Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Sanders é o Bolsonaro da esquerda americana, diz professora dos EUA

Candidatos exóticos à tradicional estrutura partidária desafiam previsões e abrasileiram disputa americana

Amy Erica Smith

[resumo] Professora norte-americana de ciência política afirma que a corrida presidencial em curso nos Estados Unidos assumiu forma altamente incomum, com o predomínio de nomes de frágil vínculo partidário e o enfraquecimento das tradicionais lideranças, quadro político que seria comparável ao brasileiro.

Façamos um jogo de adivinhação. Pensemos em uma pessoa eleita para a Câmara pela primeira vez em 1991. Nas décadas seguintes, esse político ganhou fama por ser um dos mais ideologicamente extremados do Congresso, com reiteradas declarações favoráveis a regimes autoritários.

Essa pessoa nunca aprovou muitas leis e passou grande parte de sua trajetória política longe dos grandes partidos. Quando decidiu candidatar-se a presidente da República, alguns anos atrás, ninguém levou a sério sua intenção, mas sua vasta base online de seguidores devotos desafiou todas as expectativas.

O leitor adivinhou de quem falamos? Jair Bolsonaro ou Bernie Sanders? Eu pensava em ambos.

De certa forma, poderíamos descrever Bernie Sanders como um Jair Bolsonaro da esquerda americana. Isso dito, uma Presidência de Sanders pode resultar em algo muito diferente de uma Presidência de Bolsonaro. A temporada eleitoral em curso nos Estados Unidos está assumindo uma forma altamente incomum —e não apenas porque o pré-candidato democrata por ora favorito nas prévias do partido, Sanders, se descreva como socialista. É possível que no futuro encaremos 2020 como sendo o ano do abrasileiramento da política norte-americana.

Professora estadunidense de política comparada, geralmente ensino a meus alunos americanos sobre os sistemas de países como o Brasil, destacando semelhanças ou diferenças. Hoje, porém, vou virar a lousa do avesso para explicar os Estados Unidos, traçando uma comparação com o Brasil.

Os brasileiros estão acostumados à ideia de que políticos entram e saem de diferentes partidos com frequência. Em geral os eleitores do Brasil, excetuando parcialmente os do PT, não se importam muito com o partido pelo qual um candidato concorre.

Não é assim nos Estados Unidos. Os candidatos presidenciais americanos quase sempre construíram suas carreiras nos partidos Democrata ou Republicano ao longo de décadas. Um sintoma de como é bizarro o momento atual é o fato de três dos mais fortes nomes da corrida eleitoral — o presidente republicano Donald Trump e os democratas Sanders e Michael Bloomberg — terem se filiado a seus partidos recentemente, e de o terem feito apenas para se candidatar.

Para entender por que os partidos políticos e as eleições historicamente funcionaram de modo tão diferente nos EUA e no Brasil, falemos um pouco das regras eleitorais. Comecemos pelo Legislativo. Nos EUA, elegemos candidatos legislativos em distritos de membro único — ou seja, apenas uma pessoa em cada distrito pode ser eleita. O candidato que receber mais votos ganha a disputa, mesmo que não tenha alcançado uma maioria.

Uma das raras leis existentes na ciência política é a chamada “lei de Duverger”. Na década de 1950, o sociólogo francês Maurice Duverger observou que os países com sistema eleitoral majoritário, como os Estados Unidos, tendem a ter apenas dois partidos grandes no Congresso. Duverger argumentou que tanto razões mecânicas quanto psicológicas levam à redução do número de partidos em países em que apenas um candidato é eleito em cada distrito.

Um partido precisa receber perto de metade dos votos em um distrito para conseguir uma cadeira no Congresso norte-americano. Cientes disso, os eleitores evitam apostar em siglas pequenas, pois julgam que não terão chances de vitória.

Compare-se isso às regras brasileiras de representação proporcional por lista aberta, que permitem a um partido ganhar cadeiras na Câmara mesmo que receba apenas uma parcela pequena de votos em um determinado Estado. 

O sistema presidencial nos EUA reforça a tendência de domínio de dois partidos. As eleições exigem recursos e organização tremendos. Com isso, nossos dois partidos grandes no Congresso acabam naturalmente exercendo o papel de controlar as eleições presidenciais também. Esse feedback reforça ainda mais a liderança de republicanos e democratas.

 

As reformas adotadas na década de 1970 deveriam ter alterado esse quadro. Na campanha presidencial de 1968, muitos democratas se insurgiram quando seu partido se negou a nomear o candidato popular antiguerra Eugene McCarthy. Em vez disso, a sigla escolheu Hubert Humphrey, que não ganhara uma única primária estadual —e ele acabou perdendo a eleição para o republicano Richard Nixon.

Após a debacle de 1968, democratas e republicanos iniciaram um processo de reformas internas para democratizar o sistema de escolha de seus candidatos presidenciais. A ideia era que as eleições primárias tirassem o controle das mãos das elites partidárias e dessem mais poder aos cidadãos comuns para decidir quais candidatos seus partidos nomeariam.

Todavia, os líderes das siglas não se resignaram a abrir mão do controle. Uma década atrás, uma equipe de quatro destacados cientistas políticos publicou um livro intitulado “The Party Decides” (o partido decide). Marty Cohen, David Karol, Hans Noel e John Zaller explicaram como as lideranças ainda encontravam maneiras de moldar o resultado, através de uma “primária invisível”. 

Antes de os eleitores comuns terem depositado seu primeiro voto, relata o livro, os líderes partidários já tinham examinado a lista de candidatos e selecionado o provável vencedor, com base em endossos e doações de campanha.

No entanto, nas duas eleições mais recentes, o processo para a indicação dos candidatos presidenciais parece ter ficado mais caótico e menos controlável. É aqui que começa o abrasileiramento da política americana.

David Samuels, da Universidade de Minnesota, e Cesar Zucco, da Fundação Getulio Vargas, argumentam que ao longo das duas últimas décadas o antipetismo virou uma identidade social que afeta tudo na política brasileira. Para prever o resultado de eleições, não basta os pesquisadores perguntarem qual partido os brasileiros apoiam —hoje também precisamos saber quais eles odeiam.

Aquilo que os acadêmicos chamam de “polarização afetiva” entre partidos também cresceu vertiginosamente nos Estados Unidos nas duas últimas décadas. No segundo mandato de Barack Obama (2012-2016), muitos republicanos o detestavam. Sentimento semelhante, de certo modo, ao de alguns brasileiros em relação ao PT naqueles anos. Esse é apenas um dos vários paralelos esdrúxulos entre nossos países.

Poderíamos supor que a hostilidade crescente contra adversários deixaria os americanos mais dispostos a seguir o comando das legendas de sua preferência. Paradoxalmente, contudo, evidencia-se a cada pleito o enfraquecimento das lideranças partidárias.

Dias antes da eleição de 2016, a acadêmica Julia Azari comentou com argúcia que uma caraterística definidora de nosso momento é que “os partidos políticos estão fracos, mas o partidarismo está forte”.

Motivados pela forte oposição a Obama e ao partido Democrata, muitos republicanos candidataram-se à Presidência em 2016. Um deles foi o empresário outsider Donald Trump. Em um primeiro momento, os líderes republicanos não viam a candidatura de Trump com bons olhos. A questão era saber: quem eles apoiariam em seu lugar?

Se aquela tivesse sido uma eleição típica, poderiam ter apostado em alguém como Jeb Bush, ex-governador da Flórida e membro de uma família com dois ex-presidentes. No entanto, diante de um campo de pré-candidatos excepcionalmente grande, não houve uma coordenação interna efetiva.

A maior preocupação dos líderes da direita era derrotar a esquerda. Quando não conseguiram se unir em torno de um dos direitistas do establishment, deram seu apoio ao outsider populista.

Algo soa familiar nisso tudo? Há paralelos marcantes entre a eleição americana de 2016 e a eleição brasileira de 2018 —por exemplo, o desempenho lamentável de insiders que contavam com a preferência de parcela significativa da elite política, como o já citado Jeb Bush, que abriu mão de sua candidatura após resultados pífios nas prévias, e Geraldo Alckmin, que ficou em quarto lugar nas eleições, o pior resultado de seu partido, o PSDB, nas corridas presidenciais (a propósito, traduzir “picolé de chuchu”, apelido de Alckmin, para o inglês sempre é divertido, já que poucos americanos tiveram a honra de conhecer o nobre chuchu).

E isso nos conduz a 2020. O que aconteceu ao partido Republicano quatro anos atrás parece se repetir agora com o Democrata. Do mesmo modo que os eleitores republicanos se deslocaram ainda mais para a direita como reação a Obama, os eleitores democratas avançaram rumo à esquerda na escala ideológica sob a Presidência de Trump.

Os líderes democratas, porém, não conseguem chegar a um acordo em relação a qual candidato tem mais condições de derrotar Trump; também não tiveram até agora sucesso em coordenar-se muito bem na primária invisível. Nesse cenário de falta de coordenação no comando, Sanders e Bloomberg, ambos com relação conturbada com os líderes partidários, estão se saindo bem.

Em princípio, uma maioria sólida de eleitores democratas com certeza apoiaria o candidato insider que for a melhor aposta para derrotar Trump. Acontece que a primária visível não se presta muito bem a ajudá-los a descobrir a resposta. O resultado final pode muito bem vir a ser que o partido indique Sanders, que conta com uma base dedicada, como seu candidato presidencial.

Assim, quando afirmo que Sanders é o Bolsonaro da esquerda americana, quero dizer que ele é mais extremado ideologicamente do que muitos de seus potenciais eleitores e que mantém vínculos fracos, instrumentais e conturbados, com seu partido.

O leitor já deve ter notado que Trump também compartilha essas características. Observa-se, todavia, algo interessante: o relacionamento de Trump com seu partido vem melhorando. Desde sua vitória, conquistou alguma capacidade de controle sobre a sigla, em parte porque expulsou muitos de seus adversários. 

Já Bolsonaro... bem, ele provavelmente terá relação melhor com o partido que pretende criar (Aliança pelo Brasil) que com sua antiga sigla (PSL), mas talvez nunca venha a ter coalizão partidária eficaz no Congresso.

Por que Trump vem conseguindo exercer controle sobre seu partido e o Congresso, mas Bolsonaro tem dificuldade? Isso se deve muito aos sistemas partidários e de mídia de cada país. No modelo de dois partidos dos Estados Unidos, altamente polarizado, os republicanos moderados reconhecem que se opor a Trump é o mesmo que ajudar o partido Democrata. Por isso, calam-se a contragosto. 

Já Rodrigo Maia, presidente da Câmara no Brasil, parece estar convencido de que poderá fazer oposição a Bolsonaro sem ajudar o PT.

Será que um eventual presidente Sanders terminaria como Bolsonaro ou como Trump? A polarização partidária nos EUA pode incentivar democratas no Congresso a aceitarem Sanders, assim como republicanos vêm tolerando Trump —mas estou longe de ter certeza de que o elenco atual de democratas faria isso.

O que se configura como aposta mais sólida é que um eventual presidente Sanders acabe polarizando o eleitorado ainda mais, na medida em que os republicanos teriam forte rejeição a alguém que se descreve como socialista.

Como explicam os professores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no livro “Como as Democracias Morrem”, há duas grandes formas de colapsos na ordem democrática: quando insiders consolidam o poder de forma excessiva ou quando outsiders os derrubam. A polarização crescente eleva ambos os riscos.


Amy Erica Smith, professora associada de ciência política na Iowa State University, é autora do livro ‘Religião e Democracia Brasileira: Mobilizando o Povo de Deus’ (2019, Cambridge University Press).

Tradução de Clara Allain

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