O espectro do espiritismo revelado em romance de Dostoiévski

Pesquisador propõe diálogo entre o escritor russo e Allan Kardec

Flávio Ricardo Vassoler

[RESUMO] Pesquisador propõe um diálogo entre o escritor russo e Allan Kardec, cuja morte completa hoje 150 anos, a partir das indagações de personagens do romance "Os Irmãos Karamázov" acerca do mal, do perdão e da existência, ou não, de Deus.

Este ensaio introduz um diálogo entre o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e o educador francês Hippolyte Rivail (1804-1869), mais conhecido como Allan Kardec, o codificador do espiritismo.

A (in)existência de Deus e a morte como finitude ou como travessia rumo ao infinito transpassam a obra de Dostoiévski. Suas personagens são acossadas pelo luto de uma época que enviou Deus ao exílio, a reboque da revolução técnico-científica do capitalismo então nascente e das descobertas do cientista britânico Charles Darwin (1809-1882). 

Afinado com os rumos da modernidade, Dostoiévski faz de sua obra uma arena em que fiéis e ateus se digladiam sem solução —quem buscar uma resposta definitiva para a questão (“Deus existe?”) que leva Ivan Karamázov, personagem de “Os Irmãos Karamázov”, à loucura descobrirá que, no labirinto dostoievskiano, saída e entrada se confundem.

Não nos surpreende, então, que, em três edições do “Diário de um Escritor”, conjunto de textos literários, políticos e filosóficos, Dostoiévski tenha escrito sobre o espiritismo. No artigo “‘O Sonho de um Homem Ridículo’: A Atualidade como um Dispositivo Literário” (1993), o eslavista austríaco Rudolf Neuhäuser nos revela que “Dostoiévski foi crescentemente atraído pelo espiritismo a partir dos anos 1860”. “Ele ficou bem impressionado com as experiências mediúnicas, mas se opôs inflexivelmente ao espiritismo por razões religiosas, chegando a compará-lo ao niilismo. (...) A ideia de que os mortos reaparecessem na terra como espíritos lhe parecia uma ‘blasfêmia’, uma ‘hipótese repugnante’.”

A reação de Dostoiévski ao espiritismo apresenta uma mescla contraditória de atração e repulsa própria ao homem do subsolo, (anti-)herói de seu livro “Memórias do Subsolo”: a despeito de sofrer do fígado, a personagem sentencia que “não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos”. “Apesar de tudo”, acrescenta, “não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais”.

Não à toa, Neuhäuser nos revela que, após acompanhar uma sessão espírita em fevereiro de 1876, Dostoiévski foi tomado por uma “poderosa impressão; o escritor explicou que a ‘fé’ dos espíritas fora a fonte de sua primeira oposição. Ele se forçou, racionalmente, para rejeitar o espiritismo: “Eu me recuso a acreditar, e nenhuma prova me afetará novamente”. Ao fim, ponderou que “os ensinamentos espíritas” não passavam de “superstição”.

Apesar dos paradoxos que aproximam Dostoiévski do espiritismo na mesma medida em que o escritor repele a doutrina de Kardec, veremos, a seguir, como as reflexões do autor sobre o mal e o perdão, Deus e o além-mundo se imbricam à logicidade espírita. Ao analisarmos o capítulo “A Revolta”, do romance “Os Irmãos Karamázov”, descobriremos que um espectro ronda Dostoiévski, o espectro do espiritismo.

“A revolta” nos traz um dos últimos diálogos escatológicos da obra de Dostoiévski: o encontro entre os irmãos Ivan, o ateu, e Aliócha Karamázov, o monge ortodoxo. Mas seria Ivan um ateu avesso a qualquer fresta de transcendência?

Eis o que ele sentencia: “Admito Deus e creio no sentido da vida e na harmonia eterna. (...) Não é Deus que repilo, mas a criação”. Para Ivan, as tensões ao redor de Deus não se referem à gênese do universo, mas aos desdobramentos da criação. “Tenho essencialmente o espírito de Euclides: terrestre. De que serve resolver o que não é deste mundo?”

O raciocínio é ardiloso. A personagem desloca seu embate teológico da transcendência para a imanência que se desespera com o exílio de Deus. Ivan quer perscrutar este mundo para saber se a teologia, em face da modernidade, ainda pode ser ética.

Assim, prossegue: “Se todos devem sofrer, a fim de concorrer com seu sofrimento para a harmonia eterna, qual o papel das crianças? Não se compreende por que elas deveriam sofrer em nome da harmonia. (...) E, se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale tal preço. Não quero que a mãe perdoe ao carrasco, não tem esse direito. Que lhe perdoe seu sofrimento de mãe, mas não o que sofreu seu filho [morto]. (...) Se o direito de perdoar não existe, que vem a tornar-se a harmonia?”.

Ivan não admite a criação divina, o mundo, segundo as bases teológicas que lhe são legadas. É, então, um ateu convicto e não poderia estar mais distante de Aliócha, já que o monge sintetiza a teologia fundada sobre o mistério, a teologia que prega o amor recíproco sem bases efetivamente racionais de apreensão do universo e suas leis de desenvolvimento. Ivan se aparta da herança cristã —refiro-me a vertentes da ortodoxia, do catolicismo e do protestantismo— que tende a pregar a cisão entre a fé e a razão.

A lógica da argumentação de Ivan se embebe do sentido da modernidade. Por que a relação com Deus deveria embotar a razão se a época requer cidadãos que tenham uma relação cada vez mais intelectiva com a realidade? Se a fé não pode dialogar com a razão, Ivan torna-se um militante ateu, quiçá à espera de um prisma religioso que expanda as fronteiras da teologia para além do mistério e silêncio de Deus. Se for possível aceitar a criação divina, o ateu Ivan, que já dissera admitir Deus, converte-se em um ateu espiritual.

Cartum sobre Kardec
Cartum - Bruno Maron

Continuemos, então, a desdobrar o raciocínio sinuoso de Ivan: a mãe só poderia perdoar ao carrasco a partir de seu próprio sofrimento materno, e não com base no sofrimento do filho. Como o filho foi morto, ele já não pode perdoar. Ora, por que Aliócha não interpela Ivan sobre a vida após a morte? Pois, se houver a imortalidade da alma, o filho poderá perdoar o algoz. Se levarmos tal argumento às últimas consequências, o perdão do filho permitirá ao algoz perdoar a si mesmo. Por que o monge se cala diante do ateu?

Dostoiévski é consequente na crítica aos limites tanto do cristianismo quanto do ateísmo. Aliócha não se pronuncia porque sua teologia, em essência, não se distingue do ateísmo de Ivan. Numerosas vertentes da tradição católica, protestante e ortodoxa tendem a não perscrutar o além-mundo. O que haveria após a morte? Silêncio, mistério.

A imortalidade da alma transforma-se em uma frágil projeção para dirimir as contradições de haver o mal e o sofrimento no mundo. Tais vertentes teológicas, então, tendem a erigir as noções de inferno e de punição eterna e taliônica —olho por olho, dente por dente.

Ivan, no entanto, já não pode aceitar um Deus fundado sobre a dor universal. Como Aliócha se cala, entrevemos a engenhosidade de Dostoiévski em fazer com que a teologia do mistério seja emparedada em suas contradições mais limítrofes. Agora, as cosmovisões de Aliócha e Ivan tornam-se contíguas.

Se o filho puder perdoar o carrasco, o direito ao perdão volta a existir. Mas, se houver apenas uma vida para que o perdão seja concedido, não será possível acompanhar as transformações que se projetam sobre as relações humanas. Sem a pluralidade de vidas, seria possível dizer que, ao longo da história, o perdão nunca existiu. Mas e se a filha do condenado à morte se tornasse a mãe do carrasco em uma nova vida? E se o condenado, com a cabeça restituída ao corpo, escolhesse retornar à vida como o irmão do carrasco? Com essas possibilidades, o papel do perdão seria levado às últimas consequências.

Coloquemos, então, Ivan Karamázov, o ateu espiritual, em diálogo com “O Livro dos Espíritos” (1857) e “O Evangelho segundo o Espiritismo” (1864), de Allan Kardec, para que, ao fim, a história dos jovens iranianos Abdolah Hosseinzadeh e Balal mostre para Ivan a possibilidade do perdão a partir do além-mundo.

A tradição reencarnacionista fala sobre a eternidade da alma e as várias vidas como a via crúcis para a cicatrização dos espíritos. No espiritismo, o princípio evolutivo é a centelha que faísca nas pessoas —a consciência, o sentido divino em potência— a lançar mão das (re)encarnações como mediações para a expiação e o perdão.

Para o espiritismo, não há inferno que seja eterno —característica coerente com a percepção de um Deus sumamente bom. Se não há faltas irremissíveis, o espírito pode se curar e ajudar a curar seus semelhantes. A reencarnação é imposta a alguns como expiação.

É sintomático que o espiritismo oitocentista seja uma ramificação do Iluminismo. Como afirma Kardec, “só é inabalável a fé que pode encarar a razão em todas as etapas da humanidade”. Por meio de sua doutrina, quer fazer com que a religião acompanhe a razão.

Subjaz à lei das sucessivas encarnações um sentido de justiça que, em muitos casos, se aproxima da lei de talião —olho por olho, dente por dente. A depender da falta que o espírito traz desta ou de outras vidas, a expiação é mais ou menos penosa.

Nesse sentido, Kardec afirma que “a pena de talião é a justiça de Deus”. “Todos vós suportais, a cada instante, essa pena, porque sois punidos pelo que pecastes, nesta vida ou em uma outra. Aquele que fez sofrer seus semelhantes estará numa posição em que sofrerá, ele mesmo, o sofrimento que causou. Mas [Jesus Cristo] vos disse ‘Perdoai aos vossos inimigos’ e vos ensinou a pedir a Deus que perdoe as vossas ofensas, como vós mesmos tiverdes perdoado, isto é, na mesma proporção com que tiverdes perdoado.”

Para responder a Ivan Karamázov sobre a possibilidade do perdão, Allan Kardec poderia lançar mão de um texto do jornalista iraniano-britânico Saeed Kamali Dehghan, publicado pelo jornal inglês The Guardian em abril de 2014: “Execução de assassino iraniano é interrompida no último minuto pelos pais da vítima”. Da Rússia ao Irã, a história parece ter sido extraída da obra de Dostoiévski.

Balal, de 20 e poucos anos, está com os olhos vendados e uma corda ao redor do pescoço. Logo atrás do condenado, estão os pais de Abdollah Hosseinzadeh, rapaz de 18 anos que, sete anos antes, fora morto a facadas por Balal. Para que a sentença capital seja consumada, os pais de Abdolah devem chutar a cadeira sobre a qual Balal tenta ficar em pé.

Assim falou o Evangelho, segundo talião: “Todo aquele que ferir mortalmente um homem será morto. (...) Se um homem ferir o seu próximo, assim como fez, assim se lhe fará; fratura por fratura, olho por olho e dente por dente” (Levítico, 24: 17-22).

Segundo a mais famosa das máximas atribuídas a Ivan, “se Deus não existe, tudo é permitido”. Ora, se tudo é permitido, Deus, a eternidade e o perdão podem retornar do exílio.

Narremos, então, o arremate da história ocorrida no cadafalso iraniano que bem poderia ter sido escrita por Dostoiévski. Três dias antes da execução de Balal, a mãe de Abdollah Hosseinzadeh teve um sonho com o filho, que lhe fez o seguinte pedido: “Mãe, eu estou bem. Não mate o Balal, nós não devemos retaliar”.

No momento em que se viram diante da decisão de chutar ou não a cadeira para que Balal fosse enforcado, a mãe, aos soluços, só fez gritar: “Eu te perdoo!”. Após lhe dar um tapa, a mãe de Abdollah Hosseinzadeh abraçou o assassino de seu filho, e o pai do jovem esfaqueado retirou a corda de seu pescoço. A mãe de Balal correu ao cadafalso e abraçou os pais de Abdollah de forma tão efusiva que chegou a converter os espectadores que, momentos antes, clamavam pela justiça taliônica.

O perdão concedido pela mãe de Abdollah torna-se ainda mais extraordinário quando descobrimos que seu filho caçula, Amirhossein, de apenas 11 anos, morrera anos antes em um acidente de moto.

Kardec diria a Ivan que a mãe de Abdollah ofereceu a outra face ao assassino de seu filho para que Ivan Balal Karamázov, após retornar do mundo dos mortos, um dia consiga perdoar a si mesmo.


Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University (EUA); as discussões deste texto foram desenvolvidas com minúcia em “Dostoiévski e a Dialética: Fetichismo da Forma, Utopia como Conteúdo” (ed. Hedra).

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