Combater irracionalidade e fake news é dever do cientista, diz matemático

Autor de livro sobre Galileu, italiano Piergiorgio Odifreddi explica ciência moderna a leigos

REINALDO JOSÉ LOPES

[RESUMO] Espécie de versão italiana de Richard Dawkins, o matemático Piergiorgio Odifreddi explica fundamentos da ciência moderna a leigos enquanto distribui bordoadas em crenças religiosas.

 

É tentador descrever o matemático Piergiorgio Odifreddi, 68, como uma versão italiana de Richard Dawkins. Tal como o biólogo e militante ateu britânico, Odifreddi se especializou em explicar com elegância os fundamentos da ciência moderna ao público leigo, enquanto aproveita para distribuir bordoadas retóricas contra todo tipo de crença religiosa —a começar, é claro, pelo catolicismo que ainda predomina na Itália.

Diferentemente de Dawkins, porém, o ex-professor da Universidade de Turim teve um contato bem próximo com a fé que costuma criticar. Fez quatro anos de seminário antes de seguir a tradição matemática da família (seu pai e seus tios eram geômetras de formação) e, já estabelecido como polemista, travou um diálogo epistolar sobre ciência e religião com o papa Bento 16, publicado no formato de livro em 2013 (e ainda sem tradução para o português).

Diz que a experiência de dialogar com o hoje papa emérito, “um intelectual de alto nível”, foi muito interessante, mas não faz os mesmos elogios ao atual pontífice. “O papa Francisco dá a impressão de ser muito mais superficial, e essa impressão não é só do ponto de vista dos ateus, mas também dos crentes bem informados”, afirma o matemático.

Odifreddi esteve no Brasil a convite do Istituto Italiano di Cultura, em outubro. A ideia era celebrar a obra de divulgação científica de seu conterrâneo, o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642), que decidiu escrever em seu idioma materno, e não em latim (que ainda era a língua preferida pelos intelectuais de seu tempo), para atingir um público mais amplo.

Autor de “Hai Vinto, Galileo!” (você venceu, Galileu!), resumo da trajetória científica do sábio renascentista e de seu conflito com a Inquisição, o pesquisador afirma que, ironicamente, a hierarquia católica teria feito tempestade em copo d’água ao interrogar Galileu por defender que o Sol, e não a Terra, era o centro do Cosmos conhecido.

“Era só uma questão de ponto de referência”, explica. “As discussões da época eram inúteis e podiam ter sido evitadas se os filósofos e teólogos não estivessem interessados em coisas científicas que não entendiam.”

 

O sr. acompanhou a recente descoberta de um provável manuscrito de Galileu na Biblioteca da Royal Society inglesa? O texto pode modificar de modo significativo o que sabemos sobre a relação de Galileu com a Igreja Católica ou é mais uma curiosidade? Sim, falou-se muito dessa descoberta. Naturalmente, trata-se de um documento interessante para os historiadores, mas não muda muito a percepção que tínhamos de Galileu: nem quanto a suas ideias nem quanto a sua personalidade.

Para ser mais exato, já conhecíamos a “versão 2.0” dessa carta, da qual a nova descoberta pode ser considerada a versão 1.0. Nessa versão original, Galileu diz mais claramente as coisas que pensava a propósito da relação entre religião e ciência, enquanto na versão 2.0 ele demonstra ter estado disposto a fazer concessões nesse debate.

No fundo, ele tinha mais interesse em poder continuar com suas próprias pesquisas científicas do que em poder defender as suas ideias filosóficas.

Há especialistas que dizem que a defesa de Copérnico feita por Galileu foi um pouco prematura, porque os dados definitivos favoráveis ao sistema copernicano ainda não estavam disponíveis no século 17. Como vê esse argumento? Na realidade, os que não estavam aptos a avaliar o trabalho de Galileu não entendiam naquela época, e continuam a não entender agora, que os sistemas ptolomaico e copernicano não eram e não são incompatíveis entre si.

Apenas descrevem o mesmo sistema de dois pontos de observação diversos: a Terra, no caso do primeiro, e o Sol, no caso do segundo.

Se a ideia é descrever os movimentos dos planetas do ponto de vista da Terra, é preciso voltar ao sistema ptolomaico, mesmo se você é copernicano. Isso estava claríssimo para o próprio Copérnico, que, de fato, explica em seu “Commentariolus” [primeiro esboço do sistema heliocêntrico do pesquisador polonês] como derivou seu próprio sistema do de Ptolomeu, simplesmente mudando o ponto de referência. 

As discussões da época eram, portanto, inúteis, e podiam ter sido evitadas se os filósofos e teólogos não estivessem interessados em coisas científicas que não entendiam.

 
galileu
Retrato do astrônomo Galileu Galilei em pintura de 1636 - Getty Images

Outra ideia que parece intrigante é que parte dos problemas de Galileu com a Igreja Católica tenha tido relação com o interesse dele pelo atomismo, a teoria de que a matéria seria feita de átomos imutáveis, o que negaria o dogma da transubstanciação, ou seja, a transformação da hóstia e do vinho consagrados no corpo e no sangue de cristo. Essa seria uma hipótese promissora? É uma teoria interessante, que se baseia num documento descoberto já faz muitos anos por Pietro Redondi [historiador da ciência italiano] no Vaticano. Desse documento nasceu seu livro “Galileo Eretico” [“Galileu Herético”, de 1983].

A coisa é perfeitamente possível, e uma página do “Saggiatore” [livro de Galileu, publicado em 1623] diz claramente que a ciência moderna é incompatível com a noção aristotélica de substância separada das propriedades observáveis, enquanto o dogma da transubstanciação é fundado nessa noção: a hóstia consagrada mantém, de fato, todas as propriedades observáveis do pão, mas adquire a substância do corpo de Cristo. 

Seria interessante ouvir a esse respeito o parecer do papa Francisco, o qual, de um lado, formou-se em química [na verdade, ele é técnico em química] e, do outro, celebra todas as manhãs o rito da Eucaristia...

Como foi a experiência de dialogar sobre fé e ciência com o papa Bento 16? E quais são suas impressões sobre a relação do papa Francisco com a ciência e os cientistas? Dialogar com o papa Bento foi muito interessante, porque se tratava de um intelectual de alto nível, com um grande interesse pelo diálogo com os não crentes: não por acaso, foi ele que instituiu o Átrio dos Gentios [órgão do Vaticano que promove intercâmbio cultural e filosófico entre religiosos e não religiosos]. 

O papa Francisco dá a impressão de ser muito mais superficial, e essa impressão não é só do ponto de vista dos ateus, mas também dos crentes bem informados. E isso chegou a tal ponto que, meses atrás, o próprio Vaticano sentiu necessidade de publicar uma série de livretos sobre a “filosofia de Francisco”, para tentar tirar essa impressão até então difusa.

Infelizmente, o curador dessa coleção, monsenhor Viganò —não vamos confundi-lo com o bispo homônimo que pediu recentemente a aposentadoria do papa por causa dos escândalos de pedofilia—, pediu um prefácio ao próprio papa Bento, que se recusou a fazê-lo [alegando que não teria tempo de ler a coleção antes de escrever seus comentários]. Quando a carta veio a público, nasceu disso um escândalo que levou à demissão de Viganò.

Que balanço o sr. faria de seu papel como cientista que participa do debate público e político? Quais são os perigos e as vantagens de seguir esse caminho? Precisamos de mais cientistas nesse papel? Participar do debate público e político é um dever social de cada um de nós. Os cientistas, porém, podem trazer a esse debate não apenas as próprias opiniões, mas também o próprio método da ciência, que é racional e factual: hoje, quando na Itália (e, parece-me, também no Brasil) a razão e os fatos não gozam de grande popularidade, é ainda mais importante dar testemunho em favor de ambos. 

Naturalmente, aqueles que preferem a irracionalidade e as “fake news”, ou ao menos os que se opõem aos fatos de acordo com o que desejam, não enxergam com bons olhos esse dever, mas isso só faz com que aumente a necessidade dele.

Descobertas científicas são capazes de dar significado à existência humana? Seguramente o significado da existência humana, admitindo-se que exista um, só pode derivar do conhecimento do que sejam a existência, de um lado, e o homem, de outro. 

Naturalmente, esse conhecimento só pode vir das descobertas científicas: por exemplo, no dia em que [James] Watson e [Francis] Crick descobriram a estrutura de dupla hélice do DNA [nos anos 1950], declararam aos próprios colegas que tinham descoberto “o segredo da vida”.

O humanismo sempre enfrentou os temas centrais da existência humana, do nascimento à morte, mas sempre o fez com base em impressões subjetivas, com frequências equivocadas e desinformadas. Só a ciência nos fornece dados reais e verificáveis sobre os quais podemos basear uma filosofia de vida realista, em vez de nos limitarmos a escrever “romances filosóficos” sobre o tema.


Reinaldo José Lopes é jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral” e colunista da Folha.

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