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Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto

Pai do aerotrem, Levy Fidelix foi uma das vias entre tradição fascista e Bolsonaro

Morto aos 69, político fundou o PRTB, partido que abrigou grupos integralistas e o vice-presidente

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Leandro Pereira Gonçalves

Professor de história da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor, com Odilon Caldeira Neto, do livro "O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo", publicado em 2020 pela FGV Editora

Odilon Caldeira Neto

Professor de história da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor, com Leandro Pereira Gonçalves, do livro "O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo", publicado em 2020 pela FGV Editora

[resumo] Professores analisam como Levy Fidelix, o folclórico político morto em abril, se insere na trajetória da extrema direita no Brasil e na retomada e naturalização de lemas integralistas pelo autoritarismo bolsonarista.

Levy Fidelix, que morreu em 23 de abril, aos 69 anos, participou de alguns capítulos da história da extrema direita brasileira. Apesar da trajetória marcada pelo fisiologismo, nos últimos anos o PRTB (partido do vice-presidente, o general Hamilton Mourão), presidido por Fidelix, se aproximou das tendências mais radicais da direita, inclusive de pequenos agrupamentos de orientação fascista.

Fidelix, em sua última campanha eleitoral, fez uso do lema “Deus, pátria e família”, popularizado pela Ação Integralista Brasileira (AIB). Afirmava que tinha posições similares às de Plínio Salgado, jornalista e político que liderou os integralistas que buscaram a fascistização do Brasil nos anos 1930. Foi mais um exemplo da recorrência de ideias e lemas de origem fascistas que encontram ressonância em momentos de radicalização política brasileira.

No dia 14 de julho de 1930, Plínio Salgado esteve em Roma com Benito Mussolini. Embora breve, o encontro o incentivou a articular o início de um movimento fascista no Brasil. Em 7 de outubro de 1932 foi fundada a AIB, primeira organização política de massa em nosso país.

A AIB alcançou grande visibilidade, sendo o movimento fascista de maior sucesso na América Latina. Incorporou as principais características do fascismo do entreguerras e se tornou referência para gerações futuras da extrema direita brasileira. Buscava a mobilização da sociedade e propunha o combate ao comunismo e ao capitalismo internacional, assim como ao judaísmo e à maçonaria.

O integralismo seduziu milhares de militantes, inclusive na intelectualidade da época, do “imortal” Gustavo Barroso a Miguel Reale, passando por Câmara Cascudo, Vinicius de Moraes, João Cândido e mesmo Hélio Grace. A questão religiosa era uma das principais bases do movimento, fundamentado no lema “Deus, pátria e família”, constando, inclusive, no Manifesto de Outubro, seu documento de fundação.

Seguindo as estruturas dos movimentos fascistas, a AIB criou a milícia integralista, liderada por Gustavo Barroso e Olympio Mourão Filho, capitão do exército brasileiro que teve um destaque central em dois golpes políticos, em 1937 e em 1964, quando ocupava a patente de general.

Embora não tenha conquistado o poder, a AIB popularizou as referências de uma cultura política fascista no Brasil. O golpe do Estado Novo, inicialmente apoiado pelos integralistas, contou com a contribuição desse imaginário político. O Plano Cohen, cuja autoria é atribuída a Mourão Filho, reproduzia a estrutura de pensamento fascista e anticomunista da AIB. O embuste conspiratório evocava o “perigo vermelho” que ameaçava as instituições brasileiras. O objetivo era buscar uma unidade entre os anticomunistas por meio de um forte discurso conspiracionista.

No entanto, o Estado Novo não poupou os integralistas, que iniciaram uma nova fase da extrema direita na política nacional. Em 1938, deram início a uma fase de conspirações, seguida de ações fracassadas (em 11 de março e em 11 de maio), do ataque ao Palácio Guanabara e da tentativa de destituição de Getúlio Vargas. Estes foram os últimos momentos da AIB e da liberdade de muitos camisas-verdes, inclusive de seu líder.

Exilado em Portugal, Plínio Salgado redesenhou o integralismo, retirando alguns enunciados da “era do fascismo”. Após dialogar com componentes do salazarismo, sustentando um forte discurso religioso, regressou ao Brasil em 1946 e trouxe propostas para a rearticulação política em uma época pós-fascista.

O Partido de Representação Popular (PRP), apesar de não ter alcançado grande destaque, forneceu o espaço institucional para os integralistas alimentarem o discurso anticomunista na esfera política nacional, o que promoveu alianças e acordos com os tradicionais partidos, passando pela UDN do brigadeiro Eduardo Gomes e pelo PTB de Leonel Brizola.

A questão fascista, porém, foi um problema para os integralistas do PRP, que retomaram a simbologia da AIB apenas a partir dos anos 1950, momentos após a fracassada eleição presidencial de Plínio Salgado em 1955 (mas que não impediu a participação no governo de Juscelino Kubitschek). Foi com essa roupagem, de retorno às origens, que os integralistas participaram com entusiasmo do contexto de radicalização política que antecedeu o golpe de 1964.

Durante a ditadura, os integralistas estiveram liderados por Plínio Salgado, que buscou, sem sucesso, “fascistizar” o regime. O fascismo já não era a grande novidade da extrema direita, apesar de algumas semelhanças com o autoritarismo militar, especialmente o anticomunismo.

Plínio Salgado garantiu espaço político ao atuar em comissões de educação e cultura como deputado federal eleito pela Arena, o partido oficial da ditadura, mas fracassou nas suas ambições mais amplas, relegando o integralismo a suas memórias e a antigos militantes.

Com a morte de Plínio Salgado em 1975, o neointegralismo se configura como um espaço de disputa por liderança, mas também como um movimento mais diversificado e em diálogo com outras tendências da extrema direita brasileira e internacional. Foi a partir dessas características que os integralistas lidaram com o declínio da ditadura e o início da transição democrática.

Na redemocratização, o lema “Deus, pátria e família” não encontrou espaço na arena política e nos partidos políticos. Eram tempos do fenômeno da “direita envergonhada”, que abalou as porções mais radicais desse espectro político. Buscou-se, então, algum grau de isonomia institucional, com hipotéticas legendas integralistas, como Partido de Ação Integralista ou o Partido de Ação Nacionalista.Por diversas razões, esses projetos não vingaram.

De um lado, algumas lideranças neointegralistas, como Anésio de Lara Campos Júnior, se aproximavam de tendências da extrema direita que não buscavam o campo político formal, como os negacionistas do holocausto ou mesmo de agrupamentos juvenis como os skinheads. O campo político, em especial nos primeiros anos após a redemocratização, era refratário à articulação e presença de grupos integralistas, seus enunciados e seus valores políticos.

A principal oportunidade para a articulação política dos grupelhos integralistas ocorreu por meio da relação com o Partido de Reedificação da Ordem Nacional, o Prona, de Enéas Carneiro. A sigla, que não era integralista, tampouco neofascista, agregou diversos grupos políticos que não se viam representados no cenário político da Nova República.

Em nenhum momento, o líder do Prona envolveu o lema integralista ou coisa similar. “Deus, pátria e família” não fez parte do léxico do partido de Enéas. A única exceção foi o deputado Elimar Máximo Damasceno, eleito no lastro do “fenômeno Enéas” com menos de 500 votos. Damasceno utilizou o púlpito da Câmara para elogiar os integralistas históricose se relacionou com outras figuras da extrema direita, como o então deputado Jair Bolsonaro.

Com a morte de Enéas Carneiro e o fim do Prona, esse espaço acabou. No entanto, a questão mudou de figura nos últimos anos, com a ascensão das novas direitas, o fortalecimento de um discurso radicalmente contrário às esquerdas e a crise política generalizada.

Os integralistas, que não desempenhavam papel formal na política brasileira, voltaram a disputar espaço no processo de emergência do bolsonarismo. Dessa forma, é preciso interpretar esse fenômeno mais recente não como o retorno dos integralistas propriamente dito, mas, principalmente, de elementos de seu imaginário político.

A utilização por bolsonaristas do lema outrora pertencente aos integralistas, “Deus, pátria e família”, não significa uma união irrestrita dos dois grupos. O cálculo político passa por aproximações e distanciamentos. As aproximações acontecem, sobretudo, no anticomunismo e ultraconservadorismo, possibilitando diálogo efetivo no estratégico Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos liderado por Damares Alves.

Já a defesa do livre mercado e a aproximação com os EUA no Planalto são fatores que afastam os integralistas, que disputam espaço no bolsonarismo com outras tendências da extrema direita brasileira e global.

No PRTB de Levy Fidelix os integralistas encontraram afinidades mais estreitas, um espaço mais propício e menos disputado. A presença de Mourão na Vice-Presidência mostra que o partido, a despeito de alguns princípios divergentes, soube se associar aos campos bolsonaristas.

O discurso conspiracionista e anticomunista, o elogio a uma sociedade autoritária, os mitos de unificação, assim como o culto à liderança e o apelo a uma purificação da nação, contribuem para as aproximações pontuais entre eles, especialmente para a naturalização de um discurso fascista.

Essa naturalização proporciona um quadro inimaginável anos atrás. Com a morte de Fidelix, o PRTB é aventado como um futuro partido bolsonarista. Diante dessa possibilidade, algumas figuras fizeram menção a Plínio Salgado e Enéas Carneiro. Essa relação, que não é propriamente nova, fornece elementos importantes de análise.

Em primeiro lugar, o crescente espaço ocupado, no discurso político brasileiro mais recente, por referências ao fascismo histórico, particularmente por parte de tendências do bolsonarismo. O próprio presidente faz uso, há tempos, do lema “Deus, pátria e família”, recorrente em tuítes e comunicação de membros do governo.

Assim, o que se observa é a presença de elementos culturais e políticos da extrema direita com uma história própria, mas que não se reduz à experiência do bolsonarismo. Nesse processo, os lemas dos integralistas, ou homenagens a lideranças históricas da extrema direita brasileira, são objetos de disputas. No projeto político difuso do autoritarismo bolsonarista, os valores e as bandeiras que outrora pertenciam a organizações fascistas ganham corpo e passam por um processo de naturalização no campo político.

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