Descrição de chapéu
James Cimino

Nem Karol Conká, nem Projota; o grande vilão do BBB é o público

Enquanto assiste ao show de horrores, o ativista-espectador cria para si a ilusão de que irá aplicar sua justiça através do mouse

James Cimino

Jornalista, escreve sobre filmes e séries para veículos de comunicação do Brasil.

[resumo] Para jornalista, tão falso quanto o reality é “a indignação dos ativistas identitários de sofá” que protestam nas redes, mas continuam assistindo, e financiando, a um programa que explora a degradação humana em casos de machismo, racismo, homofobia e até suspeita de estupro. ​

Eu não dou audiência ao famigerado “Big Brother Brasil”. Por isso, quando a edição 21 começou, eu iniciei a ativação de filtros para evitar os posts sobre o programa na minha timeline do Twitter.

Mas, spoiler alert, os filtros não funcionam, e a presença dos tópicos sobre “BBB 21” é tão grande que me senti dentro de um micro reality em que sou torturado pelos espectadores com conteúdos sobre o programa.

Por isso, minha reação imediata foi me tornar o carrasco dos meus carrascos e comentar um assunto que eu acho que vem sendo ignorado há 21 anos: a pseudo indignação dos ativistas identitários de sofá.

Quero deixar claro que pouco me importam os conflitos entre os participantes e não vou perder meu tempo, nem o do leitor, analisando suas contradições. Tudo ali é falso, milimetricamente pensado para causar reações de indignação e, assim, manter a audiência e a receita em alta.

O “Big Brother Brasil” é um reality cuja essência é a intriga, a fofoca, o preconceito, a tortura física e psicológica, e o voyeurismo sádico do público. Nenhum participante tem que demonstrar criatividade nenhuma, apenas exibir seus piores preconceitos uns contra os outros.

Desde a primeira edição houve machismo, racismo, homofobia, misoginia, até acusação de estupro (se é que não houve mesmo estupro e foi editado pela produção). Houve até uma racista declarada sendo vencedora. Mudam os participantes, mas a fórmula é a mesma.

Portanto, para que eu vou ficar me torturando, acompanhando isso se repetir e ainda contribuir financeiramente para quem produz?

Por isso digo que quem assiste ao programa é o grande vilão do “BBB”, pois dá relevância e audiência a um show que explora a degradação humana. O programa está no mesmo nível do “Programa do Ratinho”, do “Cidade Alerta” e dos “debates” promovidos pela Jovem Pan e pela Rede TV! com seus times de conspiracionistas autointitulados comentaristas políticos.

É tudo falso, cheio de preconceito social, racial e de gênero, mas vendido como verdade absoluta e arremedo de justiça. Portanto, se você se indigna, mas continua assistindo, o vilão é você.

É você que se compraz com a degradação moral, física e psicológica daqueles a quem considera inferiores. Não à toa, os episódios de maior audiência são os das provas de resistência, em que os participantes topam qualquer tipo de indignidade, como não ir ao banheiro, não dormir, não comer, ter insolação, a troco de um carro, por exemplo.

Como essa degradação é espetacularizada, o ativista-espectador cria para si a ilusão de que ele é a pessoa consciente dos problemas do mundo que irá aplicar sua justiça através do mouse quando resolver expulsar aqueles que serão eleitos os vilões da pseudo narrativa de justiça social.

Logo depois da desistência de Lucas Penteado, vítima de tortura psicológica ironicamente provocada pela psicóloga Lumena, além de uma dose cavalar de bifobia, a timeline do Twitter estava cheia de justiceiros sociais de sofá tagueando as marcas que patrocinam o “BBB” e pedindo um boicote.

Ora, as marcas só estão fazendo fila para anunciar nesse programa, que vai faturar em torno de meio bilhão de reais, porque você está sintonizando sua TV no “BBB” ou assinando o pay per view da GloboPlay, amiguinho. Quer mesmo boicotar o programa? Pare de assistir.

Ou então admita que você quer ver o circo pegar fogo e bombar seu canal do YouTube ou financiar mais uma cansativa tese de mestrado sobre o “experimento humano” que é o programa.

Em “A Sociedade do Espetáculo”, livro que considero essencial para entender as relações entre mídia e sociedade de consumo, o autor Guy Debord descreve o “BBB” e a falsa consciência de classe de sua audiência bem antes de o programa existir. Cito três trechos.

1) “Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo ‘separado’, ele é foco do olhar iludido e da falsa consciência.”
Seu olhar é iludido pela falsa narrativa e sua consciência de classe é falsa porque você alimenta o conflito. Não se engane, embora o programa supostamente debata questões reais e relevantes, o faz de maneira falsa e dissimulada, pois:

2) “O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é simultaneamente o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário —o consumo”.

Ou seja, por trás de tudo o que acontece no “BBB” está a perversidade da produção, que colocou na casa personagens com um fim bem claro: fazer com que um monte de gente olhe para a pauta progressista com desprezo. Quantas pessoas vocês já viram, depois que esse programa começou, falando: “Olha lá, os próprios negros são os preconceituosos”.

Portanto, não adianta cancelar a “curitibana educadinha” porque ela está fazendo exatamente aquilo para que foi contratada: criar conflito. Não é isso que vocês sempre falam? Que não pode expulsar a “vilã” no começo, pois assim não haveria conflito e nada aconteceria?

Pois é. Ela, Lumena, Projota e Nego Di foram colocados ali, escolhidos a dedo pelo diretor do programa, para exatamente expor algo que existe, mas que nem de longe é a representação da totalidade do ativismo político social brasileiro: uma galera que usou a pauta identitária para faturar dinheiro às custas dos iludidos. O pop lacração enganou vocês direitinho. E o reality embalou o produto com lacinho de fita, afinal…

3) “No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.”

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