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'Bloomberg e Bolsonaro nunca serão grandes debatedores', diz ex-assessor de democrata

Arick Wierson foi consultor de imagem do presidente brasileiro na campanha de 2018

Washington

Arick Wierson é contra debates em campanhas eleitorais. Afirma que o formato, marcado por ataques entre os candidatos, não reflete em nada as habilidades que o presidente precisa ter para governar o país.

Assessor por quase uma década do ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, Wierson trabalhou também como consultor de imagem de Jair Bolsonaro em 2018 e aponta uma semelhança marcante entre os dois políticos.

"Bloomberg nunca vai ser um grande debatedor, e Bolsonaro era a mesma coisa, não tinha condições de enfrentar um grande ataque."

O ex-assessor de Michael Bloomberg Arick Wierson
O ex-assessor de Michael Bloomberg Arick Wierson - Divulgação

Nascido em Minnesota, estado do Meio-Oeste dos EUA, Wierson se interessa pelo Brasil desde a juventude. Formado em Relações Internacionais pela Universidade de Georgetown, em Washington, fez mestrado em economia na Unicamp e trabalhou como modelo na década de 1990 no país —foi até "Colírio" da revista Capricho, que tinha uma seção com fotos de garotos bonitos. Hoje atua como analista político em emissoras americanas como CNN e CNBC.

Em entrevista à Folha em português fluente, Wierson diz que Bolsonaro tem uma "reputação péssima" fora do país e que o bilionário e ex-prefeito da maior cidade dos EUA é o único candidato capaz de vencer Donald Trump.

Bloomberg tenta se consolidar como o nome de centro para disputar com o progressista Bernie Sanders a indicação democrata à Casa Branca, mas seus desempenhos pífios nos debates animaram os concorrentes.

Como começou a trabalhar para Michael Bloomberg? Minha namorada era funcionária da Bloomberg no Brasil e, no fim de 2000, foi promovida para o escritório de Nova York. Eu tinha vontade de trabalhar com política e havia rumores de que Bloomberg [dono da empresa] estava pensando em se candidatar a prefeito. Pedi para ela marcar uma conversa com ele e deu certo. Ganhamos por um triz, mas ganhamos. Durante os dois primeiros mandatos, cuidava de mídia, da imagem dele e da imagem da cidade. Quando Bloomberg decidiu que iria para um terceiro mandato, resolvi voltar para a iniciativa privada.

Foi assim que prestou serviços para a campanha de Jair Bolsonaro? Fui convidado por um grupo de estrategistas políticos no Brasil para ajudar em projetos no país e fundamos a consultoria TZU. Trabalhamos com algumas campanhas em 2018, tínhamos um namoro com o Partido Novo, de João Amoêdo, mas não deu em nada. Começamos a trabalhar para Bolsonaro depois que ele levou a facada [em setembro de 2018]. Minha missão era suavizar e tornar a imagem de Bolsonaro, que é uma pessoa um pouco tosca, mais palatável para os que ainda tinham receios sobre ele.

Avalia que conseguiu cumprir esse papel? Bolsonaro teve a sorte —ou talvez o juízo— de se associar com gente como o [ministro da Justiça, Sergio] Moro e o [ministro da Economia, Paulo] Guedes, que fazem boa gestão, que estão transformando o país depois do PT. Mas, ao mesmo tempo, ele tem certos desafios em relação à comunicação, não sabe se posicionar ou criar uma narrativa que comunique bem o que ele está fazendo.

Ainda tem interlocução com o governo brasileiro? Não posso abrir isso. Tenho boa ponte por lá, tento continuar dando meus palpites, e vamos ajudar na estratégia do novo partido do Bolsonaro, o Aliança. Mas continuo achando que, tanto na mídia brasileira como na mídia americana, o Bolsonaro tem uma péssima reputação.

É possível melhorar a imagem do Bolsonaro fora do país? Acho que ele tem que ser mais pró-ativo na comunicação. Ele deixa a mídia internacional pegar uma notícia e não rebate, não disputa, ele não tem pessoas que falem por ele, que expliquem para a mídia americana o que ele está fazendo.

O sr. vê semelhanças entre Bolsonaro e Bloomberg? Os dois viam e veem uma grande ameaça no status quo, no governo atual, e se colocam como as únicas pessoas que podem salvar o país. Outra coisa: você nunca ouve falar que Bolsonaro é corrupto, assim como Bloomberg, que não aceita um centavo de ninguém e vai chegar à Casa Branca sem nenhum passivo político, uma coisa inédita, sem dever nada a ninguém.

O Ministério Público do Brasil diz ter encontrado indícios da prática de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro, ou seja, desvio de salário de assessores do filho do presidente. Promotores afirmam que há suspeita de lavagem de dinheiro para a compra de imóveis. No caso do Bloomberg, há acusações de assédio e discriminação de gênero contra mulheres. Se você está esperando o candidato perfeito, vai esperar até Jesus voltar. Não vai concordar 100% com tudo. Mas sempre digo que um dos maiores erros do Bolsonaro foi envolver os filhos na política, assim como Trump.

Muitos americanos dizem não gostar da personalidade de Trump, mas que votarão nele porque a economia vai bem. O presidente será reeleito? Não sou grande fã do Trump. Não porque ele fala muita besteira, mas porque ele está destruindo todo o arcabouço jurídico e institucional dos EUA, criando uma situação que facilmente pode derrubar a mais sólida democracia do mundo. Esses são os grandes dilemas em que o americano tem que pensar, não somente na parte econômica, que tem melhorado por medidas tomadas inclusive durante o governo Barack Obama.

Acredita que é possível a oposição vencer neste ano mesmo com o Partido Democrata tão dividido? O sistema eleitoral nos EUA funciona de tal forma que é preciso muito dinheiro para competir. Trump, além de ser o atual presidente e ter a máquina do governo a seu favor, tem muito dinheiro para gastar e a única pessoa que consegue bater contra ele é Bloomberg.

Bernie Sanders lidera as pesquisas e também a arrecadação entre os democratas [Bloomberg se autofinancia]. Por que ele não tem chance, na sua avaliação? Bernie tem muito dinheiro, mas, sobretudo entre a geração mais velha americana, quando se fala em socialismo remete-se ao comunismo. Parece um pouco ridículo, mas eles acham que, com Bernie, o país vai virar comunista. Então, se não gostam do Trump, muitos vão simplesmente ficar em casa e não votarão em ninguém, porque o voto não é obrigatório nos EUA. Ou vão acabar voltando no Trump mesmo que mordendo os dentes, só para não votar no Bernie.

Isso em termos de eleição nacional. Até lá, como Bloomberg se destacará entre os moderados e desbancará Sanders para ser nomeado o candidato democrata? Não sei se ele vai superar Bernie na Super Terça [quando 14 estados fazem suas primárias ao mesmo tempo, em 3 de março, e Bloomberg entra na disputa], mas acho que há uma grande possibilidade de Bloomberg ficar em segundo lugar, com o maior número de delegados, depois do Bernie. Ele já gastou quase US$ 500 milhões em propaganda eleitoral. Acredito que agora Boomberg vem com as armas pesadas contra Bernie, com muita publicidade que vai tentar detonar o senador.

Acredita que Bloomberg chegará na convenção nacional democrata, em julho, atrás de Sanders e ganhará no segundo turno, com o voto dos superdelegados? Hoje é o mais provável. Pode ser que daqui a dois meses vire outra coisa. Dificilmente Bernie chegará aos 1.991 dos 3.979 delegados necessários para vencer a convenção no primeiro turno, e Bloomberg virá logo atrás, porque é quem vai sobreviver como único centrista até o final. Ele não vai desistir. E aí as pessoas vão perceber que Bernie é praticamente uma missão suicida para o partido, então Bloomberg vai conseguir juntar as peças para ganhar a nomeação. [os superdelegados são líderes do partido que não são eleitos nas primárias e podem votar como quiserem na convenção em caso de segundo turno]

Bloomberg vence Trump? Aí vamos ver, será uma briga de foices. 

A eleição de 2018 no Brasil foi polarizada entre Bolsonaro e PT, e os candidatos de centro acabaram com resultados muito ruins. Por que avalia que há espaço para o centro nos EUA, quando o país também está bastante dividido? O centro sempre acaba ganhando a eleição nos EUA. Centro-direita ou centro-esquerda. Hillary Clinton venceu no voto popular em 2016 e representava a centro-esquerda, o próprio Trump se posicionou como centro-direita, e ganhou no Colégio Eleitoral, ele não foi para a extrema direita durante a campanha.

Bloomberg não foi bem no debate da semana passada em Nevada. Avalia que ele errou ao decidir participar? Aconselhei Bolsonaro a não ir a debates em 2018. Debater é um entretenimento, mas não tem nada a ver com o que você precisa para ser presidente, então sou contra. É muito mais interessante fazer entrevista com jornalistas, com tempo para respostas pensadas, sem ninguém gritando em cima de você. Funciona melhor para o eleitor conhecer as ideias dos candidatos. Bloomberg nunca vai ser um grande debatedor, e Bolsonaro era a mesma coisa, não tinha condições de enfrentar um grande ataque.

A participação de Bloomberg no debate desta terça (25) na Carolina do Sul foi considerada um pouco melhor, mas ainda fraco. Os maus desempenhos podem prejudicá-lo de maneira definitiva? Ele foi muito melhor do que da última vez [em Nevada], mas, mesmo assim, Bloomberg não é uma pessoa muito vocacionada para debate, esse não é o foro ideal para ele. Na terça, fez algumas tentativas de piadas que não deram muito certo. Acredito que, à medida que for diminuindo o número de pessoas no palco, ele terá mais tempo e mais chance de dar respostas mais elaboradas para mostrar como governaria o país.



Nome: Arick Brice Wierson

Idade: 48 anos

Formação: Relações Internacionais na Universidade de Georgetown; mestrado em economia na Unicamp

Atuação: Ex-assessor de mídia e comunicação do ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg (2001-2009); hoje analista na CNN, CNBC, Vice e Observer

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