Choque, surpresa e pessimismo explicam o alcance das fake news

Pesquisas tentam entender o que leva alguém a crer em notícias falsas e teorias da conspiração

São Paulo

Como funcionam as fake news? Por que nem mesmo gente supostamente esclarecida fica imune à onda de notícias inventadas e compartilhadas nas redes sociais?

Em texto publicado em junho na Ilustríssima, especialistas em comportamento explicam quais são os mecanismos psicológicos envolvidos quando alguém acredita e/ou escolhe repassar uma mensagem de conteúdo duvidoso ou claramente falso.

A análise se referia originalmente a Donald Trump e à manipulação de informações durante a campanha eleitoral nos EUA e ao longo do governo do republicano. Pode, porém, ser aplicada ao Brasil e ao cenário das eleições 2018, em que se verifica larga influência do conteúdo disseminado através de redes sociais e aplicativos de mensagens. 

Conheça os principais itens que fazem parte dessa complicada engrenagem —que ganha lugar também como tema de ficção

 

- Fake news exploram nossos vieses

Mentiras, teorias da conspiração e notícias inventadas não são novidade na história humana. Mas hoje, com ajuda das redes sociais, elas se difundem em velocidade alarmante. E suas consequências são terríveis.

As fake news são muito perniciosas exatamente porque exploram nossos vieses. “As notícias falsas têm formato perfeito para difusão: causarão choque e surpresa, manipularão as emoções das pessoas —é a receita para difundir desinformação”, disse Miriam Metzger, pesquisadora sobre comunicações na Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Recentemente, a revista Science publicou estudo que valida essa sensação —pelo menos quanto à difusão de desinformação via Twitter. 

Mas talvez ainda mais importante seja o que o estudo revela sobre o fator responsável por alimentar o ímpeto das notícias falsas. Não se trata de contas influentes do Twitter ou de robôs russos. São usuários reais, com poucos seguidores, que têm a maior probabilidade de enviar notícias falsas a amigos. E isso talvez se deva a um motivo simples: histórias falsas costumam ser mais surpreendentes que as verdadeiras.

O frustrante é que algoritmos como o do YouTube para recomendação de vídeos, o do Facebook e o de notícias do Google News muitas vezes promovem reportagens falsas.

A cada vez que um leitor encontra uma dessas reportagens, ela lhe causa uma impressão sutil. A história se torna mais familiar a cada vez que é vista e isso gera a ilusão de que seja verdadeira. Os psicólogos definem essa situação como “efeito da verdade ilusória”. É a simples constatação de que quanto mais uma mentira for repetida, mais provável se torna que as pessoas acreditem nela. 

Quando você ouve alguma coisa pela segunda ou terceira vez, seu cérebro responde a ela mais rápido. “O cérebro interpreta essa fluência erroneamente como um sinal de que aquilo é verdade”, diz Lisa Fazio, psicóloga que estuda aprendizado e memória na Universidade Vanderbilt.
 

- As pessoas são capazes de compreender fatos inconvenientes (mas nem por isso elas vão se importar)

Quanto a isso, há boas notícias: é possível usar a verificação de fatos para estimular as pessoas a acreditar na verdade. Mas também a má notícia: as pessoas não tomam decisões com base em fatos.

Em estudo recente, o cientista político Brendan Nyhan e colegas constataram que eleitores de Trump estavam dispostos a admitir que ele deturpa os fatos. "Mas isso não tinha muito efeito sobre o que as pessoas sentem a respeito dele", disse Nyhan.

Na verdade, pesquisas mostram que as pessoas que sabem mais fatos sobre política tendem a ser mais teimosas e parciais. Não usamos nossa inteligência para chegar à verdade. Em vez disso, "as pessoas usam seu raciocínio para serem atores socialmente competentes", disse Dan Kahan, psicólogo da Universidade Yale.

Para expressar de outra maneira: sofremos muita pressão para satisfazer as expectativas de nossos grupos, e, quanto mais inteligentes somos, mais usamos nossa capacidade intelectual para esse fim.

Em seus estudos, Kahan costuma apresentar aos participantes diferentes tipos de problemas matemáticos. Quando a questão é apolítica —por exemplo, saber se um medicamento é efetivo—, as pessoas tendem a usar sua capacidade matemática para resolvê-la. Mas quando estão avaliando algo político —digamos, a efetividade de medidas de controle de armas—, o conhecimento matemático deixa de importar.

E isso não se aplica só a problemas matemáticos. Kahan constatou que os republicanos que têm nível mais alto de conhecimento científico são mais teimosos quando o assunto é a mudança do clima. O padrão é firme: quanto mais informação temos, mais a empregamos para servir aos nossos objetivos políticos.

Esse é outro ponto em relação ao qual o debate sobre as fake news é enganoso: as divergências entre as pessoas não desapareceriam subitamente se todo mundo dispusesse de informações verdadeiras sobre um determinado assunto.

- É extremamente difícil mudar a opinião política de uma pessoa argumentando com ela

A resposta à polarização e às divisões políticas não é simplesmente expor as pessoas a um ponto de vista diferente.

Recentemente, pesquisadores das universidades Duke, de Princeton e de Nova York pagaram a uma amostra substancial de usuários democratas e republicanos do Twitter para que lessem mais opiniões do outro lado. "Não encontramos nenhum indício de que o contato intergrupos na mídia social reduza a polarização política", escreveram os autores.

Ao contrário, os republicanos que participaram do experimento se tornaram mais conservadores ao longo do teste. Os progressistas se tornaram ligeiramente mais progressistas.

Uma teoria psicológica conhecida como "fundações morais" pode ajudar a explicar por que nossos argumentos costumam fracassar tão espetacularmente em convencer os outros a mudar de ideia.

A teoria das fundações morais é a ideia de que as pessoas têm uma visão moral estável, instintiva, que influencia sua visão de mundo. As fundações morais dos progressistas incluem igualdade, equanimidade e proteção para os vulneráveis. As fundações morais dos conservadores favorecem lealdade ao grupo, pureza moral e respeito à autoridade.

O fato é que com frequência não percebemos que as pessoas têm fundações morais diferentes das nossas. Quando nos envolvemos em debates políticos, tendemos a superestimar o poder dos argumentos que nos parecem convincentes e acreditamos, incorretamente, que eles convencerão o outro lado.

Em um estudo, os psicólogos Robb Willer e Matthew Feinberg solicitaram a cerca de 200 participantes, progressistas e conservadores, que escrevessem um texto com o objetivo de mudar a opinião de oponentes políticos sobre casamento homossexual ou sobre tornar o inglês o idioma oficial dos Estados Unidos.

Quase todos os participantes cometeram o mesmo erro. Apenas 9% dos progressistas usaram argumentos que refletiam os princípios morais dos conservadores; apenas 8% dos conservadores apresentaram argumentos que teriam alguma chance de mudar a opinião de um progressista. Não admira que seja tão difícil mudar a opinião de alguém.

Em resumo: ao argumentar com alguém, tratar a pessoa com empatia ajuda.

 

-  Raciocínio motivado: torcer para um lado altera sua percepção do mundo

A psicologia já foi definida como "a mais difícil das ciências" porque a mente humana é cheia de incoerências. Até mesmo os melhores pesquisadores podem se enrolar nelas.

Mais que isso: pode levar décadas para estabelecer uma teoria psicológica, mas novas provas são capazes de demoli-la em um mês. Mas, apesar das falhas, a psicologia continua sendo a melhor ferramenta científica que temos para compreender o comportamento humano.

O conceito psicológico fundamental —e um dos mais antigos— para compreender a política é a cognição motivada, ou raciocínio motivado. Isso significa, frequentemente, que torcer por um dado time altera nossa percepção da realidade.

Na década de 1950, psicólogos constataram que torcedores de dois times de futebol americano tinham opiniões bastante distintas sobre quem havia cometido falta em certas jogadas —ainda que estivessem assistindo às mesmas imagens. Os psicólogos concluíram que era como se cada grupo de torcedores acompanhasse uma partida diferente.

Nossos times são lentes por meio das quais interpretamos o mundo.

Algo crucial a saber sobre o raciocínio motivado é que você frequentemente não percebe que o está praticando. Somos mais rápidos em reconhecer informações que confirmam o que já sabemos, e isso nos cega diante de fatos que neguem tal conhecimento.

Talvez seja por isso que pertencer a um time torna um indivíduo mais suscetível a acreditar em notícias falsas e também a lembrar delas.

Em estudo de 2013, pessoas com inclinações progressistas tinham maior probabilidade de recordar (incorretamente) que o presidente George W. Bush estava de férias com uma celebridade durante o desastre do furacão Katrina, em 2005. Conservadores, por sua vez, tinham mais chances de dizer que se lembravam de ter visto Barack Obama apertando a mão do presidente do Irã (o que nunca aconteceu).

Estamos tão propensos a ver o mundo em termos de Nós x Eles que os psicólogos conseguem distinguir vieses a favor de um grupo mesmo quando participantes de um experimento são divididos arbitrariamente em times Vermelho x Azul.

O fato de que nossas preferências de grupo são formadas com tamanha rapidez também significa que é fácil mudá-las: começamos a ver as pessoas de maneira mais positiva caso as encaremos como compatriotas.

"Não estamos biologicamente programados para odiar ou para sermos hostis contra grupos externos", disse Mina Cikara, neurocientista que estuda vieses intergrupais na Universidade Harvard. "Todos esses processos são flexíveis."

- Teorias da conspiração são uma reação a um mundo sombrio e incerto

Talvez a consequência mais funesta dessa estranha era seja a facilidade com que circulam teorias da conspiração —muitas cruéis e destrutivas. A dor que infligem pode ser imensa. 

Até hoje, pais de crianças assassinadas na escola de Sandy Hook [em 2012] são acusados de inventar a história toda (o que inclui até a existência de seus filhos). Considere a agonia da família de Seth Rich, funcionário do Comitê Nacional Democrata morto em uma aparente tentativa de assalto em 2016.

A despeito de uma completa ausência de provas, os adeptos de teorias conspiratórias e alguns comentaristas republicanos influentes continuam a alimentar a suspeita de que o assassinato foi orquestrado pela direção da campanha de Hillary Clinton. 

 

“A morte de Seth foi transformada em peteca política”, escreveram os pais de Rich no Washington Post. “A cada dia encontramos novas manchetes, novas mentiras, novos erros factuais, novas pessoas que nos procuram para tentar tirar vantagem de nós”, afirmaram. (E pode ter certeza de que a esquerda também espalha teorias da conspiração.)

Indiscutivelmente, Trump —que por anos inflamou a teoria de que Barack Obama não nasceu nos EUA— coloca lenha na fogueira.

Asheley Landrum, psicóloga da Universidade Texas Tech que pesquisa sobre o raciocínio motivado, me disse em dezembro: “Trump, ao tentar combater e deslegitimar a mídia, criou um ambiente no qual teorias da conspiração são a norma”. Landrum explica que essas teorias são uma forma de raciocínio motivado.

Mas também há um modo mais simpático de encarar os adeptos de teorias conspiratórias: “É um mecanismo de autodefesa que as pessoas têm”, me disse Jan-Willem van Prooijen, psicólogo que estuda o tema. As teorias são um instrumento por meio do qual as pessoas sentem exercer mais controle e que as ajuda a encontrar explicações sobre um mundo assustador e turbulento.

As pessoas que se sentem impotentes e que são mais pessimistas têm maior probabilidade de acreditar em teorias da conspiração, de acordo com Van Prooijen. E é quanto a isso que esforços de educação e abordagens positivas podem ajudar. Há uma correlação entre um nível educacional mais alto e uma sensação maior de segurança, e isso por sua vez parece propiciar proteção contra uma mentalidade conspiratória.

A imagem de crianças abatidas a tiros em uma escola é horrível. Por que não buscaríamos refúgio em uma teoria que sustenta que as coisas não são assim tão ruins? 

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