Descrição de chapéu Memorabilia

O impacto de uma dança de cães numa obra de Kafka, por Paulo Henriques Britto

Poeta narra a estranheza causada pela leitura da novela 'Investigações de um Cão'

Paulo Henriques Britto

Comecei a ler Kafka aos 17, 18 anos. Não lembro qual o primeiro texto dele que li —terá sido uma das narrativas breves reunidas numa das primeiras coletâneas que saíram no Brasil, em tradução de Torrieri Guimarães. 

A impressão inicial foi de estranheza absoluta, mas ao mesmo tempo senti que o autor parecia falar diretamente a mim, mais do que qualquer outro que eu já tivesse lido. 

Foi numa outra coletânea, dessa vez uma tradução inglesa editada pela Penguin Books, que encontrei a novela “Investigações de um Cão”. Poucas coisas que li antes e depois desse texto tiveram um impacto tão forte sobre mim.

Trata-se do monólogo de um cão velho, rememorando momentos cruciais da sua vida. Uma cena em particular o marcou (e me impactou como leitor): seu primeiro encontro com os cães músicos. 

Na verdade, os cães em questão não produziam música, pelo menos não até onde o narrador pudesse perceber; a música vinha de alguma fonte invisível, e o que eles faziam era uma espécie de dança, em pé sobre as duas patas traseiras, a posição que —conforme havia ensinado ao narrador— era a mais indigna de um cão, a mais obscena de todas. O jovem protagonista reage com uma confusão total de sentimentos: entende que aquilo é belo, muito embora envolva uma obscenidade —ou talvez justamente por isso.

Tento pôr em palavras o que imagino, muitos anos depois —num esforço de memória não muito diferente do que faz o narrador da novela—, ter sido minha reação intelectual e emocional à leitura.

Num primeiro momento, o que mais me surpreendeu foi a revelação de que o compromisso com a arte obriga o artista a incorrer em transgressões sérias, a violar tabus da tribo, talvez violentar a si próprio. Como há já algum tempo eu queria me tornar escritor, essa ideia me pareceu profundamente desconcertante, muito embora julgasse perceber nela a marca inconfundível da verdade —ou, mais uma vez, talvez justamente por isso. 

Mas ao terminar a leitura me veio um segundo sentimento: o da total futilidade do meu projeto de me tornar escritor. Como era possível ter a pretensão de produzir alguma coisa que pudesse ser comparada àquela maravilha? (Na época, eu ainda não levava a sério o propósito de escrever poesia, embora já tentasse escrever poemas; meu projeto verdadeiro, na medida em que eu tinha tal coisa, era escrever ficção.) 

Aquele texto parecia ter o claro intento de dizer a mim, tal como faz o policial num dos minicontos mais impressionantes de Kafka: “Desista!”. A literatura, estava claro, era uma briga de cachorro grande —para permanecer no mesmo campo metafórico— e as minhas primeiras tentativas de escrever prosa de ficção eram lamentáveis, como até mesmo aos 17 anos eu já percebia.

Pouco depois, lendo os “Diários” de Kafka, encontrei uma passagem que veio reforçar a sensação de futilidade: “Odeio tudo que não tem a ver com a literatura, as conversas me entediam (mesmo quando são sobre literatura), visitar pessoas me entedia, os sofrimentos e alegrias dos meus parentes me entediam até a alma”. 

Assim que li essas palavras, perguntei-me: eu seria capaz de afirmar a mesma coisa sem mentir? E concluí, com tristeza, que não. Eu amava muitas coisas que não eram literatura, a começar pela música, para não falar em algumas pessoas próximas. 

Na mesma hora, lembrei-me dos cães músicos. Para eles, a arte estava acima de qualquer inconveniência, de qualquer indignidade. Era só desse modo que era possível se tornar um artista de verdade; e com base nesse critério, eu jamais poderia me tornar um deles. 

A leitura de “Investigações de um Cão” me abalou de tal modo que, embora eu relesse constantemente a obra de Kafka, como faço até hoje, foi só uns 30 anos depois dessa primeira leitura que retomei a novela. 

Nesse ínterim, eu já tinha lido um número enorme de biografias e artigos sobre Kafka; e foi só ao reler a narrativa que percebi o que deveria ter ficado óbvio na primeira leitura: a estranheza do texto decorre do fato de que, no mundo descrito pelo cão narrador, os seres humanos —como, por exemplo, os músicos que produzem os sons que fazem os cães dançarem— são invisíveis, embora os cães dependam deles para tudo, inclusive para se alimentarem.

Percebi então que a minha incompreensão ao ler o texto pela primeira vez era semelhante à do narrador quando jovem; e esse texto, de importância fundamental na minha formação (e não só como escritor), ganhou para mim ainda mais um nível de significação. 


Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor, é autor de “Formas do Nada” (2012) e “Nenhum Mistério” (2018).

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