Descrição de chapéu Memorabilia

Lévi-Strauss escreveu o livro que mais me abriu portas, diz Fernanda Torres

Para atriz e escritora, antropólogo é responsável por sua compreensão da história e do mundo

Fernanda Torres

Quando produzi a série “Minha Estupidez”, que foi ao ar no canal GNT em 2017, entendi o peso e a obsessão da profissão de jornalista.

Toda entrevista requer um conhecimento prévio do campo de interesse do entrevistado. Sem embasamento, a conversa periga se arrastar em superficialidades, perdida, como um barco à deriva, na ignorância do entrevistador.

Para minha alegria e espanto, Manuela Carneiro da Cunha —antropóloga formada em matemática pura pela Faculdade de Paris e aluna de Claude Lévi-Strauss, professora da USP e cofundadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo— aceitou o convite para participar de um episódio.

Temerosa de que a participação de Cunha num programa de entretenimento lhe causasse embaraços no meio acadêmico, fiz o dever de casa com afinco. O ponto de partida do meu breve, porém intenso mergulho na antropologia começou por “Tristes Trópicos”, de Lévi-Strauss, que há tempos me olhava da estante.

fernanda e evandro
Fernanda Torres e o ator Evandro Mesquita em gravação da série 'Minha Estupidez' (GNT) - Arquivo pessoal

A assombrosa qualidade da escrita foi o primeiro choque que experimentei com a obra. O que supus tratar-se de um estudo formal sobre os povos pré-colombianos do nosso território revelou-se um romance metafísico de aventura.

Eu já havia sentido surpresa semelhante, porém contrária, com “Os Sertões”, de Euclydes da Cunha. Certa de que leria um romance histórico, abismei-me com o minucioso tratado científico sobre o sertão e o sertanejo, nas duas partes iniciais do cânone: “A Terra” e “O Homem”.

Em “Tristes Trópicos”, a descrição dos mil tons de vermelho de um pôr-do-sol, durante a travessia do Atlântico, não deixa dúvida sobre a intenção literária do autor.

Em uma entrevista para a televisão francesa, Lévi-Strauss admitiu ter concebido o título na época em que alimentava o desejo de se arriscar na ficção. “Tristes Trópicos” acabou nomeando o relato das duas viagens que fez ao Brasil, impregnado do talento inequívoco do autor para a literatura.

Como em todo grande romance, a transformação do herói é o eixo principal da trama. Strauss começa como um branco europeu que, interessado em fazer contato com o que restava das populações indígenas brasileiras, aceita o desafio de civilizar os filhos da elite feudal cafeeira, lecionando na recém-instituída Universidade de São Paulo. 

As observações que faz da cidade, de sua arquitetura que já nasce ruína; além do apego crítico aos estudantes paulistas que, cientes de que jamais terão acesso à herança acadêmica europeia, se interessam sempre pelo que há de mais moderno em toda e qualquer teoria, ainda servem de espelho para o que somos. Mas o coração do livro é o caminho que o leva do cerrado até a Amazônia. 

Da impaciência com o tempo relativo da empreitada, em que um quilômetro pode demorar dias para ser vencido, à descoberta de que a organização circular da taba ordena não só o cotidiano das tribos como também sua cosmogonia, a viagem serve para operar uma revolução íntima no viajante, da qual o leitor é testemunha.

Finda a epopeia, e ciente da complexidade da mitologia arcaica, das regras de parentesco e da ordem social da cultura indígena, o antropólogo termina o périplo como um branco horrorizado com a voracidade genocida da civilização à qual pertence.

“Para nós, europeus e apegados à terra, a aventura ao coração do Novo Mundo significa antes de mais nada que ele não foi o nosso, e que carregamos o crime de sua destruição.”

Meço a importância de um livro pela quantidade de portas que ele é capaz de me abrir. Nesse sentido, “Triste​s Trópicos” pode ser considerado o Exu Sete Porteiras da minha humilde formação.

Devo a ele tudo o que li de Lévi-Strauss, de “As Estruturas Elementares do Parentesco” a “Mitológicas”; devo a ele a perspectiva ameríndia, de Eduardo Viveiros de Castro, e “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa. Devo a ele o fascínio por Mircea Eliade; a descoberta da pré-história brasileira; além de uma nova leitura de Freud e do tabu do incesto.

Devo a esse livro a revisão, na memória, da convivência com os yawalapitise e os camaiurás, no Parque Nacional do Xingu, e com os kraôs, no Tocantins. Devo a Lévi-Strauss o significado de indo-europeu e dos mitos celestes celebrados desde as Américas até a Grécia.

Devo a essa obra imensa a minha atual compreensão da história, do Brasil, do Ocidente, do Oriente e do mundo.


Fernada Torres é atriz, escritora e colunista da Folha, é autora de "A Glória e Seu Cortejo de Horrores" e "Fim".

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