingo, dia de maior audiência nas TVs norte-americanas.

Um dia depois do anúncio, comentei com um colega que estava decepcionado. Se a Academia tivesse passado a realizar o evento no sábado, pessoas de outros países encontrariam menos problemas para acompanhar toda a transmissão ao vivo.

Problemas, de todo modo, nunca faltam em uma premiação dessa magnitude, como sabe qualquer pessoa que assistiu à cerimônia do Oscar do ano passado até o anúncio do melhor filme.

Até 1940, a Academia fornecia uma lista dos ganhadores à mídia antes do anúncio oficial, facilitando a vida dos jornalistas que escreveriam reportagens para os exemplares do dia seguinte. Depois que o Los Angeles Times desrespeitou o embargo e publicou os vencedores em sua edição noturna, estragando a surpresa, decidiu-se que os resultados seriam mantidos em sigilo.

Na cerimônia de 2017, por falha de um funcionário da PricewaterhouseCoopers —empresa que desde 1934 cuida da apuração dos votos e protege os resultados--, "La La Land: Cantando Estações" foi anunciado como melhor filme.

Corrigiu-se o erro em seguida, mas não antes de a equipe de "La La Land" subir ao palco, criando situação constrangedora com o time de "Moonlight: Sob a Luz do Luar", dirigido e protagonizado por negros, que era o verdadeiro vencedor.

Houve quem dissesse que, mesmo quando premiou uma produção negra, a Academia se enrolou e não soube fazê-lo de forma correta.

No espírito da famosa declaração de Winston Churchill sobre a democracia (a pior forma de governo, exceto todas as outras), a Academia e o Oscar têm muitos problemas. Você pode não concordar com as escolhas de seus 7.258 membros, mas, consideradas todas as formas de premiação que já foram experimentadas, o Oscar continua sendo a melhor que conhecemos —e que continue assim por muito tempo.


Chris Pickard, 61, jornalista britânico, escreve sobre o Oscar desde os anos 80. Foi correspondente da "Screen International" no Brasil e editor da "Moving Pictures International".

Tradução de Paulo Migliacci.

Zé Vicente, 39, é artista plástico.

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