Descrição de chapéu

Até quando 'chicagadas' de Guedes vão ser argumento para conformismo?

Muito da vista grossa em relação ao milicianismo político deve-se à linha econômica do ministro

São escandalosas as manifestações de Eduardo Bolsonaro, ex-futuro embaixador em Washington, sobre a repórter Patrícia Campos Mello, em dobradinha com o depoimento mentiroso de Hans River, suposto operador digital da campanha de Jair Bolsonaro, à CPMI das Fake News.

"Eu não duvido que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro", afirmou Eduardo.

Só quem quer ainda não vê no núcleo do atual governo federal uma ameaça à democracia. Sim, pode-se dizer que o sistema democrático em seus pilares mais elementares, como separação de Poderes etc., vigora no país. Mas isso não quer dizer que não se veja ameaçado. A ameaça não se concretiza quando vitoriosa, mas por ser ameaça.

Muito da vista grossa de setores supostamente esclarecidos do establishment e da elite em relação ao milicianismo político em curso deve-se à linha econômica do ministro Paulo Guedes. Trata-se de uma agenda até defensável em alguns aspectos, mas atrasada, antipopular e desastrada. Guedes, um Chicago Boy do tempo de Reagan, não para de fazer (desculpe o trocadilho chulo) suas “chicagadas”.

Enquanto o ajuste fiscal permanece uma quimera e o teto de gastos e a reforma da Previdência não entregam o que foi alardeado, a tal “revolução” do Posto Ipiranga, saudada por muitos, até de boa-fé, quando da posse e após anúncios de PECs mirabolantes, rasteja.

A economia está basicamente estagnada e o quadro social, ambiental e educacional naufraga. Enquanto criaturas do pântano dominam a cena, Guedes, o que mereceria apoio, fala em AI-5 e ataca servidores chamando-os de parasitas.

Economistas liberais ilustrados identificados como de centro-direita, como Armínio Fraga e André Lara Resende, entre outros, vão se manifestando com crescente estridência contra esse programa atrasado —em sentido contrário ao da velha Fiesp, o aparelhão de Paulo Skaf e do empresariado decadente da Paulista.

Diante da atmosfera de pesadelo que toma o país, a pergunta que não quer calar é: até quando as “chicagadas” de Guedes vão servir de argumento para o conformismo com tudo isso? 

Marcos Augusto Gonçalves

É editor da Ilustríssima e editorialista. Foi editor da Ilustrada, de Opinião e correspondente em Milão e em Nova York.

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