A saga do venezuelano que escreveu um clássico, elegeu-se presidente e foi deposto

Autor do romance 'Doña Bárbara', Rómulo Gallegos teve votação recorde em 1947

Rodrigo Simon

[RESUMO] Há 90 anos saía ‘Doña Bárbara’, clássico da literatura venezuelana cujo autor, Rómulo Gallegos, foi eleito presidente com votação recorde.

Olhando para uma Venezuela profundamente dividida, fica difícil acreditar que há pouco mais de 70 anos, em sua primeira eleição com voto direto, universal e secreto, o país elegeu um presidente com a impressionante maioria de 74%.

Olhando em retrospecto, talvez ainda mais impressionante que a votação jamais superada seja o fato de o caminho daquele que se apresentava como o “presidente da concórdia nacional” até a Presidência ter sido em grande medida pavimentado pelo prestígio de escritor que conseguiu em seus livros, nas palavras do ensaísta Rafael Lucca, “dar com a medula do que significa a ‘venezuelanidade’”.

O ponto de fervura de tensões ao qual a Venezuela chegou acontece não só no momento em que se completa meio século da morte de Rómulo Gallegos, o autor de tais proezas políticas e literárias, mas também nos 90 anos do lançamento de “Doña Bárbara”, seu livro mais importante —um clássico da literatura latino-americana que pode ser considerado o romance nacional venezuelano por excelência.

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O escritor e político venezuelano Rómulo Gallegos (1884-1969) - Reprodução

É bem verdade que, numa rotina de apagões e inflação estratosférica, não seria justo esperar que os venezuelanos tivessem cabeça para efemérides literárias. Porém, se a literatura foi, mais que qualquer outro campo do conhecimento, capaz de produzir o sentimento de pertença uma nação, relembrar a trajetória de Rómulo Gallegos pode ajudar a compreender um pouco das turbulências atuais.

Nascido em Caracas em 1884, ele tinha 25 anos quando, ao lado de quatro amigos, lançou a revista “La Alborada”, publicação que refletia a animação dos jovens literatos com a queda de Cipriano Castro, ditador que nove anos antes chegara ao poder derrubando Ignacio Andrade naquela que ficou conhecida como “a invasão dos 60”.

“Nosso escuro passado nos fortaleceu, nosso silêncio nos dá direito a levantar a voz; posto que fomos vítimas, podemos ser acusadores”, dizia o editorial da primeira edição da revista que, se não teve vida longa —apenas oito números—, mostrou o suficiente para identificar no recurso ao par luz/escuridão o que mais adiante seria ponto axial no ideário do escritor: o pensamento positivista e seu ideal de reforma da moral e das instituições.

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Rómulo Gallegos (esq.) ao lado de Harry S. Truman, em cerimônia no 4 de julho de 1948. - Reprodução

O que Gallegos e seus amigos talvez não imaginassem é que o novo presidente, general Juán Vicente Gómez, que havia aproveitado para tomar o poder enquanto Castro passava por tratamento de saúde na Europa, se tornaria também um ditador a comandar a Venezuela com mão de ferro até sua morte, em 1935, no período classificado pelo escritor Mariano Picón Salas como “a época mais cruel de nossa história republicana”.

Colaborador de “El Cojo Ilustrado”, uma das mais importantes revistas literárias da América Latina no começo do século 20, Gallegos estreou oficialmente em livro em 1913, com a reunião de sete contos em “Los Aventureros”.

Em 1920, quando era diretor do Colégio Federal na cidade de Barcelona, a 300 km de Caracas, saiu o primeiro romance, “El Último Solar” —que mais tarde passaria a ter como título o nome do protagonista, “Reinaldo Solar”. “Talvez seja a concepção que Gallegos tinha da Venezuela como um todo que Reinaldo simbolize: uma sociedade que não decidiu o que quer”, diz o crítico Jefferson Rea Spell no livro “Contemporary Spanish-American Fiction”.

O contraponto entre o campo e a cidade, já pano de fundo do romance de estreia, chegaria a um fastígio no mais conhecido livro de Gallegos. Lançado pela editora espanhola Araluce, “Doña Bárbara” relata o confronto entre a barbárie e a civilização através da luta entre Santos Luzardo e a personagem-título do livro.

Luzardo, nascido no campo, abandona-o rumo à capital devido a uma tragédia familiar. Formado advogado, volta à região do rio Arauca para resgatar a fazenda da família, que vinha sendo roubada pela gananciosa proprietária das terras vizinhas.

Bárbara, “fruto formado pela violência do branco aventureiro na sombria sensualidade da índia”, carece de “delicadezas femininas”, mas, versada em bruxaria e com “algo de selvagem, belo e terrível ao mesmo tempo”, manipula os homens para conseguir ampliar seus domínios.

Ainda hoje, há quem torça o nariz para o romance, tomado como base do chamado “mito da democracia racial” na Venezuela. Voz da elite “criolla” (descendente de europeus), o livro sustentaria um modelo homogêneo de identidade nacional, na qual a mestiçagem anularia qualquer ação de dominação de um grupo sobre o outro.

Talvez não por acaso, no Brasil a tradução do livro tenha ficado a cargo de Jorge Amado, que, a despeito de tropeços entre o espanhol e o português —traduziu “papelón”, uma espécie de rapadura, por papelão—, se empenhou pessoalmente para sua publicação por aqui. 

“De 1938 a 1941 andei de ceca em Meca empunhando os originais da tradução de ‘Dona Bárbara’ em busca de editor brasileiro”, contou em artigo no Jornal do Brasil em 1974.

Mas assim como Lilia Moritz Schwarcz vê no diálogo da obra de Jorge Amado com o modelo de “democracia racial” de Gilberto Freyre a utopia do “programa” amadiano, González Boixo enxerga em “Doña Bárbara” a busca de Gallegos por um mundo utópico.

“Se por um lado barbárie significa caciquismo e violência, por outro tem também o valor semântico de vida natural própria do ambiente rural, visto positivamente”, considera o professor da Universidade de León, na Espanha.

De fato, o romance tem na transformação de Marisela, filha de Bárbara, o símbolo do novo que nasce da ação da civilização sobre a barbárie. Mas Luzardo acaba também “manchado” pelas “leis do llano”, pois, como diz o narrador, “a barbárie não perdoa a quem tenta dominá-la adaptando-se a seus procedimentos”.

O próprio Gallegos experimentaria algo parecido. Com o sucesso do livro, Juán Vicente Gómez o nomeou senador. Ele partiu para Nova York para evitar retaliações e de lá rejeitou o cargo, seguindo para a Espanha, de onde só retornou com a morte do ditador, em 1935.

De volta a Caracas, ajudou a fundar o partido Acción Democrática e participou do golpe civil-militar que, chamado de “Revolução de Outubro”, levou Rómulo Betancourt à Presidência provisória do país em 1945. Dois anos depois, nas primeiras eleições de voto direto, universal e secreto da Venezuela, foi escolhido como novo presidente da República por 74% dos eleitores.

Nem mesmo tamanho apoio popular foi suficiente para mantê-lo no cargo. Nove meses depois de assumir, aquele que pôs em marcha leis como a de combate à corrupção de funcionários públicos foi deposto por outro golpe militar no país, desta vez arquitetado por seu próprio ministro da Defesa.

Morto em 1969, o escritor viveu o suficiente para ver Mario Vargas Llosa vencer a primeira edição do Prêmio Rómulo Gallegos de romances. Um dos mais importantes da América Latina, o concurso está hoje suspenso por falta de verbas. 


Rodrigo Simon é jornalista, mestre em letras pela USP e doutorando em teoria e história literária pela Unicamp.

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