Novela de 1981 narra incursão de autor russo no jornalismo

'O Compromisso', de Serguei Dovlátov, sai em abril pela editora Kalinka

Serguei Dovlátov

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página é parte da novela “O Compromisso”, publicada em 1981 por Serguei Dovlátov. O livro, que a editora Kalinka lança em abril no Brasil, é composto de 12 capítulos que narram a incursão do autor no jornalismo em Tállin, na Estônia, onde ele morou de 1972 a 1975.

Ilustração
Ilustração - Manuela Eicnher

...E eu fiquei sem trabalho. Ponderei: talvez dê para aprender o ofício de alfaiate? Reparei que os alfaiates estão sempre de bom humor...

Topei com Lóguinov, o da televisão.

— Olá. Como tem passado?

— Pois é, estou à procura de trabalho.

— Tem uma vaga. O jornal Em Defesa da Pátria.1 Tome nota do sobrenome: Kachírin.

— O careca?

— Kachírin é um jornalista calejado. Um homem de temperamento macio...

— A bosta também é macia — disse eu.

— Então você o conhece?

— Não.

— Mas se está dizendo... Tome nota.

Eu anotei.

— Deveria se vestir decentemente. A minha mulher diz que se você se vestisse decentemente...

A propósito, a mulher dele me telefonou uma vez... Stop! Aqui se abre um tópico amplo e perturbador. Que nos levaria para longe...

— Quando eu ganhar decentemente, irei me vestir assim. Comprarei uma cartola...

Eu juntei meus recortes de jornal. Selecionei os melhores artigos. Não gostei de Kachírin. Rosto inexpressivo, humor do exército. Ele me deu uma olhada e disse:

— O senhor, evidentemente, é apartidário?

Consenti com a cabeça, o ar culpado. Com uma espécie de ingenuidade idiota, ele acrescentou:

— Umas vinte pessoas tinham pretensões à vaga. Conversaram um bocado comigo... e não apareceram mais. O senhor, queira ao menos deixar o telefone.

Soletrei o número da tinturaria que por acaso me veio à memória.

Em casa desdobrei meus recortes de jornal. Reli uma coisa ou outra. Perdi-me em pensamentos...

Folhas amareladas. Dez anos de mentiras e de fingimento. Mesmo assim, certas pessoas estão lá, os papos, os sentimentos, a realidade... Não propriamente nas folhas, mas ali, no horizonte...

Da realidade ao real o caminho é árduo

Não se pode pisar duas vezes no mesmo rio. Mas se pode, através da água, divisar o fundo coberto por vidros de conservas. E, por trás dos cenários pomposos do teatro, ver a parede de tijolos, as cordas, o extintor de incêndio e os operários embriagados. Quem ao menos uma vez na vida esteve numa coxia sabe disso...

Comecemos com uma mísera nota de jornal.

Primeiro compromisso

(Estônia Soviética.2 Novembro de 1973.)

“CONFERÊNCIA CIENTÍFICA. Acadêmicos de oito estados chegaram a Tállin para a 7ª Conferência de Estudos da Escandinávia e da Finlândia. São especialistas da URSS, Polônia, Hungria, RDA, Finlândia, Suécia, Dinamarca e RFA. A conferência foi dividida em seis seções. Mais de 130 cientistas — historiadores, arqueólogos e linguistas — apresentam relatórios e comunicações. O evento dura até dia 16 de novembro.”

A conferência realizou-se no Instituto Politécnico. Passei por lá, bati um papo. Em cinco minutos, a nota estava pronta. Deixei-a na secretaria. Apareceu o editor, Turónok, um adulador meloso como marzipã. Um canalha do tipo comedido. Dessa vez, estava excitado:

— O senhor cometeu um erro ideológico grosseiro.

— ?

— O senhor listou os países...

— Por acaso não pode?

— Pode e deve. O problema é como o senhor os listou. Em que ordem. Primeiro aparecem a Hungria, RDA e Dinamarca e depois a Polônia, URSS e RFA...

— Claro, por ordem alfabética.3

— A abordagem aqui vai além das classes — pôs-se a gemer Turónok —, existe uma ordem de ferro. Os países democráticos — na frente! Depois, os estados neutros. E, finalmente, os participantes do bloco...

Okay — disse eu.

Reescrevi a nota, deixei-a na secretaria. Na manhã seguinte, Turónok se aproximou às pressas:

— O senhor está caçoando de mim! Faz de propósito?!

— Qual é o problema?

— O senhor confundiu os países de democracia popular. Colocou a RDA depois da Hungria. De novo por ordem alfabética?! Esqueça essa palavra oportunista! O senhor é funcionário de um jornal do partido. A Hungria em terceiro lugar! Lá houve um golpe.

— E na Alemanha houve uma guerra.

— Não discuta! A troco de que está discutindo?! Essa é outra Alemanha, outra! Não compreendo, quem pode ter confiado no senhor? Miopia política! Infantilismo moral! Vamos apurar essa questão...

Pela nota me deram dois rublos. E eu que pensei que dariam três...

1 Em Defesa da Pátria (Na straje ródiny), jornal voltado para questões militares e nacionalistas fundado em São Petersburgo em 1918.

2 Estônia Soviética (Soviétskaia Estónia), diário publicado em russo entre 1940 e 1996.

3 Foi mantida a ordem do alfabeto russo. 


Serguei Dovlátov, escritor e jornalista russo (1941-1990), é autor de “A Mala”, “Parque Cultural” e “O Ofício”.

Tradução de Daniela Mountian,  pós-doutoranda em teoria literária e literatura comparada na USP, e Yulia Mikaelyan, doutora em literatura russa pela USP e professora da Universidade MGIMO, de Moscou.

Ilustração de Manuela Eichner, artista visual.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.