Nova peça de Samir Yazbek narra obsessão violenta de usineiro; leia

'Tectônicas' entra em cartaz em 16 de abril no Teatro do Sesi, em São Paulo

Samir Yazbek

[SOBRE O TEXTO] O trecho aqui publicado foi extraído de “Tectônicas”, peça que entra em cartaz em 16 de abril no Teatro do Sesi, sob direção de Marcelo Lazzaratto. O texto se constrói em torno da obsessão de Jorge, um usineiro paulista, por punir Marcelo, que teria agredido sua filha, Fabíola. Essa obsessão degenera em uma espiral de violência, atingindo as relações de Jorge. A narrativa é conduzida de forma épica por familiares já mortos do usineiro, Alfredo e Dolores, que usa metáforas vindas da linguagem de computação.

Fundo vermelho com intervenções de cores quente com 5 pessoas em destaque
Ilustração - Jairo Malta

Entra Jorge, embriagado. 

JORGE Acordadas a essa hora?

Jorge cambaleia pela sala. 

MARLI Você bebeu?

JORGE Você não tem nada a ver com isso! (Um silêncio) Vocês não sentiram uma coisa meio estranha na cidade, hoje?

MARLI Eu não senti nada demais.

JORGE Você nunca presta atenção nas coisas.

MARLI Você sentiu alguma coisa estranha na cidade hoje, filha?

FABÍOLA Eu não senti nada de estranho hoje, mãe.

MARLI Eu também não senti nada de estranho hoje, Jorge.

JORGE Quando a justiça dos homens falha, a gente não sabe o que fazer.

MARLI Mas do que você está falando?

JORGE Entregue aos corruptos, aos estupradores, aos assassinos, a gente precisa entender que...

Sai Fabíola, abruptamente. Marli afasta-se, incomodada.

DOLORES (Para Alfredo) Essa situação é típica do acúmulo de tensões em função do movimento contínuo das placas tectônicas!

ALFREDO Oi?

DOLORES Eu já não sei mais o que pensar disso tudo.

ALFREDO (Referindo-se a Jorge e à Marli) Eles sempre foram perversos.

DOLORES Eu tinha apagado isso da memória.

Alfredo afasta-se de Dolores, incomodado.

JORGE (Aproximando-se de Marli) Posso saber por que tem vítima que perdoa o seu carrasco, Marli?

MARLI De quem você está falando?

JORGE Encontrar-se com uma pessoa que nos fez tão mal não é o mesmo que perdoá-lo?

MARLI Você está achando que a Fabíola se encontrou com o Marcelo?

JORGE Eu sei tudo o que acontece nesta cidade, Marli! (Um silêncio) E por que você anda me evitando tanto?

MARLI Desde quando eu ando te evitando?

JORGE As mulheres fogem dos homens que as amam, é isso?

MARLI Cada mulher se comporta de um jeito, Jorge.

JORGE Umas mulheres desprezam os homens que as amam, enquanto outras amam os homens que as desprezam?

MARLI Você está dizendo que me ama?

JORGE É assim que as coisas funcionam?

MARLI Você está falando sério?

Sai Marli. Jorge anda de um lado para o outro, aflito. Vai até um armário, de onde retira uma caixa. De dentro da caixa, pega um revólver. Começa a observar a arma calmamente. Depois de um tempo, coloca o revólver na caixa, guardando-a no armário. Dolores fala durante essa ação.

DOLORES É como uma pane, que gera outra, que depois gera outra, até o colapso total do sistema.

ALFREDO É por isso que eu...

Alfredo começa a aproximar-se de Jorge, para o desespero de Dolores.

DOLORES Mas o que você está fazendo?!

ALFREDO Eu vou falar com ele!

DOLORES Por que isso agora, meu filho?

Alfredo está perto de Jorge, que o enxerga pela primeira vez. Dolores, aflita, acompanha a conversa, sem ser vista por Jorge.

JORGE  (Atônito) O que você está fazendo aqui?

ALFREDO Eu sei que é tarde, mas...

JORGE  (Cortando-o) O que é tarde?!

ALFREDO (Olhando o relógio) Você não costuma acordar cedo para trabalhar?

JORGE Vinte anos é muito tarde para você reaparecer com essa cara de pau! (Um silêncio) O que você quer de mim?

ALFREDO  (Tampando o nariz com as mãos) Hum... Seu bafo está forte, hein?

JORGE Você veio me criticar por eu ter bebido?

ALFREDO Você sempre me criticou por eu tomar umas biritas a mais.

JORGE Você chama aqueles porres homéricos de biritas a mais?

ALFREDO Parece que você está indo pelo mesmo caminho.

JORGE Eu jamais vou ser o alcoólatra que você foi!

Alfredo movimenta-se pelo espaço, inquietando Jorge.

ALFREDO Por que você fez a minha caveira com o papai?

JORGE E eu lá sou homem de fazer a caveira de alguém?

ALFREDO Você acabou com a minha reputação.

JORGE Posso saber por que você voltou?

ALFREDO Você usurpou a herança da nossa família!

JORGE Eu precisava salvar a usina da falência!

ALFREDO E precisava me demitir por causa disso?

JORGE Se naquele momento eu não tivesse te afastado da direção da usina, ela não teria crescido como cresceu, e ninguém da nossa família teria chegado aonde chegou!

ALFREDO Você acha mesmo que nós chegamos a algum lugar tão respeitável assim?

JORGE Pelo menos todas as pessoas da nossa família estão bem de vida.

ALFREDO A Fabíola não está me parecendo nada bem de vida.

JORGE Não me interessa o que você pensa sobre a Fabíola ou sobre qualquer outra pessoa da nossa família!

ALFREDO Nós nunca formamos uma família de verdade.

JORGE Tirando o nosso pai, a nossa família sempre foi composta por um bando de fracassados. Você, nossa mãe, nossos tios, primos...  Eu tive de começar do zero.

ALFREDO Você sempre se achou melhor do que todos!

JORGE Você é que nunca passou de um inútil!

Jorge começa a correr pelo espaço, aos berros de “vamos, vá embora, suma daqui”, perseguindo Alfredo raivosamente, fazendo-o correr até Dolores, que o ampara. Pelo outro lado do palco entra Marli, nervosa.

MARLI Mas o que está acontecendo?

JORGE  (Partindo para cima de Marli) Suma daqui você também!

Marli sai correndo, apavorada. Ouvem-se miados de gatos na casa vizinha. Jorge aumenta a sua voz, exaltando-se.

JORGE Seu gato miserável, eu vou acabar com a sua raça!

Ouvem-se mais miados. A exaltação de Jorge continua.

JORGE Eu vou acabar com a raça da sua dona também!

Ouvem-se mais miados. A exaltação de Jorge aumenta ainda mais.

JORGE (Gritando para a casa vizinha) Puladora de cerca, mãe de um craqueiro dos infernos!

Ouvem-se mais miados. A exaltação de Jorge atinge o paroxismo.

JORGE  (Gritando para o interior de sua casa) Eu sei tudo o que acontece nesta cidade, Marli!

Aos poucos Jorge acalma-se. Vai até um aparelho de som e coloca uma música relaxante. Fecha os olhos e respira fundo. Na sequência, volta à caixa onde guardara o revólver. Pega o revólver e coloca-o atrás da calça. Ouve-se um som que indica a chegada de uma mensagem. Jorge desliga a música, tira seu celular do bolso e aperta uma tecla. Surge a imagem de uma conversa entre Fabíola e Marcelo projetada no cenário. Alfredo e Dolores observam a imagem de perto.

FABÍOLA (Imagem)  Você quer mesmo viajar comigo?

MARCELO (Imagem) Eu achei a sua ideia brilhante!

FABÍOLA (Imagem) Mas será que você vai superar essa injustiça que fizeram com você?

MARCELO (Imagem) Não está fácil de superar, mas eu vou conseguir!

FABÍOLA (Imagem) Parece que alguma coisa ainda te impede.

MARCELO (Imagem) O que mais me impede é o seu pai. 

FABÍOLA (Imagem) Ele nunca vai deixar de ser o meu pai.

MARCELO (Imagem) Ele não tinha o direito de fazer o que fez comigo!

FABÍOLA (Imagem) Parece que você nunca vai conseguir superar essa história. 

Há uma interrupção no sinal da imagem, que congela a projeção. Jorge, irritado, chacoalha o celular, tentando recuperar o sinal. 

JORGE Merda!

DOLORES (Para Alfredo, referindo-se à imagem estática da projeção) Precisamos investigar e monitorar os elementos rochosos e as estruturas envolvidas nas zonas de contato das placas tectônicas.

ALFREDO A senhora viu como eu fui tratado agora há pouco!

DOLORES Nós não podemos desistir!

ALFREDO Placa Mãe chamando?

DOLORES Não seja irônico!

Depois de um tempo, Jorge consegue recuperar o sinal do celular. A imagem volta a movimentar-se na projeção, reproduzindo o restante da conversa entre Fabíola e Marcelo. 

FABÍOLA (Imagem) Eu sei que está sendo um momento difícil para você. 

MARCELO (Imagem) Então porque você fala como se não soubesse disso?

FABÍOLA (Imagem) É que eu pensei que as coisas seriam mais fáceis.

MARCELO (Imagem) Você só precisa ter um pouco mais de paciência.

Jorge, que via a imagem num crescente de apreensão, desliga o celular, guarda-o no bolso e sai. A imagem desaparece. Dolores aproxima-se do público.

DOLORES (Para o público) Placa Mãe falando, PLACA MÃE FALANDO! Placa Mãe SE DECEPCIONANDO! Placa Mãe SE FERRANDO! Placa Mãe SE DESTRUINDO... VOCÊS ESTÃO ME ENTENDENDO? Placa Mãe CONTINUANDO A ABRIR ESSE SISTEMA PARA TENTAR EVITAR A PANE FINAL, MESMO CORRENDO O RISCO DE TUDO EXPLODIR!
 
Um instante de silêncio entre Dolores e o público, com a cumplicidade amedrontada de Alfredo. Escurece.


Samir Yazbek, dramaturgo, é autor de “O Fingidor” (Prêmio Shell 1999 de melhor autor), “As Folhas do Cedro” (Prêmio APCA 2010 de melhor autor) e “O Eterno Retorno” (Indicação ao Prêmio Aplauso Brasil 2018 de melhor dramaturgia), entre outras peças.

Ilustração de Jairo Malta

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