Livro conta como João de Deus foi de astro de festa com artistas a condenado por assédio sexual

'Ele fez com que ela ajoelhasse em sua frente e o masturbasse'; leia trecho de obra que será lançada em abril

 Casa de Dom Inácio, onde funciona o centro espírita mantido pelo médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, onde catorze mulheres denunciaram ter sido sexualmente abusadas por ele durante supostas sessões de cura.

Casa de Dom Inácio, onde funcionou o centro mantido por João de Deus, em Abadiânia (GO) Andre Coelho/Folhapress

[RESUMO] Os trechos abaixo compõem "A Casa - A História da Seita de João de Deus", livro a ser lançado pela editora Todavia em abril, no qual se narram denúncias de assédio sexual contra o líder místico,  sua festa de aniversário com a presença de artistas e um futuro ministro do STF e a ruína financeira da cidade de Abadiânia (GO) após sua prisão, com penas que somam 63 anos de reclusão.

Cristiane Marques de Souza estava acostumada a trabalhar com o que chama de “clínica jurídica geral”. Todos os casos passavam por suas mãos, já que ela era a única promotora de Abadiânia (GO) desde 2007.

Sua mesa parecia a maquete de uma cidade, com prédios formados por pilhas de processos civil de pensão, ato infracional e crimes de trânsito, como embriaguez. “Sempre teve muita Maria da Penha. Muita mesmo”, diz ela em novembro de 2019. 

Os casos de violência doméstica e violações a leis ambientais consumiam mais que as oito horas diárias de carga horária da funcionária, que morava com a família a poucos quarteirões do fórum, numa casa com câmeras de segurança. Ela evitava sair e voltar para casa nos mesmos horários: “Abadiânia não é uma cidade pacata. Não mesmo”.

Até que, no começo do último mês de 2012, chegou uma nova remessa de inquéritos. Além dos assuntos de praxe, havia uma pasta robusta, que vinha de Belo Horizonte. Os documentos eram uma denúncia de assédio sexual

“Com o fito de satisfazer sua lascívia, o denunciado acariciou os seios, barriga, nádegas e virilha da vítima. Não satisfeito, o denunciado segurou a mão da vítima, por cima da roupa, sobre seu órgão genital e começou a movimentá-la para cima e para baixo em movimentos constantes, enquanto afirmava que ela estava recebendo ‘o espírito’ e que iria ser curada”.

O denunciado era João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus; a denunciante, uma jovem de 16 anos que saíra de Minas Gerais e foi à Casa de Dom Inácio, onde o médium atendia milhares de brasileiros e estrangeiros todas as semanas, em busca de tratamento. Segundo o documento, o ato ocorreu numa tarde de 2008: o líder da seita a fisgou na fila e a levou para sua sala. 

Em juridiquês, a peça narrava que, uma vez na sala, ele fez com que ela ajoelhasse em sua frente e o masturbasse, “sempre repetindo que se tratava de parte do ‘tratamento’”. A vítima “só conseguiu chorar compulsivamente” durante o ato. Quase um ano depois, a família a apoiou a prestar queixa no Ministério Público mineiro. 

A promotora leu o depoimento, prestado semanas antes. Aquele não era um caso de clínica geral jurídica, estava mais para um indício de tumor maligno. Cabia a ela decidir levar ou não a denúncia adiante. “Eu não pensei duas vezes. O depoimento parecia muito forte, muito real.” 

Uma mulher de 30 anos acatou uma denúncia contra o homem mais poderoso da cidade, com mais do dobro de sua idade, baseando-se no depoimento de uma adolescente. Não era o primeiro caso contra ele na cidade. Outros dois ou três processos, de problemas fundiários e trabalhistas, haviam passado por Marques de Souza e foram remetidos para Goiânia para serem julgados. Mas aquela pasta de 200 gramas de documentos continha uma acusação com um peso sem precedente. 

A promotora sempre ouviu a respeito de Faria o mesmo zum-zum que corria entre os moradores: armas, gente desaparecendo, crimes. “E isso não materializava juridicamente dentro da promotoria. Ninguém denunciava.” Denúncia de cunho sexual era inédita. 

João de Deus e a promotora já se conheciam. Na visão dela, a relação dos dois era amistosa, embora superficial. Não haviam se cruzado mais que um punhado de vezes. Certa ocasião ele levou ao fórum um projeto para construir uma creche destinada a crianças carentes e perguntou a opinião dela. “Acho bom mesmo. Acho que o senhor tem de devolver pra cidade muito do dinheiro que a cidade ajudou o senhor a ganhar.”

Marques de Souza era das poucas fagulhas de Estado no local em que atuou como promotora durante 12 anos, dos quais oito sem delegado titular. O delegado de municípios vizinhos, como Alexânia, agregava a função. Ela não teve medo de denunciar João de Deus.“Eu me sentia segura. Nunca tive medo de que algo acontecesse.”

Antes do fim de 2012, o líder da seita foi prestar depoimento no prédio do fórum, num casarão térreo amarelo a 15 passos da prefeitura. O mesmo prédio onde a promotora dava expediente. E ele não foi só. Os advogados de defesa arrolaram dúzias de testemunhas: Chico Lobo, ex-vice-prefeito e administrador da Casa, o ex-prefeito Hamilton Pereira, funcionários e voluntários foram atestar que ele e a acusadora nunca haviam ficado a sós. 

No tribunal, João de Deus afirmou que era assediado por muitas pacientes. “Eu tenho que me retirar algumas vezes porque as pessoas me veem como Deus, me abraçam, me agarram.” E negou ter atendido a jovem que o acusava. Negou que fizesse qualquer atendimento longe dos olhos de seus assistentes e dos frequentadores da Casa. “Na minha sala, ninguém entra.” 

Quando ele entrou para depor, até os funcionários do fórum saíram. “Todo mundo desaparecia. Tem essa questão muito forte do terror”, diz a promotora. As audiências eram vazias porque o processo corria sob sigilo de Justiça. A imprensa não publicou uma linha sobre o caso. Mas o segredo sangrou por toda a cidade.

Enquanto o líder místico era julgado, um grupo se juntou no estacionamento da igreja, em frente ao fórum, e rezou por uma condenação. Uma condenação que não veio. 

Em meados de 2013, João Teixeira de Faria foi absolvido da acusação de assédio sexual por falta de provas. A promotora recorreu. O processo foi para o Tribunal de Justiça de Goiás. Seis meses depois, o tribunal de segunda instância confirmou a absolvição de Faria.

Quase dez anos depois da primeira denúncia, com a confirmação de que aquele processo era o indício de um tumor maligno que levaria a Casa Dom Inácio à morte, a promotora não se arrisca a comentar por que João de Deus foi inocentado duas vezes no começo dos anos 2010. “O tribunal decidiu e a gente não vai revisitar esse caso. Juridicamente, isso é ruim.”

2013
Vinte e quatro de junho era um dia sagrado na Casa. No resto do Brasil é dia de são João, mas em Abadiânia se comemorava o dia de João. De João Teixeira de Faria. O aniversário do líder era, desde os anos 2000, a maior festa da cidade.

Em 2013, a data caiu numa segunda-feira. Respeitando a semana útil da Casa, que só funcionava de quarta a sexta, a comemoração foi antecipada para a sexta-feira anterior, dia 21. As 52 pousadas não tinham vagas. O centro abriu às 7h, como de costume, e recebeu o mesmo milhar de visitantes habituais —a diferença é que naquela data as pessoas não iam embora depois do atendimento. Ônibus estacionados bloqueavam o trânsito da avenida Frontal, já que no estacionamento fora montada uma tenda de tecido branco.

A festa começou de manhã, quando a banda da Polícia Militar passou pelas ruas tocando em homenagem ao dono da Casa, enquanto os funcionários das pousadas iam e vinham com os preparativos, transportando panelas tão grandes que precisavam ser carregadas em duplas. A cerca ao redor do estacionamento foi pouco a pouco sendo coberta de faixas pintadas com votos para o aniversariante.

A festa seguia a regra de uma reunião de adolescentes: cada convidado levava comida ou bebida. O que mudava era a proporção. Os donos das pousadas e lojas contribuíam com quantidades industriais: mil cachorros-quentes; 400 garrafas pet de refrigerante de marca genérica; uma avalanche de bandeirinhas de papel colorido para enfeitar a Casa e a tenda. 

O presente mais esperado era o bolo da Valdete. Já era tradição: Valdete Ferreira, dona da pousada e restaurante Dom Ingrid, preparava um bolo de metros de comprimento. Eram, pelo menos, 20 quilos de massa de pão de ló com coberturas coloridas de açúcar, manteiga e chocolate. Quando ficava pronto, João o abençoava, e depois o bolo era levado para a tenda, onde seria cortado e distribuído.

Sim, distribuído, porque nada era cobrado das quase 4.000 pessoas que compareciam à festa de João Curador. “Era o único dia que eu cruzava a estrada”, diz o professor de inglês da rede pública Caio Araújo. “E a maioria das pessoas do lado de cá também só ia para lá no dia da festa.”

Assim que a noite caiu, o pessoal que estava na Casa atravessou a avenida. No palco montado no estacionamento, um mestre de cerimônias fazia um esquenta com o público: “Quem aqui veio de caravana do... Rio Grande do Sul?”. E dezenas de pessoas aplaudiam e gritavam. “E cadê a galera de Minas?” Mais gritos e palmas. No centro do terreno, a atração principal: uma fogueira de dez metros, o tamanho de um prédio de três andares. Um presente dos taxistas, que também cuidavam dos fogos de artifício. 

O ator Marcos Frota passeava entre a multidão fazendo selfies com quem pedisse. Outros menos famosos, como a figurinista de Fernanda Lima, conseguiam comer em paz sua galinhada. Às 20h, começou um show do grupo Los Baileiros, que animava formaturas e casamentos em Goiânia. Não cobraram cachê. 

Enquanto João de Deus não chegava, o grupo tocava sucessos do pop brasileiro, como Tim Maia: “Não quero dinheiro/ Eu só quero amar/ Só quero amar/ Só quero amar”.

Antes de subir ao palco, os integrantes da banda tinham feito fotos com um homem de meia-idade que passara despercebido pela maioria dos frequentadores. Alto, os cabelos pretos começando a branquear, jaqueta de couro sobre camisa branca, jeans azul e sapatênis, era o ministro Luís Roberto Barroso, a poucos dias de assumir sua cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Quando chegou à festa, vestindo um terno cinza assinado pelo estilista Ricardo Almeida, João de Deus encontrou dificuldade para subir ao palco. Centenas de pessoas tentavam cumprimentá-lo, entregar-lhe um presente. Dois assistentes recolhiam os embrulhos —bichos de pelúcia, quadros com o rosto dele pintado por artistas amadores, garrafas de cachaça. O prefeito Wilmar Arantes lhe deu uma placa comemorativa. 

A primeira autoridade a se pronunciar foi o então governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB): “Vim somar a todos vocês, goianos, brasileiros, irmãos de todas as partes do mundo, que estão aqui, mais uma vez, para celebrar a vida do nosso querido e amado João de Deus”. O então senador do Distrito Federal Rodrigo Rollemberg (PSB) e o deputado federal Sandes Júnior (PP) não discursaram, tampouco Barroso. 

Mas o ministro conversou com a imprensa: “Eu o conheci por intermédio de um grande amigo, Carlos Ayres Britto, que o levou até minha casa numa ocasião em que eu estava doente. Foi quando nos tornamos amigos”, ele disse ao Diário da Manhã, de Goiânia. E afirmou que ia uma vez ao mês à Casa. “Se o João me convida para seu aniversário, não poderia deixar de vir abraçá-lo pessoalmente”, disse o ministro da mais alta corte brasileira, antes de pegar seu carro com motorista de volta para Brasília.

Quando finalmente conseguiu subir ao palco, João de Deus agradeceu a presença de todos. Disse que era uma noite de fartura. E de alegria. Antes de ir para um cercado VIP dentro da tenda, onde jantaria com autoridades e artistas, passou um recado para aqueles que questionavam sua capacidade de seguir orquestrando a Casa, aos 71 anos de idade. “Tenho uma notícia para dar. Vou viver mais 150 anos.” A salva de palmas foi seguida de fogos de artifício.

Maio e junho de 2019
“Olha a rifa do bode! Olha o bode que vai ser rifado!” Na porta da igreja, um homem de chapéu de palha e camisa azul aberta até o umbigo puxa por uma corda um bode de pelagem castanha, oferecendo bilhetes de R$ 5 para o sorteio do animal. A rifa do bode é uma das atrações da festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, realizada em maio, com missa, pastel, pamonha feita na hora e feijoada.

A capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro fica dentro da Fazenda Barreiro, na metade do caminho entre Abadiânia e Abadiânia Velha. No dia seguinte, 4 de maio, a procissão levará a imagem da santa até a igreja da fazenda, onde ela será coroada. Terminada a liturgia, haverá queima de fogos e a fogueira, da altura de um prédio de três andares, vai queimar, ao som de um show ao vivo de Túlio do Forró e Zezé dos Teclados. 

O taxista Márcio Silva, que trabalha para a Casa, olha para o prédio de toras de madeira que foi erguido ao lado da igreja. Coloca as duas mãos na cintura. “A do seu João era sempre maior do que a daqui. A gente fazia questão que fosse. Duas, três vezes mais alta.” 

Um mês depois da festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é realizada a festa de aniversário de João de Deus. A primeira de que ele não participa em décadas. Como o dia 24 de junho caiu numa segunda-feira, não houve culto na Casa. Quando o sol está se pondo, desponta um grupo. 

Uma dúzia de pessoas, entre elas Heather Cumming e Norberto Kist, saem da Casa e dão as mãos, formando um círculo. Começam por rezar o Pai-Nosso e emendam com as músicas prediletas de João de Deus, como “Índia”. No centro do círculo, uma fogueira que não chega à altura de um homem adulto. De longe, o taxista Silva olha para o fogaréu e, antes de virar de costas, diz: “Que merda.” 

Apuração foi a mais difícil de minha carreira, afirma jornalista

“A Casa” narra a história da Casa de Dom Inácio de Loyola desde sua fundação, no fim da década de 1970, até a prisão do líder místico João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus, em dezembro de 2018, acusado de estupro e assédio sexual por centenas de mulheres.

O livro intercala um capítulo do passado da Casa com um capítulo do presente de Abadiânia. Foi a apuração mais difícil da minha carreira. O medo de João Teixeira de Faria ainda impera na cidade.

Ouvi centenas de relatos de abadianenses. Histórias de pessoas que sumiram após se indispor com a Casa, de moradores que tiveram seus bens confiscados por capangas após brigar com João e de gente que enriqueceu graças aos milhares de dólares de gorjeta que recebiam de turistas estrangeiros.

Era difícil convencer as pessoas da cidade, fiéis da Casa ou não, a contar suas histórias. E era mais difícil ainda dormir em paz na cidade. Em três encontros, os entrevistados, com quem eu nunca tinha encontrado, perguntaram: “Ah, é você que está no quarto do segundo andar do Hotel Brasil?”. E eu estava. 

A apuração durou quase todo o ano passado. Visitei a cidade meia dúzia de vezes. Passei uma semana dentro da seita, que em 2019 só recebeu dezenas de visitantes por dia, contra os mais de mil turistas que passavam pela Casa até dezembro de 2018. 

O que vi foi uma cidade gangrenando. Abadiânia já sofre com um fluxo migratório que o poder público ainda não conseguiu computar.

Famílias inteiras deixaram a cidade, rumo a Brasília ou a Goiânia. Das 90 pousadas que chegaram a funcionar no bairro Lindo Horizonte, construído ao redor da Casa, não restou nem uma dúzia em funcionamento. 

Em três momentos, funcionários da Casa afirmaram que ela deixaria de funcionar. Mas, até 2 de fevereiro de 2020, o centro místico continua abrindo suas portas às 7h de quartas, quintas e sextas, como é tradição há 40 anos.


Chico Felitti, repórter ganhador dos prêmios Petrobrás e Comunique-se de jornalismo, é autor de “Ricardo & Vânia” (Todavia).

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