Descrição de chapéu

Intelectualidade anêmica e tribal condena arte brasileira à banalidade

Com censura e sem crítica, artistas e sábios não encontram resistência estética, apenas da moral e dos costumes

O imenso século 21 está à espera de uma nova arte que faça justiça à sabedoria e à beleza erguidas por milênios sob as barbas e as ideias de grandes homens. No entanto, ao menos no Brasil, uma intelectualidade anêmica e tribal tem dificultado o advento da nova épica e da nova teoria ao dispensar imaginação, coerência ou virtude.

Já não estão no horizonte dos nossos artistas, sobretudo em literatura, nem aquela forma, superação da realidade e do indivíduo, como a idealizou Georg Lukács, nem a arte inútil, de Baudelaire ou de Oscar Wilde. 

Embora tenhamos escritores de alta patente, são todos medianos —nenhum com fôlego para superar o tempo e a história, nenhum inútil o bastante. Não é produção que nos falta: temos escritores com mais livros numa década do que alguns mestres na vida toda; suas carreiras elogiosas não podem imaginar as razões pelas quais Mário de Andrade demorou 18 anos para escrever "Frederico Paciência". 

É que, hoje, o juízo da simpatia ou da intolerância é que vem decidindo onde fica o céu e onde fica o inferno. 

O elogio ou o vitupério, promovidos por aqueles que deveriam ajustar o joio e o trigo, obedecem a forças externas que se importam mais com os santos do que com os milagres.

A gente inteligente do país não pôs em dúvida a qualidade do especial de Natal do Porta dos Fundos, mas sim se Jesus é ou não passível de piada —embora já tenham se passado muitas décadas desde que o “humour” do Monty Python, sem pedir licença para ninguém, produziu uma iconoclastia hilária de fato.

Como no Brasil em plantando tudo dá, contamos também com a perplexidade do apaixonado ministro da Educação que parece lutar com as palavras, não fazer ideia de onde está e nem de com quem está lidando. No entanto cumpre à risca o ataque à lista dos inimigos da educação brasileira que é coringa na demagogia dos nossos políticos.

Quais adjetivos merece uma praça editorial que chama Márcia Tiburi e Olavo de Carvalho de filósofos e onde há mais escritores do que leitores? Como aceitar uma inteligência que fecha os olhos ao escândalo do populismo nas artes e aos épicos bíblicos que agora constam do cinema brasileiro?

Olavo de Carvalho, fotografado em Richmond, no estado americano de Virginia, onde vive; o ideólogo do bolsonarismo aparece no canto esquerdo da foto,  tendo ao fundo vegetação e, mais atrás, um pedaço de casa, branca; ele veste uma calça bege e uma camisa vinho, segura um rifle ao sorrir para a câmera; ele usa ainda óculos e chapéu grande, marrom, meio de caubói
Olavo de Carvalho, fotografado em Richmond, no estado americano de Virginia, onde vive - Vivi Zanatta/Folhapress

Falando em cinema, as aventuras da pobre menina rica e suas leituras políticas do Brasil desde a abertura —que, com sua forma simplória e seu texto ordinário, não só se prolongam por mais de duas horas como também expõem o público a um registro algo patológico— chegaram a Hollywood. No entanto quase todos os comentários foram no sentido de apoiar ou deplorar tão somente as questões de militância do caso Petra Costa.

Deixemos esse parágrafo preocupado para lembrar, neste, a facilidade com que a barbárie se estabeleceu no meio de nós, pois, numa sociedade em que ninguém é melhor do ninguém, que querer é poder e em que Jesus pede dinheiro em plena televisão, tudo é permitido. 

A humanidade, que insistiu tanto na formação de especialistas, escancara agora as atribuições e todos atuam na clínica geral. 

O sequestro da totalidade pela esquizofrenia, do engenho e da arte pelo comezinho, eleitoreiro e venal afastou as musas e chamou para nossa epopeia o medo e a ira. Com censura e sem crítica, a proliferação de escritores, filósofos e sábios não encontra resistência racional ou estética, apenas da moral e dos costumes.

Ocorre que atribuir valor à arte em função de algo que esteja fora da sua especificidade é como afogar uma recém-nascida somente porque não nasceu menino; e impedir a arte de tratar qualquer assunto é como proibir todas as crianças de brincar.

Ninguém deveria imaginar que a grande arte faça concessões. A liberdade é o começo e o fim de tudo. É evidente que, como jogo que é, possui suas regras e objetos —mas eles estão longe de servir a algum senhor. De outra forma, teríamos de admitir que o aspecto moral e cívico da arte é seu único motivo e que a forma foi dispensada. Não se fazem mais odes às urnas gregas. 

A palavra artística não pode ser como cartinhas de amor ou de ódio, pois ela é pública e privada no cruzamento do tempo e do espaço, para usar as palavras de Mikhail Bakhtin. A tradição do dólar e o negócio das misérias transformaram nossa palavra em caso de polícia ou de hospício. Meteram-na em cultos e abadás contra o bom senso, as cores e o óbvio. 

Não se pode esconder que a arte não é de direita ou de esquerda —por mais que o diabo seja o pai do rock— nem que a ficção não vai bem porque se recusa a mudar de assunto e de tom ou porque ainda não entendeu como rever formas, linguagens e gêneros; tampouco que vergonhosamente antropólogos façam discursos para defender o rap contra o funk carioca.

O exercício das artes, sobretudo das letras, foi jogado no meio da rua para a sanha dos porcos com pérolas ou dos fanáticos do ressentimento. A arte não é mais incremento da vida; agora é a realidade que lhe corta as asinhas. A revolução é copernicana, e o trabalho um abismo; mas uma estética desse tempo e desse espírito anseia por um filósofo, do mesmo jeito que a cultura precisa de heróis.


Mariella Augusta Masagão é escritora e doutora em literatura portuguesa pela USP

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