Recordações amargas de filho sobre pai guiam novo livro de Fernando Bonassi

Após perda paterna, protagonista de 'Degeneração' repassa vida em família de origem italiana

Fernando Bonassi

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página é o sexto capítulo de ‘Degeneração’, a sair em 2020. 

A ilustração a traço em branco e preto mostra um homem rindo de olhos fechados, tendo ao fundo um sobradinho estilo italiano; ele está cantando, como deixa entender o balão com notas musicais
Ilustração - João Pinheiro

Então, quando a morte ocorre, não cessa apenas uma vida. Cessa toda uma experiência no mundo... E um ente jurídico também.

O ente jurídico em questão, pensei, respondia por uma aposentadoria mínima, um auxílio-funeral, a bem dizer, dada aos velhos sem qualquer esperança justamente pelos governos mais ou menos socialistas que os velhos sem qualquer esperança tanto odiavam e mal pagava a cama do asilo a qual o titular devia permanecer amarrado esperando a morte, eu bem que podia ter dito, mas a psicóloga daquele turno, talvez “para minha sorte” especializada em lutos e nos seus desdobramentos, ela que fora encarregada do meu caso, o caso do meu pai no hospital dos italianos, ela me explicava com todos os requintes técnicos e burocráticos...

Lamentamos profundamente, mas são exigências do serviço funerário.
... que o fato de o falecido ter se soltado da cama, fugido aos controles do asilo, escapado pelo meio de todas aquelas grades e câmeras de circuito interno para cair na rua da amargura do próprio bairro e aí precisar do socorro de estranhos, que isso, e “morrer a caminho do hospital”, para todos os efeitos, que essa “situação em particular” poderia provocar algum atraso na liberação do corpo.

Eu não tenho tempo, gritei. E mantive mais uma expressão de dúvida do que de raiva, que eu tinha, com certeza. Lembrei à psicóloga de plantão, especializada que fosse, que o falecido já estava desenganado há muitos e muitos anos, que tinha sido amarrado a cama de um asilo nos últimos seis meses por não prestar para se erguer sem tombar para frente ou, quando se firmava, oscilando, se mijava todo, olhando através da gente, das paredes, ou pra dentro de si mesmo, cantando uma música calabresa que não existia para se esquecer do que tinha feito...

Praticamente morto ele já estava!

Mas não adiantava o meu diagnóstico a teu respeito. Eles querem ter o deles. Nem os paramédicos que trouxeram o corpo semimorto podiam se responsabilizar pela explicação do que tinha acontecido, também porque não tinham ideia de onde começava aquilo que tinha acontecido e mesmo o médico que atendeu no pronto socorro dos italianos, que atestara por fim —mas verbalmente— a sua morte, arre! Ele só poderia assinar qualquer coisa depois de conversar com o médico do asilo em que ele, você, o morto, estava... Como ninguém sabia de nada, ou tinha medo de se comprometer, o seu cadáver tinha que ser avaliado por uma autoridade policial e passar por autópsia no Serviço de Verificação de Óbitos.

Mas que transtorno meu deus do céu! —foi o que eu pensei, eu acho. Mas logo a psicóloga está me olhando com reserva. Toma distância da minha pessoa, a bem dizer e me comunica que prontuários clínicos poderiam ser solicitados à “clínica de repouso” e dados antropométricos tomados do cadáver para complementar o laudo. Me lembrei de um velho amarrado a cama entre tantos outros velhos amarrados as camas, como fio terra, pelo qual logo desceriam às sepulturas e ri que a psicóloga do luto chamasse aquilo de “clínica de repouso”. Por certo que ela percebeu o sorriso de escárnio que se formou no canto da minha boca, como um excesso de saliva. Fica magoada. Não é com o mesmo profissionalismo psicológico adocicado pelos cursos de treinamento, mas com esta crueza burocrática que ela complementa: São vários os órgãos de controle e de financiamento que precisam ser avisados, para as devidas baixas, para a verificação de responsabilidades.

Ainda por cima era sexta-feira, daqui a pouco seria sábado e o espetáculo dos mortos em acidentes de moto e armas de fogo, em seu horário de maior público estava em plena função no pronto-socorro.

Com sinceridade? Seu pai morreu no pior dia da semana...

Foi o que ela, a psicóloga, disse: de novo sem maior cuidado, na minha opinião. Duvidei que fosse a especialista que disse que era, mas guardei as minhas dúvidas para mim. E tendo já consumido “em esperas” algumas das minhas horas desde que a sua notícia me atingiu, eu ainda tinha que esperar um tanto mais para encerrar este nosso assunto, pelo visto.

Tenho uma viagem com a família, protestei. Havia mesmo um feriado pela frente, no começo da semana, e nada combinado até aquele momento, a bem dizer, mas a psicóloga do luto me desencorajou.

Lamentamos profundamente, a sua presença é fundamental para os trâmites de liberação.

Disse, aliás, que “eles” já tinham dado “andamento ao processo”. Informado a polícia civil, antes de me informar, e ao Instituto Médico Legal, ambos estaduais, mas que tudo passava, ou parava, na oferta de ambulâncias, um serviço em que se sobrepunham as esferas federal e municipal, que tinha gargalos, estresses e momentos de pico.

Coordenar estes esforços, avisou a psicóloga, podia exigir horas.

Entendi que tantas exigências buscavam evitar que a quantidade de mortes violentas que acontecem entre nós no período que vai de sexta à noite até segunda manhã congestionasse os serviços de saúde.

Do que vocês estão desconfiados?! Perguntei sem esconder a minha exaltação, irritação, não sei.

Não estamos desconfiados de nada, garantiu a psicóloga de luto, insistindo de maneira plácida —mas enfática, que eram “exigências legais”, “indispensáveis e obrigatórias em todos os casos” e que até mesmo um hospital de italianos decrépitos feito esse era obrigado a comunicar aquele tipo de ocorrência, seguir os protocolos definidos pelas autoridades; a qualquer tempo, até o fim.


Fernando Bonassi, roteirista e escritor, autor de "Luxúria" (Record).

Ilustração de João Pinheiro, artista visual, autor das biografias em HQ "Kerouac" (Devir) e "Burroughs" (Veneta).

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