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Tradicional casa de concertos de Washington abraça cultura hip-hop

Kennedy Center nomeia MC Q-Tip, ícone do ritmo afroamericano, como novo diretor artístico

Estelita Hass Carazzai

As imponentes paredes de mármore do Kennedy Center, principal centro cultural de Washington, costumam abrigar concertos, óperas e balés aplaudidos por uma plateia encasacada —e branca.

Mas a casa de espetáculos, sediada numa capital de maioria negra conhecida como "cidade chocolate", quer alterar o roteiro. Pra valer.

A instituição abraçou a cultura hip-hop, ritmo criado em subúrbios negros dos EUA nos anos 1970 e intimamente ligado à história americana. No ano passado, nomeou uma diretora para esse tipo de programação: Simone Eccleston, nascida no Bronx, bairro de Nova York onde nasceu o rap.

Shows, festas dançantes e exibição de filmes passaram a integrar o programa oficial do centro. "Vão ser corpos suados", comentou o MC Q-Tip, ícone do movimento hip-hop e novo diretor artístico do Kennedy Center, sobre os eventos vindouros.

cantor negro com microfone em show de hip hop
O produtor e MC norte-americano Q-Tip, um dos pioneiros do movimento hip-hop em Nova York, EUA. - F.Bitão/Divulgação

A mudança não é pequena. O catálogo da programação do centro, distribuído aos visitantes, é conhecido internamente pelo acrônimo "SOB": sinfonia, ópera e balé. Alguns frequentadores da casa —que recebe verba federal, mas é em boa parte bancada por doações de filantropos— demonstraram surpresa. Mas os eventos têm sido sucesso de público.

A atual temporada incluiu um show do rapper Common, acompanhado da Orquestra Sinfônica Nacional; uma competição de dança (as famosas "batalhas de break"); karaokê com sucessos do hip-hop; e uma homenagem ao rapper LL Cool J no tradicional Kennedy Center Honors, uma das principais láureas do país.

ll cool j
O rapper LL Cool J em foto de 2015. - Rich Fury/Invision/AP

O homenageado foi comparado a Bach por um dos diretores artísticos da casa, o pianista Jason Moran, para quem o rapper tem tanta importância e influência cultural quanto o compositor alemão.

O Kennedy Center afirma que não está cumprindo tabela, mas assumindo um compromisso de longo prazo com a cultura hip-hop —e com a população negra. A ideia é que o centro se torne um "campus criativo" que engaje e inspire a comunidade e reflita a expressão artística contemporânea do país.

MOGNO

A cultura negra de Washington segue em resistência na livraria Mahogany Books —batizada com a palavra inglesa para "mogno".

O estabelecimento, que pertence a uma família negra, foi inaugurado há quatro meses e é dedicado apenas a livros "por, para ou sobre pessoas da diáspora africana".

Foi a primeira livraria aberta nos anos 2000 do outro lado do rio Anacostia, onde se concentra parte da população afroamericana de Washington, distante do roteiro turístico. O bairro tem uma taxa de pobreza quase duas vezes maior que a média da capital. Nos últimos anos, o interesse imobiliário pela região aumentou e surgiram novos empreendimentos.

Mas foi o vínculo histórico com o bairro, onde cresceu o proprietário Derrick Young, que atraiu a família. Nas paredes, estão fotografias de ícones afroamericanos, como o abolicionista Frederick Douglass e a escritora Zora Neale Hurston.

LUZES DE LANTERNAS

No lado oposto do rio, um livro recém-lançado desnuda histórias de um dos principais pontos turísticos de Washington: a Biblioteca do Congresso.

Lançado em janeiro, "A Maior Biblioteca da América" (D Giles Limited) é uma obra ilustrada, de capa dura, que chama a atenção pelas fotografias do belíssimo prédio e de peças do acervo. Mas os textos que recheiam as 256 páginas também revelam curiosidades.

Uma delas é uma busca feita com urgência, sob a luz de lanternas, na noite do assassinato do presidente John Kennedy, em 1963.

Foi um pedido da então primeira-dama, Jacqueline. Ela queria informações detalhadas sobre o velório do presidente Abraham Lincoln —igualmente assassinado, em 1865, num crime seguido de enorme comoção pública.

Um dos diretores da biblioteca foi acionado em casa, no início da noite. Pouco antes das 23h, encontrou dois funcionários na entrada da instituição —não houve tempo de solicitar a iluminação das prateleiras, por isso, as lanternas. Os três voltaram para casa só depois da 1h30 e entregaram à Casa Branca fotos e descrições detalhadas do velório e das procissões de Lincoln.


Estelita Hass Carazzai, 31, é correspondente da Folha em Washington.

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