Usar 'Jesus na goiabeira' contra Damares é fruto bichado da esquerda

Episódio foi evocado com ares de chacota pelos deputados Erika Kokay (PT) e Túlio Gadêlha (PDT)

Anna Virginia Balloussier

Você gosta da Damares Alves?

Se você se vê como progressista, as chances dessa resposta ser positiva são tão escassas quanto peças rosas nas araras masculinas de uma butique conservadora.

Tudo bem não admirar a titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, paladina de causas tidas por muitos como daninhas a mulheres de todas as classes, famílias em suas mais variadas formações e direitos humanos que não valham apenas para "humanos direitos".
 
Se for o seu caso, você pode e deve criticar a ministra. O problema é quando a mesma esquerda que sempre se dispôs a zelar por minorias se refestela com um dos momentos mais vulneráveis da vida de Damares.
 
Falo do "Jesus e o pé de goiabeira", episódio recentemente evocado com ares de chacota pelos deputados Erika Kokay (PT-DF) e Túlio Gadêlha (PDT-PE).
 
Vamos lá: antes de virar ministra de Jair Bolsonaro, Damares contou num culto evangélico que por um triz não se matou. Tinha 10 anos.
 
Dos 6 aos 8 anos, ela foi sexualmente abusada por dois pastores. Em dezembro, contou ao UOL (portal do Grupo Folha, que edita a Folha) o que aconteceu na primeira vez: estava dormindo no quarto ao lado dos pais quando sonhou que "segurava uma coisa quente". Abriu os olhos e viu, em suas mãos de criança, um pênis.
 
"Da primeira vez que me estuprou, ele me colocou no colo, olhou na minha cara e disse: 'Você é culpada, você me seduziu, você é enxerida'. Ele dizia que se eu contasse para o meu pai, ele [o pastor] o mataria."
 
Não importa se você é de esquerda, de direita, flamenguista, corintiana, carnívora ou fã do churrasco de melancia grelhada da Bela Gil. Um abuso é sempre um abuso: deixa marcas indeléveis em uma mulher.

Pois Damares disse que, aos 10, ela subiu num pé de goiaba, convencida a tomar veneno. Parou quando viu Jesus, disse. "Ele era tão lindo, tinha uma roupa comprida, uma barba comprida. Aquela visão que a criança tem de Jesus."
 
No último dia 10, Damares, 54, foi à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para falar sobre braços de seu ministério. Um deles era o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente).
 
Erika Kokay questionou por que um órgão tão vital para proteger os pequenos ainda não funcionava direito, passados cem dias do governo Bolsonaro.
 
Em vez de jogar luz sobre as deficiências do Conanda, a petista viralizou com o que disse a seguir: "Nem todas as meninas vítimas de violência podem ser salvas por um Jesus na goiabeira”.
 
No mesmo dia, Damares abanou o rosto com a mão, como se tivesse perdido o fôlego, ao saber que Túlio Gadêlha saíra da sala: "Como ele é lindo, meu Deus". O pedetista postou vídeo com o momento em seu Instagram, cobrando "estatísticas que comprovem o trabalho que estão realizando".
 
Uma fã marcou sua namorada, a apresentadora Fátima Bernardes, e brincou: "Estão de olho no seu boy". Gadêlha: "Diga a ela que pode tirar o Jesus da goiabeira que não vai rolar milagre".

Lacrou, para usar um verbo que a esquerda se apropriou para se referir a quem deixou o oponente no chinelo. Mas às custas de quê?
 
Do preconceito religioso que o discurso de direitos humanos tanto condena em sua essência.
 
Não interessa se de fato aquele Jesus típico da narrativa ocidental apareceu para Damares, visão de crédulos, ou se tudo não passou de um delírio, como céticos diriam.
 
Naquele momento, uma criança deixou de se suicidar por se sentir acolhida. Agora reflita, leitor que porventura tenha se divertido com fantasias deste Carnaval emulando Damares, Jesus e um pé de goiaba.
 
Se uma garotinha umbandista lhe relatasse que Iemanjá a salvou após ter sido molestada por aquele que deveria ser seu guia espiritual, quem estaria zombando dela?
 
Ah, mas os evangélicos são diferentes, eles que perseguem minorias, como os LGBTQ e os seguidores de religiões afro-brasileiras. Verdade: boa parte de um segmento que aderiu em peso ao bolsonarismo torce o nariz para essas duas franjas sociais.
 
Mas isso é puro "whataboutism", expressão em inglês recém-dicionarizada pelo Oxford que é difícil de traduzir, mas que seria algo próximo de "e o que você me diz de...?". 

Tecla SAP no dia a dia: é como se alguém acusasse uma pessoa de errar em algo, e ela, em vez de negar ou reconhecer o erro e se desculpar, acusa quem a acusou de fazer pior.
 
É como aquela máxima materna que sintetiza o assunto: "Um erro não justifica o outro".
 
Dizer que meninos vestem azul e meninas, rosa, foi só o capítulo um de uma série de gestos que fizeram a esquerda criar birra com Damares.

Esse streaming de polêmicas é constantemente atualizado, como o convite em março a uma notória antifeminista, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC), para falar num evento sobre o empoderamento feminino, isso numa pasta que carrega mulher no nome.
 
Mas quem usa o pé de goiabeira contra Damares corre o risco de oferecer um fruto bichado à própria causa progressista. A ministra chorou após a declaração de Kokay, e muitos brasileiros encararam a fala da deputada como deboche.
 
Ou seja, se não é a questão moral que fala mais alto, de realmente acreditar que é baixo atacar uma mulher pelo refúgio religioso que encontrou para superar um abuso na infância, tem a estratégica: vale a pena investir num discurso que lacra com uma parcela do eleitorado que já é sua, mas afugenta outras tantas que se solidarizam com uma vítima de abuso sexual atacada por sua fé?
 
Mais coerente foi a ex-candidata a vice de Fernando Haddad, Manuela D'Ávila (PCdoB-RS), que confessou em suas redes sociais se incomodar "com as piadas sobre o relato da ministra, porque essa é sua fé, e respeito profundamente a religião de todos".
 
Uma comunista a socorro da ministra evangélica: "Meus problemas com ela são todos políticos".
 
Manuela compartilhou o texto de um pastor mineiro, o José Barbosa Júnior, que diz: "O grande erro de Damares é não perceber, na sua própria história, a negação de tudo o que defende. Crianças são violentadas justamente porque não há uma educação sexual nas escolas, porque o machismo (a verdadeira ideologia de gênero vigente) ainda impera".


Anna Virginia Balloussier é repórter da Folha desde 2010.

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