Ricardo Piglia escreve sobre insensatez do calendário em inédito

'Os Anos Felizes', novo volume dos diários do alter ego do escritor, chega às livrarias

Ricardo Piglia

[SOBRE O TEXTO] A editora Todavia lança nesta semana o livro “Os Anos Felizes”, segundo volume dos diários de Emilio Renzi, alter ego do escritor. A obra retrata o ambiente cultural e anedotas acerca da literatura latino-americana das décadas de 1960 e 1970.

bombas-caneta caindo sobre pessoa dentro de pessoa
Ilustração - Marcos Lorente

A vida não se divide em capítulos, disse Emilio Renzi ao barman do El Cervatillo naquela tarde, com os cotovelos apoiados no balcão, em pé diante do espelho e das garrafas de uísque, vodca e tequila que se alinhavam nas prateleiras do bar. Sempre me intrigou o modo irreal mas matemático em que ordenamos os dias, disse. O próprio calendário já é uma prisão insensata sobre a experiência porque impõe uma ordem cronológica a uma duração que flui sem critério algum. O calendário aprisiona os dias, e é provável que essa mania classificatória tenha influenciado a moral dos homens, disse Renzi sorrindo para o barman. Falo por mim, disse, que escrevo um diário, e os diários só obedecem à progressão dos dias, meses e anos. Não há outra coisa que possa definir um diário, não é o material autobiográfico, não é a confissão íntima, nem sequer é o registro da vida de quem o escreve que o define; simplesmente, disse Renzi, é a ordenação do escrito pelos dias da semana e os meses do ano. Só isso, disse satisfeito. Você pode escrever qualquer coisa, por exemplo, uma progressão matemática, uma lista da lavanderia ou o relato minucioso de uma conversa num bar com o uruguaio que atende o balcão ou, como no meu caso, uma mistura inesperada de detalhes ou encontros com amigos ou testemunhos de acontecimentos vividos, tudo isso pode ser escrito, mas será um diário apenas e exclusivamente se você anotar o dia, o mês, o ano, ou uma dessas três formas de nos orientarmos na corrente do tempo. Se eu escrever, por exemplo, Quarta-feira 27 de janeiro de 2015 e abaixo dessa legenda escrever um sonho ou uma lembrança, ou imaginar algo que não aconteceu, mas antes de começar a escrever a entrada puser, por exemplo, Quarta-feira 27 ou, mais breve, assinalar Quarta-feira, isso já será um diário, não um romance, não um ensaio, mas pode incluir romances e ensaios desde que você tome o cuidado de antes pôr a data, para se orientar e criar uma serialidade datada, mas depois, olho nisso, disse — e tocou com o dedo indicador da mão esquerda a pálpebra inferior do olho direito —, se você publicar essas anotações conforme o calendário, com seu nome, quer dizer, se garantir que o sujeito que está falando, o sujeito do qual se está falando e o que assina são a mesma pessoa, ou, melhor dizendo, todos têm o mesmo nome, então será um diário pessoal. O nome próprio garante a continuidade e a propriedade do escrito.


Ricardo Piglia (1941-2017), escritor argentino, autor de “Respiração Artificial” e “Dinheiro Queimado” (Companhia das Letras), entre outros.

Tradução de Sérgio Molina.

Ilustração de Marcos Lorente, artista plástico.

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