Criticada, Bethânia une Bahia e Mangueira em CD coerente com sua vida

Em 'Mangueira - A Menina dos Meus Olhos', sons da escola de samba carioca encontram as do Recôncavo

Lucas Nobile

[RESUMO]  Em "Mangueira - A Menina dos Meus Olhos", novo disco da artista, as sonoridades da escola de samba carioca encontram os sons do Recôncavo. A mescla, que desagradou parte da crítica, é contudo totalmente coerente com a trajetória da intérprete.

A pós-modernidade, e sua aparente compressão do tempo, institucionalizou o descartável. 

Na era da ultrainformação e dos algoritmos, a "obsolescência programada" é implacável, fazendo com que tudo seja rapidamente substituído por algo mais "atual". A música, uma das manifestações artísticas e de comunicação mais potentes já inventadas, não deveria, mas, infelizmente, também está engolida e envolvida neste contexto. Com a enxurrada de singles, "feats" e afins, os artistas e o público trocam de faixa musical como quem troca de roupa

Definitivamente, esse não é o dínamo de Maria Bethânia.

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Maria Bethânia no Desfile das Campeãs de 2016, no Carnaval vencido pela Mangueira com enredo sobre ela - Marcelo de Jesus/UOL

No fechar das cortinas de 2019, ela lançou "Mangueira - A Menina dos Meus Olhos" (Biscoito Fino, R$ 36,15). Agora, em 2020, completam-se 55 anos do "début" fonográfico da cantora baiana, que despontou nacionalmente com o LP "Maria Bethânia", poucos meses depois de estrear no musical "Opinião", substituindo Nara Leão e dividindo o palco com Zé Keti e João do Vale.

Entre tantos aspectos, impressiona o fato de uma artista viva permanecer relevante por mais de meio século. Maria Bethânia está para a música como Fernanda Montenegro para a dramaturgia. Nada do que produzem cai na vala comum da indiferença. Para o "bem" e para o "mal".

Menos de um mês após o lançamento da produção mais recente de Bethânia, as nove faixas que compõem o repertório tiveram, somadas, mais de 1,7 milhão de execuções no Spotify. As músicas de "Mangueira - A Menina dos Meus Olhos" poderiam, como se diz popularmente, ter entrado por um ouvido e saído pelo outro. Mas não. Ao contrário disso, acenderam um debate.

Seja nos botequins, seja na ágora virtual das redes sociais, o público se dividiu. Escritores, historiadores, pesquisadores musicais, antropólogos, críticos, músicos e jornalistas - colegas admiráveis classificaram o álbum de Bethânia como "sombrio", "equivocado", "abaixo das expectativas". Para alguns, o lançamento é "raso". Para outros, "um desastre".

Os equívocos, segundo as críticas, vão das escolhas do repertório, passando pelos arranjos, até as interpretações da artista, que optou por declamar alguns trechos dos versos das composições —algo habitual ao longo de sua extensa carreira—, o que teria eclipsado a beleza das melodias, enfraquecendo a potência das palavras, em vez de reforçá-la.

Um ponto primordial para compreender esse disco é sublinhar que não se trata de um álbum da Mangueira, mas sobre a Mangueira. Não menos crucial é lembrar de quem realiza esta homenagem. 

Bethânia tem de arrebatamento pela Estação Primeira o mesmo tempo que tem de carreira. Em 1965, recém-chegada da Bahia ao Rio, ela viu a escola apresentar na avenida Presidente Vargas o samba-enredo "Rio Através dos Séculos".

No mesmo desfile, Caetano Veloso —irmão mais velho de Bethânia e que canta ladeado do filho Moreno no novo disco dela— ficou fascinado com "Os Cinco Bailes da História do Rio", do Império Serrano. Segundo Caetano, um de seus encantamentos ali se deu pelo fato de uma mulher ser uma das autoras da composição; era a força do pioneirismo e das melodias celestiais de Dona Ivone Lara.

Quem assiste a um desfile de escolas de samba pela primeira vez sabe das marcas indeléveis que tal experiência ocasiona. Esse impacto permanece impregnado em Bethânia. 

Em 2016, em uma demonstração de admiração mútua, com o samba-enredo "Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá", a Mangueira conquistou seu 19º título, após amargar 13 carnavais de jejum. Desnecessário, pois, discutir a legitimidade do atual tributo prestado pela cantora santo-amarense.

Como se sabe, Bethânia não é compositora, mas intérprete. Portanto, o que ela faz —como poucos— é dar sua interpretação a versos e/ou músicas que lhe chegam, que a tocam. Foi assim com a obra de Vinicius de Moraes, com as criações de Paulo César Pinheiro, de Caetano Veloso, de Fernando Pessoa. É assim, agora, com a Mangueira.

O álbum "Mangueira - A Menina dos Meus Olhos" pode ser encarado como uma espécie de extensão do documentário "Fevereiros" (2017). 

Entre os diversos pontos abordados no excelente filme dirigido por Marcio Debellian —como o sincretismo religioso, fundamental para compreender Bethânia e sua obra—, um dos mais essenciais é o fato de que as raízes da cantora estão fincadas de tal maneira em sua cidade natal que, vá aonde for, faça o que fizer, Santo Amaro da Purificação estará inescapavelmente presente.

Partindo deste pressuposto —o de fazer uma reverência à escola de seu coração, mas com a presença marcante da sonoridade baiana—, a escolha do nome de Letieres Leite para fazer a direção musical é totalmente justificada. 

Por sua atuação à frente da Orkestra Rumpilezz ou de seu quinteto, Letieres vem se firmando como o maior arranjador do Brasil desde a morte de Moacir Santos, em 2006. Quando o assunto é música popular brasileira, em termos de ideias e combinações, principalmente entre percussão e sopros, o que o maestro baiano tem feito só encontra paralelo com o que fora realizado por Moacir e por Pixinguinha (1897-1973).

Para cultuar a Mangueira, Bethânia poderia ter optado por arranjos mais conservadores, inofensivos e insossos como os de seu disco anterior, "De Santo Amaro a Xerém" (2018), em parceria com Zeca Pagodinho. Ao delegar tal função a Letieres, cujos conhecimentos sobre ritmo e ancestralidade são profundos e incontestes, a cantora reforça as relações históricas entre o samba do Recôncavo Baiano e o do Rio.

É provável que aqueles que desejavam um álbum, digamos, mais fiel à sonoridade e às potências da Mangueira gostassem mais se o disco fosse concebido por gente de dentro da agremiação. Ou que talvez fosse cantado por vozes também ligadas à escola e com trajetórias mais associadas ao samba carioca, como Alcione.

Ícones mangueirenses ganham destaque, citados em letras —como Cartola, Carlos Cachaça, Geraldo Pereira, Leci Brandão e Jamelão, os dois últimos lembrados no samba enredo "Histórias pra Ninar Gente Grande", que rendeu o campeonato do ano passado à Mangueira— ou assinando composições —caso de Nelson Cavaquinho ("A Flor e o Espinho" e "Luz Negra"), Nelson Sargento ("Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá") e Tantinho, que canta e assina "Menina dos Olhos de Oyá". 

Exímios músicos do métier carioca, como Pretinho da Serrinha, Carlinhos 7 Cordas, Paulão Sete Cordas e Mauricio Carrilho atuam em diferentes faixas. No entanto, foi o acento sonoro baiano que sobressaiu. 

Para alguns, as cores da alma mangueirense (principalmente as de sua bateria singularíssima) acabaram desbotadas. Não teria peso, por exemplo, regravar a clássica "Sei lá Mangueira", de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, da mesma maneira que as gigantes Clementina de Jesus (1901-1987) e Elizeth Cardoso (1920-1990) a eternizaram.

Bethânia foi por outros caminhos: preferiu declamar a letra enquanto os músicos citam a melodia, em tempo deslocado, num arranjo de Letieres à la Duke Ellington. 

É da vida. A arte é risco: sem ele, sobram o vazio e o lugar-comum.

Em conversa recente, Zuza Homem de Mello, um dos mais respeitados pesquisadores musicais do país, ofereceu sobre isso um de seus valiosos ensinamentos: "A orquestração tem o poder de engrandecer ou de matar um disco". 

No caso deste mais recente de Maria Bethânia, os arranjos o engrandecem. Zuza ainda acrescentou: "Na gravação de um álbum, você pode escolher o melhor repertório, os melhores arranjos e os melhores músicos. Se não tiver algo de magia dentro do estúdio, nada acontece". 

De fato, "Mangueira - A Menina dos Meus Olhos" pode não ser o exemplar mais mágico na vasta discografia de Bethânia. O que não significa que uma obra desta sensibilidade mereça parar na prateleira da apatia. 


Lucas Nobile, jornalista, é autor dos livros 'Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba' (Sonora)  e 'Raphael Rabello: O Violão em Erupção' (Editora 34).

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