Modernismo foi expressão de domínio político da oligarquia do café, diz pesquisador

Refundar o país a partir da hegemonia paulista é o principal sentido do movimento de 1922

Carlos Eduardo Berriel

[RESUMO] Em réplica a texto de Jason Térsio, pesquisador enfatiza a vinculação do movimento modernista à oligarquia do café. Para o autor, a Semana de 1922 expressou o projeto de hegemonia política e econômica de São Paulo na Federação brasileira, fundado na ideia de superioridade étnica dos paulistas.

Recentemente publiquei neste caderno um artigo sobre o último livro de Ruy Castro, “Metrópole à Beira-Mar”, no qual procurei distinguir um aspecto amplamente demonstrado pelo livro, que era a riquíssima vida cultural do Rio de Janeiro nos anos 1920 —e que tal constatação contrariava a visão negativa que o modernismo, de modo difuso, buscou consolidar.

Meu artigo foi na semana seguinte comentado nesta mesma Folha pelo sr. Jason Tércio em texto desrespeitoso, marcado por diversionismo, esquematização no trato dos argumentos e muita desinformação.

O verdadeiro problema que incomodou o articulista foi o da vinculação de classe do modernismo. Avesso à evidência da identidade dos modernistas de São Paulo com a esfera da oligarquia cafeicultora, o articulista afirma: “Quanto ao patrocínio da Semana, o papel das elites tem sido superestimado na historiografia modernista. [...] Foi um movimento essencialmente de classe média, sem vínculo orgânico com as oligarquias”.

Homens de terno posam para foto enfileirados em escada
Almoço de escritores integrantes da Semana de 22, no Hotel Terminus - Folhapress

Pois na sua mais importante conferência, "O Modernismo" (1942), Mário de Andrade afirmou exatamente o contrário: “O movimento modernista era nitidamente aristocrático. Pelo seu caráter de jogo arriscado, pelo seu espírito aventureiro, pelo seu internacionalismo embrabecido, pela sua gratuidade antipopular, pelo seu dogmatismo prepotente, era uma aristocracia do espírito. Bem natural, pois, que a alta e a pequena burguesia o temessem. Paulo Prado, ao mesmo tempo um dos expoentes da aristocracia intelectual paulista, era uma das figuras principais da nossa aristocracia tradicional. [...] E foi por tudo isto que Paulo Prado pôde medir bem o que havia de aventureiro e de exercício do perigo no movimento, e arriscar a sua responsabilidade intelectual e tradicional na aventura. [...] Si [sic] Paulo Prado, com a sua autoridade intelectual e tradicional, tomou a peito a realização da Semana, abriu a lista das contribuições e arrastou atrás de si os seus pares aristocratas e mais alguns que a sua figura dominava, a burguesia protestou e vaiou”.

Cai inteiramente por terra, portanto, a tese do sr. Jason. Segundo Mário de Andrade, o modernismo paulista foi essencialmente ligado à experiência social da oligarquia do café, e quem conhece a obra do autor de "Macunaíma" está a par deste fato histórico. E cabe uma exclamação aqui, pois no crédito de seu artigo somos informados que o sr. Jason é autor de uma biografia de Mário de Andrade!

A acrimônia do artigo continua: “Berriel também reafirma a lenda (ou teoria da conspiração) de que os artistas e escritores paulistas modernos teriam lançado o movimento em conluio com as elites políticas e econômicas do estado, para solapar a cultura carioca e assim conquistar para São Paulo a hegemonia nesse setor”. Essa é uma forma de deformar o raciocínio do adversário para mais facilmente combatê-lo.

Conluio significa acordo realizado com o propósito de prejudicar outra pessoa; trama ou conspiração. O sr. Jason demonstra não dominar o significado da organicidade de classe dos intelectuais. Justamente por não serem criaturas de classe média, os modernistas pensavam a cultura em altos patamares, e elaboraram uma visão do Brasil homóloga ao movimento hegemônico da oligarquia cafeeira. Algo diferente do que o sr. Jason parece alcançar com suas fórmulas de adolescente.

Quanto à distância dos membros da Semana com relação ao Rio de Janeiro, cito novamente Mário de Andrade: “Uma coisa dessas [a Semana] seria impossível no Rio, onde não existe aristocracia tradicional, mas apenas alta burguesia riquíssima. E esta não podia encampar um movimento que lhe destruía o espírito conservador e conformista”.

No Brasil se constituiu, desde a Proclamação da República —principalmente na chamada República Velha—, a hegemonia de um novo setor econômico, o da cafeicultura, sobre o conjunto do país. Sobrepondo-se ao açúcar, a oligarquia do café, que monopolizava o Estado através da política do café com leite, transformou o Brasil em um sistema caudatário de sua classe, através do chamado Convênio de Taubaté, de 1906, que instituiu no país um sistema em que São Paulo agia como metrópole e submetia o resto do país a uma condição próxima à de uma colônia.

Resumidamente, o sistema funcionava da seguinte forma: os cafeicultores poderiam produzir quase ilimitadamente, pois o Estado brasileiro compraria os excedentes através de empréstimos internacionais a serem pagos com os recursos federais. Na prática significava que o conjunto dos estados brasileiros arcava com esta dívida, cotada em libras esterlinas.

Mais tarde o café poderia ser exportado ou não. Poderia ser queimado ou jogado no mar, como aconteceu com a crise de 1929. Essa prática era homóloga a um sistema colonial interno, pois sangrava a economia de todos os estados brasileiros, que repassavam seus recursos para a oligarquia do café ao arcarem com o pagamento dos empréstimos internacionais.

Em decorrência, São Paulo enriqueceu extraordinariamente, e se imaginou uma locomotiva puxando 20 vagões vazios. Esse sistema durou um terço de século, e quando acabou por decreto de Vargas, em 1932, a oligarquia paulista promoveu uma guerra civil pelo retorno de seus privilégios. Guerra essa, aliás, apoiada vivamente pelos modernistas.

O modernismo, a Semana de 22, foi a manifestação, no plano artístico, da mentalidade do Convênio de Taubaté —e mesmo Oswald de Andrade confirmava esta ideia. Como faces de uma mesma moeda, a política do café e o movimento modernista veem São Paulo como uma entidade capaz de sintetizar o país a partir de si, criar um novo complexo político-cultural superando a dinâmica então existente, cujo epicentro era a capital federal, o Rio, que Mário de Andrade chamava de Corte. Fundar um país a partir do complexo da cafeicultura paulista.

O projeto foi exposto na obra historiográfica de Paulo Prado, “o verdadeiro fautor da Semana de Arte Moderna”, conforme Mário de Andrade. Concordam com esta afirmação Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Tarsila do Amaral e outros. A ele foram dedicadas obras como “Macunaíma” e “Serafim Ponte Grande”, entre outras.

Ocorre que Paulo Prado era também um dos maiores produtores e exportadores mundiais de café, e ao mesmo tempo a consciência mais lúcida e ousada da oligarquia. Acumulava ainda o papel de ensaísta e historiador e desenvolveu, a partir da Semana, uma teoria segundo a qual existiriam no Brasil duas mestiçagens distintas, ligadas à história de Portugal.

A Geração de 70 —o grupo do historiador Oliveira Martins, de Antero de Quental, de Eça de Queirós, de Ramalho Ortigão— defendia a ideia de que Portugal contara com uma raça heroica que promovera as navegações, os descobrimentos, e essa raça heroica existira até 1580, quando Portugal caiu sob o domínio espanhol. Queda essa da qual não se recuperará jamais, e a partir dela a raça portuguesa teria entrado em decomposição, em decadência.

Segundo essas ideias de base racial, havia uma raça portuguesa que degenerara, de modo que o português após 1580 é um decadente, degenerado e inútil. Paulo Prado absorve essa teoria, e a aplicará à nossa realidade no "Retrato do Brasil", de 1928.

Segundo sua tese, São Paulo é a única cidade que não foi fundada no litoral, mas no planalto, protegido do contato exterior pela Serra do Mar, em quarentena. E quem funda São Paulo são justamente os portugueses de antes de 1580, a dita raça heroica. Daí por diante São Paulo teria ficado inacessível aos novos portugueses, atingidos pela decadência pós-1580.

Os portugueses decadentes pós-1580 chegaram e tornaram-se maioria no restante do Brasil, desprovido da barreira sanitária da Serra do Mar. No Brasil forma-se um amálgama racial com o apodrecido elemento português pós-1580, com a “depravação” do negro escravizado (vide Joaquim Nabuco) e a lascívia natural do índio (vide relatos dos viajantes). Este caldeirão étnico gera o brasileiro —segundo eles, um tipo deplorável e um elemento deletério, com o qual não se pode fundar uma nação.

São Paulo, ao contrário, seria o resultado de outra mescla racial, em que não comparecia o negro. O português heroico pré-1580 se misturou ao índio, gerando o mameluco, o paulista. (Observe-se que o índio, em São Paulo, inexplicavelmente não seria lascivo).

Essa mescla racial constituiria o bandeirante, produto do português que herdara o espírito das descobertas, agora terrestres e fluviais, e que ao mesmo tempo possui o domínio da natureza e do território, trazido pelo índio. Paulo Prado chega mesmo a dizer que o paulista já seria uma raça. Então, teríamos no Brasil uma mestiçagem racial superior, São Paulo, e uma inferior, o Brasil. O quanto disso não está disseminado ainda hoje?

“São Paulo é uma grandeza já, e seria muito mais grandioso si [sic] não fosse estragado pelo Brasil”, disse Mário de Andrade em 1932.

Em decorrência, o Estado brasileiro deveria seguir essa lógica: não haveria como manter uma Federação com igualdade de direitos para todos, dada a natural e histórica superioridade étnica dos paulistas.

Além do mais, o paulista seria o único capaz de produzir uma arte autêntica, a modernista, pois o brasileiro rastejava no romantismo, no parnasianismo etc. —que os de São Paulo estavam superando.

Essa ideologia foi constituída em simultaneidade com o crescimento da importância do café na economia brasileira. Paulo Prado expande essas ideias para um movimento artístico, que foi a Semana de 22. Quando o café se torna a atividade econômica dominante, o Brasil já era um sistema político organizado na Corte, no Rio de Janeiro.

São Paulo tem uma luta contínua —política, econômica e cultural— para romper a síntese cultural e política consubstanciada no Rio de Janeiro. O modernismo é, digamos assim, um sistema cultural em formação que se dispõe contra o sistema cultural dominante até então, consubstanciado no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Letras, na Corte, na capital do Império e da República.

O modernismo, para desqualificar esse sistema cultural, teve de agridir toda a literatura anterior. O que temos na verdade é uma disputa de hegemonias: o modernismo lutando, no plano cultural, pela transferência da hegemonia política e econômica do Rio para São Paulo.

É um movimento indissociável da política oligárquica paulista, portanto. E a desautorização das formas estéticas e literárias dominantes é a outra face da desautorização do sistema político brasileiro, em que todas as províncias possuíam direitos equivalentes.

A ação iconoclasta dos modernistas buscou cortar os vínculos nacionais com a sua própria tradição, já acumulada. O Brasil não deveria mais se reconhecer pela tradição cultural já constituída, mas seria necessário refundar o país a partir da experiência exclusivamente paulista. Este é o sentido mais profundo da Semana.

O amplo projeto modernista não cabe dentro do universo mental da classe média, familiar ao sr. Jason. Foi a extensão da visão de mundo de um setor da burguesia brasileira, num raro episódio em que uma classe dominante nacional esboçou um projeto nacional. Que quis o país para si.


Carlos Eduardo Berriel é professor livre-docente de teoria literária da Unicamp e autor do livro “Tietê, Tejo e Sena – a Obra de Paulo Prado”.

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